Futebol, uma arena de morte?

 

 

Ironicamente, esta época «O Jogo do Ano» , que poderá perfeitamente ser o desfecho do campeonato 2010/2011, virou-se às avessas, e, apesar dos intervenientes serem os mesmos do ano passado, os candidatos e os palcos do jogo são os opostos: desta feita são os Dragões que podem reconquistar o estatuto de campeões no estádio do rival, na Luz (acontecimento do qual à partida não acredito que o SLB permita).

Depois da experiência do ano passado (link) e de ter prometido a mim mesmo (ou melhor, se calhar foi mais a minha mulher e meus filhos) que não punha os pés em tais ambientes tão depressa… actos de vandalismo e violência só têm crescido no mundo do futebol. Os estádios estão cada vez mais entregues aos Ultras, Claques (marginais) Organizadas, e hoje sai mais uma, a noticia de mais um ataque ao autocarro da equipa e à viatura que transportava o Presidente do SL Benfica, aquando da sua deslocação, a Passos de Ferreira, na periferia da Cidade do Porto.

 

Está Portanto criado o ambiente (aguardando-se a retaliação) para a recepção daqui a quinze dias da equipa Portista e seus adeptos à “Capital da Luz”, Lisboa.

O que se está a passar no futebol português não é fenómeno exclusivo nacional, alarga-se aos demais países europeus : a predominância e preponderância das claques nos estádios, arrastando a violência e afastando as famílias e adeptos do futebol.

Mas ao histórico da rivalidade no futebol português há que acrescentar mais um dado relevante, o que começou por ser uma guerra lançada nos anos 90 de Norte para Sul, que o Norte viria a ganhar, e cujo país dos “6 Milhões orgulhosamente gloriosamente sós” ainda hoje não perdoa: O perder de um estatuto no futebol nacional – e não menos importante – no futebol internacional, para o clube do norte, do qual a capital estava mal habituada a que fosse sempre seu, nem que fosse… “por decreto”.

 

Um dos meus últimos textos escritos sobre futebol – esse desporto que consegue ter hoje tanto de apaixonante como de repugnante – reflectia precisamente esse meu entendimento, da nossa pequenez, à portuguesa. recupero-o hoje, tratou-se precisamente de meu post de saída/despedida na participação do Blogue BiBó PoRtO, carago!! , porque realmente, cansa, remar contra a maré!

 


Universo FCP«

 

 

Gosto de ver e olhar para o Futebol Clube do Porto, numa dimensão e grandeza como a que vai de Viena a Tokio (glórias FCP em 87/88), de Sevilha a Gelsenkirchen (glórias do FCP em 2003/2004), de Portugal para o mundo.

Serão certamente muitos mais, aos milhares, os que comungam deste tipo de ambição no FCP e isto pode ser sobretudo notório quando se olha num prisma menos habitual: desviando a atenção da árvore para a floresta.
Tanto mais clarividente se torna tal situação, quanto maior for a capacidade de desactivar certas emoções, ou a capacidade em dose certa de relativizar o quotidiano, de raciocinar.

Portugal é um país pequeno, periférico, em muitas vertentes ainda sub-desenvolvido, e que dá mostras diariamente precisamente disso.
A boçalidade impera, e para isto em muito, o já mui antigo fenómeno nacional de futebol contribui. A Industria da Bola (coisa distinta da Indústria Futebol) continua a “par e passo”, atrasada, numa verdadeira dimensão do Portugal-dos-Pequeninos, onde de resto os vários sectores da sociedade cuja “cultura da bola” tem um peso dominante, são de uma promiscuidade atroz.
O Futebol Clube do Porto, pela sua génese e características próprias, foi o único clube português que, uma vez aberta a oportunidade com o fim da ditadura politica, soube vingar, evoluir, e acompanhar uma nova era do fenómeno futebol, o da indústria futebolística, competentemente na pedalada que se lhe impunha: sobretudo globalizada.

Hoje chegados aos anos em que vivemos, e olhando para o país que temos, em nada me admira que se tente ofuscar o brilho que o FCP irradia. Neste país onde a mentalidade do “orgulhosamente sós” ainda perdura, e o nivelar por baixo é “pau para toda obra”, as raras excepções de sucesso dos mais capazes acaba por ser encarado como o desmascarar da mediocridade geral. Ao invés de servir de incentivo, é um tocar na ferida, e é isso que o FCP tantas vezes e a vários níveis, acaba por provocar.

Um exercício curioso pode passar por abrir a página do Google e fazer uma busca por FC Porto (link). Verificará que, à data corrente, o maior motor de busca mundial apresenta cerca de 10 milhões de resultados!

Se ensaiar a busca com os dados do maior clube rival (link) verificará que o SL Benfica obtém uns ”meros” 2,8 milhões de resultados.
Pode-se mudar os parâmetros da pesquisa, procurar pelos nomes completos das instituições, seleccionar a busca para determinado idioma especifico, procurar apenas imagens, etc… , regra geral, a disparidade de grandeza na amostragem irá se manter a favor do emblema azul e branco.
Vale o que vale, ou como salientado: “trata-se de um exercício curioso”, mas que ilações se podem tirar?
O Futebol Clube do Porto há já muito tempo que deixou de pertencer a um futebol e país que perdura em muitos aspectos no orgulhosamente só. O FC Porto é património do futebol global, universal, e aqui reside a sua principal exigência.

Como tal, seria por vezes bom não nos distrairmos com fait divers e outras manobras de diversão cá do burgo, sob pena de passarmos à nós próprios (portistas) um atestado de menoridade.

 

MrCosmos, 13/09/2010

 

Adenda, hoje 22/03/2011: Ainda há poucas semanas atrás uma peça televisiva da CNN vinha confirmar a imagem e estatuto mundial do FCP, ao que os portugueses, mesmo portistas, entretidos em gerrilhas, esquecem ou preferem não ver, e isto na realidade da “Escala do Futebol Mundial”. Actualmente o FCP está no 4º Lugar deste “TOP 10” CNN, Atrás do Barcelona (1.º), Real Madrid (2.º) e M. United (3.º).

 

Comments

2 responses to “Futebol, uma arena de morte?”

  1. PortoMaravilha Avatar

    Após a guerra des estrelas, eis a guerra das estrelas decadentes.

    Muito dificilmente o futebol se levantará da violência criada pelos ultras. Já aqui citei , nesta tag, em bons termos humorísticos : Sea the Stars : Um homem humilde. E bem mais outros textos.

    Muito dificilmente o futebol se leventará da homofobia, racismo, sexismo que os ultras tentam instalar. Os estádios Franceses estão às moscas e o psg salvou-se porque teve um presidente que proibiu os ultras no parc des princes.

    O número de páginas do diário L’Equipe dedicadas ao futebol diminui de ano para ano e a revista France Foot vai despedir jornalistas. A revista do grupo Hersant tem cada vez mais dificuldades em manter o mesmo número de vendas.

    O dinheiro levantado pelas transferências de jogadores começa a questionar os próprios ultras. O futebol, tendo em vista a hemorragia que sofre a todos os níveis nos grandes países, será em breve uma especie de corrida de cavalos onde haverão quatro ou cinco jornais que analisarão as apostas ( é o caso do hipismo aqui ) .

    E é claro que a violência afasta famílias e solteiros and solteiras.

    Não deixa de ser curioso que um grande país de Futebol, a Itália, tivesse pela primeira vez ganho à França em Rugbi, na semana de festejos da unidade Italiana.

    Do lado Francês foi um terremoto… Perder com a Itália. Mas o que é impensável no futebol : Nem o selecionador Francês, os jogadores Franceses, etc acusaram o árbitro. A culpa foi deles próprios.

    Evidentemente, o futebol Italiano também já começa a sofrer com a concurrência do rugbi.

    Mudando de modalidade :

    A nível europeu só se conhece a presença de ultras no andebol na Grécia. Tiveram a brilhante ideia de acenderem fumigeneos em recintos fechados.

    Este post é de actualidade porque hoje Platini foi eleito de novo presidente da uefa. Na entrevista que deu à France info / Radio France ( esta em teoria deve estar no site da France info ), Platini ( politicamente não gosto de Platini ), para quem sabe ler ( ouvir ) parece-me mais que preocupado quanto ao futuro do futebol ( e se calhar do seu cargo ) . Não deixa de ser estranho que o presidente da uefa diga que tudo fará para que os vossos filhos possam continuar a jogar futebol.

    Nuno

  2. u7 ulefone Avatar

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