“Viver só em Lisboa, com 11 anos, era muito complicado. A língua é quase diferente. Não é absolutamente nada o mesmo sotaque que na Madeira. Não compreendia nada.“
Cristiano Ronaldo
So Foot-Junior, mai 2014, p.37
Nuno

Para festejar o seu décimo aniversário, a revista So Foot, nascida com um capital de 450 euros, apresenta 198 páginas de entrevistas “orgásticas” com jogadores que marcaram e pontuam a história do futebol moderno.
Dado a conhecer, graças ao FC Porto, com a conquista da Liga dos Campeões Europeus em 1987, Paulo Futre é o único jogador Português presente no conjunto de entrevistados, destacando-se, assim, com Platini, Zidane, Ronaldinho, Hagi…
Após a consagração da Liga dos Campeões Europeus, Paulo Futre é transferido para o Atlético de Madrid por 400 milhões de pesetas (2,2 milhões de euros). A segunda maior transferência de sempre para aquela época. E esta transferência desagua, com o tempo, em outras. E, no âmbito da sua carreira, Paulo Futre, conhecerá Berlusconi e Bernard Tapie homens que, ainda hoje, são actores da actualidade internacional.
Nascido em 1966, numa família operária de Montijo, Paulo Futre, depressa toma consciência da sua condição social e define-se como anti-burguês. O seu primeiro salário é destinado a comprar um gira-discos e para ouvir a música de Queen e, se a história se repetisse, tornaria a fazer greve, como jogador, aquando a Copa do Mundo de 1986.
Poder-se-ia continuar a descrever a entrevista com Paulo Futre e, no fundo, poder-se-ia pensar que este depoimento não aponta nada de novo se não existissem estas palavras do mesmo Paulo Futre:
“ … (eu) não compreendia nada, não compreendia que se ganhássemos a final (LdC) todo o povo do Porto, ricos e pobres, ficaria feliz. E se perdêssemos todos chorariam. Porque só no Porto é que é assim.”
Haverá melhor do que estas palavras para definir uma nação?
O Porto é uma nação!
Fonte: So Foot – 10 ans – n°108 – pp.180-184
Nuno
A edição de Fevereiro da já lendária revista “So Foot” dedica um dossier de várias páginas ao melhor numero 9 da atualidade.
A exposição abre com a fotografia aqui presente. Uma fotografia que evita mil discursos. Não é necessário citar que entre Benfica, Saragossa e Porto, o realismo ditava ser este o melhor clube para o futuro de Falcão.
E Falcão vestiu a camisola n°9. E não a mais deixou.
Esta mesma edição apresenta, igualmente, um dossier – entrevista com Lucho. El Comandante diz que o Porto é um clube voltado para o futuro.
Mas já são muitas páginas e, assim, fico por aqui porque senão é cousa para não se crer.
Nuno
obs: So Foot, Fev 2013, pp. 26-39
“Deus escreve direito por linhas tortas” 


Morreu Hugo Chávez
O Presidente da Venezuela morreu hoje na sequência de um cancro. Reeleito para um quarto mandato, não resistiu até à tomada de posse, cuja data estava em aberto. (Link)
“On dit beaucoup de conneries sur l’art de réaliser des films. Il faut arrêter avec cette entreprise de mystification. Réalisateur, ce n’est pas faire de l’art comme la peinture ou l’écriture. C’est plus proche de l’entraîneur de football.” S. Mendes
Source: So Film N°5, Nov 2012, p.76
(tag: La transmission symbolique n°26-feuillets)
Nuno

“Dizem-se muitas caralhices sobre a arte de realizar filmes. É preciso parar com essa empresa de mistificação. Ser realizador não é criar arte como a pintura ou a escrita. É mais próximo do treinador de futebol.” S. Mendes
Fonte: So Film N°5, Nov 2012, p.76
Nuno

Bestiário Ilustríssimo é uma recolha de cinquenta textos em roda da Arte e, mais especialmente, da música. Li o livro de Rui Eduardo Paes na Auvergne, no centro da França. Esta região é também uma região de “antigos” vulcões. Marco Santos, no prefácio à recolha, escreve que o livro foi escrito em Marte. Mas, se o homem já visita Marte, nunca visitou o fundo da Terra nem dos vulcões. E são quatro os Dragões que guardam o segredo da vida que só a Arte sabe expressar.
“O Dragão: Engolir-vos-ei humanos e sem qualquer distinção. Todos. Todavia, talvez salve alguns: Outros não”.
Este velho poema Inglês integra a introdução ao texto de Sérgio Luís de Carvalho: Anno Domini 1348. Relato que conta a vida dum tabelião que se fecha em casa para se proteger da peste que assola a Europa e Portugal. À luz duma vela, ele vai ler as pranchas dum bestiário ilustrado que lhe tinham oferecido em criança. Cécile Lombard, a tradutora, escolheu um título diferente para a edição Francesa: Le Bestiaire Inachevé.
Por associação, devido aos títulos, de ideias ou por deformação profissional… vi uma continuidade entre os dois livros.
Rui Eduardo Paes é musicólogo. Também é autor de vários ensaios sobre Jazz e arte(s) contemporânea(s)… O prazer dos seus textos, descobertos no blog “Bitaites” de Marco Santos, levou-me, naturalmente, à leitura da recolha: Bestiário Ilustríssimo.
1. Dragão de Terra
No seu primeiro ensaio, o autor cita em preambulo Álvaro de Campos (F.Pessoa):”Sentir de todas as maneiras…“. A obra de Rui Eduardo Paes é uma obra com entradas multiplas. O pacto de leitura que nos é proposto parece ser a vontade de desmascarar o discurso oficial sobre a arte. Num país que acaba de suprimir o “Ministério da Cultura”, a luta a contra a estupidez e a ditadura cultural não pode assentar num fechar sobre si próprio. O mérito do autor é ter posto o seu saber e as suas ideias ao serviço da compreensão do mundo que nos rodeia. Isto é, autorizando um olhar universal sobre a Arte. E só esta universalidade nos permite interpretar o título: A Arte combate a vulgaridade e a destrói a bestialidade que existe em nós (Deleuze).
2. Dragão de Água
Gosto da referência ao Homunculus (pp.64-67). A lembrança de José Gil e de Herberto Hélder remetem para o estilhaçar do indivíduo no mundo actual, conceito que Fernando Pessoa cria com a constelação dos heterónimos. Nesta perspectiva, Rui E. Paes expressa e elucida, claramente, apoiando-se em José Gil, a noção de que a tentiva para entender outrem e a filosofia também podem e devem ser arte(s). E, isto, antes de serem dissertação. Deste ponto de vista, F. Pessoa seria não um poeta, mas um filósofo. Em paralelo, não pude deixar de estabelecer uma associação com a “BD-Manga” culto de Hidéo Yamamoto: Homunculus. Não deixa de ser curioso que fosse num país onde o modo de vida capitalista atinge um enorme expoente que surgisse artisticamente a narrativa duma experiência sobre o cérebro (dum “sem domicílio fixo”) e o porvir do sentir. O que nos remete para um olhar critico sobre o início do século XXI: O homem estilhaçado, o sentir e o conceito, a besta e o homem,…
3. Dragão de Fogo
No seu texto n°11, Retro-Inovadores, Rui Eduardo Paes apresenta a criação dum centro cultural polivalente na vila do Fundão. Construído a partir duma antiga fábrica de moagem, esta realização mostra que a arte é plural e interdisciplinar. Não sei se é um acaso ou não, a escolha de Rui Eduardo Paes. A vila do Fundão sempre foi um centro de resistência ao fascismo, ao colonialismo e aos seus crimes de guerra. O Jornal do Fundão compensou durante anos a não existência duma imprensa de dimensão nacional e livre. Foi uma publicação de resistência à estupidez e ao ordinário. Um pequeno semanário que se deu ao luxo de publicar textos de grandes vultos das artes de expressão Portuguesa. Um luxo as crónicas do poeta Brasileiro Carlos Drumond de Andrade… Assim, não é surpreendente, escreve Rui Eduardo Paes que “muitos criadores procurem no passado as suas referências”(p.68).
4. Dragão de Ar
O último texto n°50, Gigantes aos Ombros de Gigantes, levanta a problemática da partilha da criação musical na internet. Rui Eduardo Paes critica, com razão penso, a uniformização dos gestos e tendências que os majors da indústria musical querem impor ou fabricar. Respondendo, o nosso autor cita as ideias da militante libertária Esther Ferrer que associa o anarquismo à criatividade. Desconhecido muitas vezes, também existe um movimento anarquista em Portugal. O livro de João Freire (desertor e militante antifascista) apresenta a história desse mesmo movimento. Este foi criado em 1887 em Lisboa. O “Grupo Comunista Anarquista” obedece às orientações anarquistas da sua época. Por exemplo, rejeita o sentimento patriótico ou nacional, o egoísmo das raças, das religiões e das línguas…
Bestiário Ilustríssimo é uma bela recolha de textos. Estes podem ser lidos, independentemente, uns dos outros ou não. Uma obra Barroca que não se deixa fechar numa classificação determinante e determinada. Como os monstros que ornamentam as catedrais e colegiadas, os textos de Rui Eduardo Paes são um convite para pensar e sonhar.Uma a obra a ler e cujas muitas passagens são poesia. Linhas e parágrafos para serem lidos em voz alta, tal como a musicalidade da poesia. Mas não é para o nosso autor a música a mãe de todas as artes.
Nuno
J.M.G. Le Clézio obteve o prémio Nobel de literatura em 2008. O seu último romance é “Histoires du pied et autres fantaisies”.
Homem duma grande descrição, J.M.G. Le Clézio, levantou a voz para protestar contra a grande publicidade que tem sido feita em torno do texto de Richard Millet: “Eloge littéraire d’Anders Breivik“. O prémio Nobel denuncia o panfleto de R. Millet, lembrando que o jovem Breivik, cego pelo ódio, matou a tiro, de sangue frio, setenta e sete pessoas.
Le Clézio publicou a sua reacção no Le Nouvel Observateur (06-09-2012, p.9). Reproduzimos a passagem que nos parece sintetizar com clareza o que é um contributo para a compreensão da nossa Aldeia Global:
“A questão do multiculturalismo, que parece obcecar tanto alguns de nossos políticos e alguns dos nossos ‘chamados’ filósofos, é uma questão já antiga. Vivemos em um mundo de encontros,misturas e ‘confrontações’. As misturas e os fluxos migratórios sempre existiram, eles são os mesmos desde a origem da raça humana (única raça). O multicultural, como é chamado agora, não é mais suficiente. Ele faz guetos, culturas isoladas, e favorece o endurecimento e seus radicalismos.
0 Festival de Cinema de Vila do Conde levantou uma pergunta pertinente: O que seria o mundo sem o cinema Português ?
Julien Gester dedica um interessante artigo à 20ª edição do Festival de Vila do Conde e, igualmente, ao cinema Português.
Um cinema que sabe inovar e que não abandona a sua vertente artística, reivindicando-a.
O atual governo Português deixou de subsidiar a produção cinematográfica portuguesa!
Ele mostra à cena internacional o seu desprezo pela cultura!
Os recentes prémios alcançados (“tabu” e “Salaviza”) são uma enorme derrota para o atual governo Português!
Este ultimo não pode negar que o cinema Português proporciona projeção internacional!
Solidários com o Cinema Português, somos…
Fonte: Libération, 18 juillet 2012, p. 23
Nuno
A excelente revista mensal So Foot dedica, no número deste mês de Junho, um artigo aos jogadores naturalizados que jogaram ou jogam pela selecção do país de acolho. E estabelece uma classificação que engloba 25 jogadores.
A naturalização não é um fenómeno novo no mundo do futebol. Basta lembrar Di Stefano e Ferenc Puskas que, uma vez naturalizados, jogaram pela Espanha. Existe ainda, quanto à Espanha, o exemplo de Marcos Senna, nascido no Brasil. Jogador que ajudou a “selecion” a conquistar um titulo maior em 2008. O que não acontecia desde 1964.
O topo da classificação é encabeçado pelo “naturalizado” Deco. A chamada do maestro do FC Porto à “selecção” aparece como a mais controversa devido às declarações na altura de Figo: “Isso prejudica o espírito de equipa. Se nasceu na China, muito bem, joga pela China“. E, uma vez Figo citado podemos ler, ironicamente: Se Deco tem os olhos em amêndoa é porque tem sangue Japonês e não Chinês.
O que terá levado Figo a tais declarações? Não era ele um jogador habituado ao cosmopolitismo? Não conhecia ele a historia de Di Stefano e Puskas? As palavras de Figo espelham uma sociedade Portuguesa que é racista? Uma sociedade que esqueceu que é fruto duma enorme mistura? Pode ser racista uma sociedade em que qualquer família tem, no mínimo, um familiar que é e/imigrante?
Porque e quem tanto incomodava o “maitre à penser de Porto“? Por ser do FC Porto? Por ter sido descoberto pelo FC Porto? Por não incarnar nem o centralismo lisboeta nem a ruralidade Portuguesa?
A politica sempre esteve, embora em graus diversos, presente no mundo do futebol. Há quem compare a Ucrânia de hoje à Argentina de Videla.
Dezasseis selecções e trinta e um jogos. Até 2 de Julho haverá dois Euros: Um dirá respeito ao futebol; Outro à moeda e à economia. Os governos em dificuldade apostam no Euro para fazerem ilusão ou diversão. Já o governo Francês não terá representantes oficiais na Ucrânia.
Explicitas são também as palavras do capitão Alemão, Phillipp Lahm: “A minha posição sobre os direitos fundamentais, direitos humanos, liberdade de expressão ou de imprensa não correspondem à situação actual da Ucrânia.” Quando o primeiro ministro Espanhol pede ao seleccionador Espanhol para ganhar o Europeu, para dar alegria ao Espanhóis, Del Bosque responde-lhe com sabedoria e razão: “… a possivel vitoria no Euro não é a solução para os problemas do país.” (Libé, p.4 / 6 jun)
E se tudo ainda não estivesse podre?
Fontes: So Foot, n°97 ; Libération, 6 Juin 2012
Nuno
Lorsque « Grand Chef Apache » a crée l’étiquette « Futebol : Uma arena de Morte », il était loin de se douter que peu de temps après, l’universitaire Marc Perelman allait écrire un article intitulé « Football, une arène barbare ».
Il est séduisant de constater que deux personnes vivant dans des sociétés différentes, et n’ayant pas le même métier ont choisi un mot identique pour aborder des questions liées au monde du football :Arena / Arène…
Nuno
Clicar para ampliar / Cliquez pour agrandir
É imensamente curioso e sedutor ver que quando Grande Chefe Apache cria a etiqueta Futebol: Uma arena de morte?, passado pouco tempo Marc Perelman, professor universitário, escreve um longo artigo que apresenta quase o mesmo título. Penso que podemos descortinar semelhanças quanto a certos temas tratados como também diferenças. Mas a palavra que é a génese do pensamento sobre o futebol é a mesma: Arena. E não é uma palavra neutra…
Curioso e sedutor ver que duas personalidades, vivendo em países diferentes e tendo ocupações laborais diferentes, empregam, praticamente, o mesmo vocabulário. Segue a tradução do artigo de M. Perelman, escrito em 23 de Novembro de 2009:
A violência é praticada por ferozes hordas de apaixonados por futebol, massas compactas de brutos sem amarras, muitas vezes bêbedos e imensamente eficazes no diálogo por projecteis interpostos com os poderes públicos, mas para quem o futebol é uma parte decisiva da sua vida e o estádio uma família, uma casa. A violência não é pois exterior aos estádios, em “margem” como se disse aquando da morte de Brice Taton acontecida antes do encontro Toulouse – Partisan de Belgrado; Ela não é obra de indivíduos estranhos ao futebol.
As diferentes expressões de esta violência – dopagem, racismo, xenofobia, homofobia, “chauvinismo” – ressalvam duma “violência interna” consubstancial à única “lógica competitiva” e à qual o futebol está associado com todas as suas fibras. E esta lógica resume-se com palavras simples: Afrontamento, combate, choque, colisão entre jogadores de equipas dispostas a brigarem, batota. Esta violência toma forma nos estádios e também no desporto amador (o “Observatoire National de la Délinquance” indica uma subida preocupante da violência no futebol amador), havendo nos profissionais, entre outros, árbitros insultados, golpes provocando ferimentos graves, multiplicação de confrontos entre jogadores nos balneários ou entre espectadores nas bancadas: Tacos de basebol, navalhas, facas, armas de fogo são frequentes…
Em alguns anos esta violência, sem deixar os estádios, deslocou-se para fora destes: Os Fights opõem adeptos de equipas inimigas. A violência desagua nas cidades e, muitas vezes, em seus centros que se tornam os novos territórios dos confrontos entre adeptos e polícias aquando dos combates de rua e a sua lista de degradações, de lojas destruídas, de carros queimados, de agressões a pessoas… Os estádios já não chegam para conter a violência que o futebol desencadeia.
Alegramo-nos demasiadamente depressa: Os estádios Ingleses, esvaziados dos seus hooligans, ter-se-iam tornado espaços de paz. Um derby recente, West-Ham-Millwall, degenerou em batalha campal entre hooligans embebidos de álcool e cujo racismo anti-imigrantes e orientação política de extrema direita é conhecida. As milhares de proibições de estádio e os preços extravagantes dos bilhetes deslocaram o problema para as divisões inferiores… Ora, é nos estádios do mundo inteiro e nas suas imediações, como na tranquila Suíça (jornalistas agredidos, batalhas campais entre hooligans na Basileia, em Zurique, em Sião.. a polícia utilizando balas de borracha e gás hilariante), passando pela Argentina (cinco adeptos mortos esta época em brigas), Marrocos, Tunísia e, sobretudo, Argélia (uma dezena de mortos desde 2005) que se manifesta “a violência provocada pelo futebol”. Os estádios tornaram-se os lugares privilegiados da expressão desta violência e não outros lugares de agrupamento como os concertos de música, o teatro, o cinema, a praia…
A mão que permitiu, quarta-feira passada, a vitória da França perante a Irlanda é a consequência directa da gigantesca pressão económica e sociopolítica que o futebol apanha nos seus laços, põe de molho nos estádios e, depois, amplifica e restitui numa gigantesca caldeirada: ganhar a qualquer custo, fazer batota para ganhar, mentir após ter-se feito batota e ganho. Tal é a ideologia deletéria que promove o futebol e não que o futebol sofre. O futebol não é um jogo: Constitui, com o estádio, o fogo activo, o lugar central onde a crise das nossas sociedades toma um novo fôlego. O futebol é o vector duma “desintegração” de todos os quadros duma sociedade, das suas referências fundamentais como a identidade nacional que depende duma cultura comum e duma língua e não duma equipa com pitões, – uma entidade passageira, artificial e aleatória. Uma bola, uns “protegem-canelas” e uns livres são insuficientes para fundar uma soberania nacional. E a identificação dos jovens a um ídolo nos estádios ou a uma equipa vencedora, a sua integração pelo futebol à sociedade não fundará nunca uma identidade nacional.
É preciso agora pensar o futebol tal como ele é e não como o imaginamos ou o fantasmeamos. Assim, não é a violência que “gangrena” o futebol; Também não é uma minoria de ultras que contamina, parecendo que não, bravas pessoas calmas e pacíficas; E não são a mundialização ou ainda a mercantilização que corrompem e que sujam. A verdadeira gangrena que infesta a vida das nossas sociedades tem por nome futebol; E o estádio é intrinsecamente o lugar onde refogam as futuras explosões de violência porque os rancores (pesados) sociais e políticos amealhados se associam intimamente ao futebol; São orientados por este, exprimindo-se em caldeirões equipados para os receberem, os capturarem e os amplificarem até que desbordem na cidade, transformando-os em colunas guerreiras.
A violência dos adeptos não é apenas a expressão duma aflição social; Ela está no coração do projecto futebol que é a expressão dessa aflição social; Os movimentos preocupantes de exaltação e de identificação, da fúria nacionalista entre o Egipto e a Argélia maciçamente enquadrados pela polícia e pelo exército não envenenam o futebol, o verdadeiro veneno chama-se futebol e o estádio serve-lhe de recipiente e a cidade torna-se o seu território.”
Obs: Esta tradução, esperando que esteja bem, é uma homenagem ao Grande Chefe Apache.
Nuno