A evolução da TV, enquanto tecnologia, aliada aos meus próprios gostos e interesses pessoais, acabaram por influenciar a minha própria evolução enquanto profissional. Hoje tenho melhor noção disso.
Acompanhei quando criança, e conheci de certo modo por dentro, ao ver televisores abertos na bancada de trabalho do meu pai, o que foi a “era mais arcaica” da tecnologia a válvulas e imagens a preto e branco. Assisti e conheci a transição para a tecnologia dos aparelhos assente em transístores e integrados e o “boom” da TV a cores. Conheci tecnicamente a tecnologia envolvida nas emissões dos sinais via analógica, e ultimamente ando embrenhado na transição para a emissão digital terrestre (TDT). Por outro lado, e de certo modo na última década, estive ligado a aprendizagem e desenvolvimento da “linguagem, comunicação e estética” numa “filosofia” que tem que ver com a produção dos seus próprios conteúdos, trabalhando no sector dos audiovisuais.
Tais experiências ao longo dos anos têm-me aberto horizontes, gerado questões e opiniões, que por vezes se transformam em convicções, acabando eu próprio, não raras vezes, a avaliar esta nossa “caixa mágica” que é a televisão de forma algo crítica quanto baste.
A televisão entrou na casa das pessoas, “sem precisar de bater à porta”, sobretudo a partir da década de 80. Pode-se de facto considerar que de todos os equipamentos técnicos domésticos que nos permitem ter acesso a bens culturais, o que mais se destaca é sem dúvida a televisão. Não importa a que estrato social cada família pertença, pois que “toda a gente” possui um televisor.
É difícil imaginar um mercado mais competitivo do que o televisivo. Nos Estados Unidos, por exemplo, ou em vários países da Europa, os telespectadores tem dezenas de canais de televisão à sua mercê entre os quais poderão optar a qual assistir. Todos os anos fortunas incalculáveis são gastas para produzir programas de televisão, com o intuito de conquistar grandes audiências. No entanto, a cada ano, uma grande parte das produções fracassa. Isto apesar de o diagnóstico estar mais que feito e de qualquer produtora de TV saber que o sucesso depende do saber definir e conquistar o seu público-alvo.
Público-alvo é o termo utilizado para indicar o segmento específico de uma audiência potencial de público que determinada emissão televisiva pretende atingir. A maioria dos anunciantes, que basicamente são quem sustenta a indústria televisiva por meio da publicidade, tem preferências demográficas. Por exemplo, se uma marca pretende publicitar calças jeans, o seu público-alvo será composto de adolescentes e jovens. Neste caso o anunciante dificilmente estará interessado em patrocinar programas de cariz político ou informativos, que atrairiam plateias mais velhas.
Um outro conceito que tem que ver com o sucesso e bom retorno do investimento televisivo passa pelo aproveitamento do horário nobre. Horário nobre refere-se a períodos de programação exibidos durante as noites ou no horário de almoço, quando a audiência é maior. A maior parte da faturação das emissoras de TV provem destas faixas horárias e representa cerca de 80% do lucro total anual das cadeias televisivas no Brasil, por exemplo. Em Portugal o horário nobre é compreendido entre as 20h e 23h. É portanto neste horário que a publicidade se torna mais cara.
Depois há as técnicas, basicamente estereotipadas, para se chamar e prender a atenção do telespectador com o objetivo de que a mensagem passe, pois disto depende o sucesso das emissões. Continuando a usar como exemplo o meio publicitário, discriminam-se algumas técnicas ou truques utilizados, o que não invalida que várias delas acabem aplicadas em outros estilos de produções, sobretudos os que se pretendem mais mediáticos.
- Imagens sedutoras. Alguns anúncios vendem mais estilos de vida do que produtos. Senão, como informar objetivamente o odor de um perfume televisivamente?
- Músicas sugestivas. O som é uma das peças chave para atrair o espectador para a cascata de imagens e sonhos que em poucos segundos são apresentadas para o convencer da qualidade do produto anunciado.
- Bombardeamento audiovisual. Quantos planos de imagens aparecem em media nos anúncios? O ritmo é muito mais rápido que o de outros géneros televisivos.
- Comparação radical. Apresentam-se dois produtos, do publicitado só se destaca o positivo, do opositor não se assinala o bom e contrapõe-se de forma radical (bom/mau).
- Impulsividade. Incita-se à compra imediata, sem refletir sobre o valor objetivo do produto anunciado.
- Reiteração. Repete-se até à exaustão um anúncio publicitário, para fazer o telespectador interiorizar a «qualidade» do produto.
- Inovação. Vende-se como novo algo que já o foi uma infinidade de vezes. A novidade continua a ser um valor que atrai, capta e vende socialmente.
- Slogans e sons. Frases simples, facilmente memoráveis e familiares, conseguem que os telespectadores recordem a marca durante todo o dia; também quando vão às compras.
Dados apontam que uma pessoa passa em média três horas por dia a assistir televisão. O sector audiovisual na União Europeia representa mais de um milhão de postos de trabalho. É um sector que move grandes interesses comerciais conforme explanado, mas que também deve colocar questões de diversidade cultural, de serviço público e de responsabilidade social. É portanto nesta vertente que se pode considerar que surgem confrontos entre valores e interesses, onde sinceramente os pratos da balança sofrem um forte desequilíbrio acabando a televisão, pelo seu poder junto das sociedades, por influir na sua decadência.
Resuma-se portanto a este propósito naquela que considero (inclusive pela própria experiência profissional) como uma das mais poderosas armas esgrimidas pela linguagem audiovisual, está que infelizmente, no sector televisivo, é basicamente mercenária, e que se encontra fora da perceção obvia ou consciente dos telespectadores mas que ganha consistência com o tempo, acabando por entram na esfera do consciente e por influenciar o modo de pensar e de agir. Refiro-me a filosofia e ao “poder” das «mensagens subliminares», neste campo sempre presentes. Com os seus conteúdos a televisão tende a nivelar as mentes dos que assistem às transmissões e será ingénuo desperceber que quem dirige os canais televisivos tem prioritariamente objetivos comerciais. Como tal, considere-se que “o poder da antena” manifesta-se em grande medida no dar azo à capacidade de formar mentalidades, manipular consciências, do proveito da persuasão e o desbarato da argumentação. Vide casos mediáticos como os de “Maddie Mccan”; “Esmeralda”; “Escutas Telefónicas”; etc.
Conforme a legislação europeia e já aqui referido, ao sector industrial da área da televisão são delegadas responsabilidades de diversidade cultural, de serviço público ou responsabilidade social, exigindo-se sobretudo dos canais dos Estados que deem o exemplo, mas tal responsabilidade – desenganemo-nos – não se espere que venha a ser assumida pela televisão.
Educar significa contribuir para o desenvolvimento harmonioso de uma pessoa por meio de boas relações com a realidade em que tal pessoa vai vivendo. Assim a educação não pode ser concebida como qualquer coisa estática, à margem da experiência concreta do educando.
Relacionado com o fenómeno de comunicação para “massas” sem grande investimento literário, encontrou-se na década de 90 a designação de uma nova realidade ainda não catalogada por sociólogos ou classificada em dicionários. Trata-se da expressão “Pimba” que passa a aplicar-se a tudo o que tem que ver com a invasão dos circuitos de comunicação e entretenimento de massas (televisão, rádio, edições fonográficas, cinema, imprensa, etc.) pelo gosto popularucho, suburbano e banal (por vezes ordinário) de uma grande maioria da população que se mantém semianalfabeta, pouco exigente e dada à boçalidade e ao riso prosaico. Uma breve consulta pelas grelhas de programação das televisões generalistas é, quanto a isto, esclarecedora.
A reflexão e a experiência ao longo dos tempos tem-se tornado esclarecedora. Entre amigos ou conhecidos, em fugazes comentários ou pequenas tertúlias, sabe quem me conhece que facilmente será por esta ordem de ideias, mais ou menos balizadas, que cairá o meu argumento quando se comentam casos mediáticos na ordem do dia ou as trivialidades dos efémeros programas de entretenimento em voga pela “Antena Emissora Portuguesa”.
Verificar tal proselitismo de ideias e ideais impingidos entre o comum dos cidadãos são coisas que me aborrecem sobremaneira.
Quando em 1939 a RCA Corporation apresentou o primeiro protótipo de um televisor, estava-se longe de imaginar a influência que tal aparelho viria a exercer sobre a vida das pessoas. Hoje pode-se compreender que a evolução da televisão generalista nas últimas décadas tem amiúde demonstrado que, premir o botão que a desliga, pode não raras vezes, ser uma das ações mais ajustada!
Paulo C. Jerónimo
in “2012 – O Homem Sonha e o Mundo Pula e Avança”

Comments
6 responses to “Conversas com os botões da camisa (4) : …………… …………………………..Televisão: A Caixa de Pandora”
Muito bom texto em que de novo podemos verificar diferenças entre a sociedade portuguesa e a francesa, segundo o que compreendi. O conjunto dos franceses passa 2h14 por dia diante da televisão; os jovens entre 16-24 anos passam 1h46.
Se pensarmos que diante da televisão também vemos videos e jogamos… pouco tempo fica para ver programas de televisão… Tem havido uma evolução da televisão que é paradoxal… Contrariarmente à radio, a tv não tem sabido gerir a concurrencia do cinema, das videotecas, dos concertos, etc. e, sobretudo, do web… As series web estao cada vez mais presentes, duram pouco tempo… parece que assistimos à mesma evolução que foi a passagem do romance para a novela.
Li ha poucos dias um artigo dum jornalista desportivo que expunha a sua impossibilidade presente em ver concentrado um jogo de futebol completo na tv. De qualquer modo: o numero de espectadores nas salas de cinema tem aumentado nos ultimos anos e, em contrapartida, o numero de assinantes a canais com portagem tem diminuido drasticamente, o que é sintomatico duma evoluçao em baixo da importancia da tv na sociedade.
Nuno
Fonte citada: “Famille & Education”, sept-oct 2012, p.69
Não deixa de ser elucidativo o seguinte: André Malraux, então Ministro da Cultura em 1969, declara: “A televisão vai matar o livro”. Observamos que a televisão não matou o livro e que antes pelo contrario as pessoas compram mais livros e leem até mais.
Mais uma vez, parece-me que tudo assenta na maneira como definimos e nos relacionamos com a tecnologia. Esta não é um fim, mas um instrumento. E é claro em que meio ambiente empregamos as novas tecnologias.
Nuno
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