Category: questões planetárias

  • Conversas com os botões da camisa (4) : …………… …………………………..Televisão: A Caixa de Pandora

     

      

    A evolução da TV, enquanto tecnologia, aliada aos meus próprios gostos e interesses pessoais, acabaram por influenciar a minha própria evolução enquanto profissional. Hoje tenho melhor noção disso.

    Acompanhei quando criança, e conheci de certo modo por dentro, ao ver televisores abertos na bancada de trabalho do meu pai, o que foi a “era mais arcaica” da tecnologia a válvulas e imagens a preto e branco. Assisti e conheci a transição para a tecnologia dos aparelhos assente em transístores e integrados e o “boom” da TV a cores. Conheci tecnicamente a tecnologia envolvida nas emissões dos sinais via analógica, e ultimamente ando embrenhado na transição para a emissão digital terrestre (TDT). Por outro lado, e de certo modo na última década, estive ligado a aprendizagem e desenvolvimento da “linguagem, comunicação e estética” numa “filosofia” que tem que ver com a produção dos seus próprios conteúdos, trabalhando no sector dos audiovisuais.

    Tais experiências ao longo dos anos têm-me aberto horizontes, gerado questões e opiniões, que por vezes se transformam em convicções, acabando eu próprio, não raras vezes, a avaliar esta nossa “caixa mágica” que é a televisão de forma algo crítica quanto baste.

     

    A televisão entrou na casa das pessoas, “sem precisar de bater à porta”, sobretudo a partir da década de 80. Pode-se de facto considerar que de todos os equipamentos técnicos domésticos que nos permitem ter acesso a bens culturais, o que mais se destaca é sem dúvida a televisão. Não importa a que estrato social cada família pertença, pois que “toda a gente” possui um televisor.

    É difícil imaginar um mercado mais competitivo do que o televisivo. Nos Estados Unidos, por exemplo, ou em vários países da Europa, os telespectadores tem dezenas de canais de televisão à sua mercê entre os quais poderão optar a qual assistir. Todos os anos fortunas incalculáveis são gastas para produzir programas de televisão, com o intuito de conquistar grandes audiências. No entanto, a cada ano, uma grande parte das produções fracassa. Isto apesar de o diagnóstico estar mais que feito e de qualquer produtora de TV saber que o sucesso depende do saber definir e conquistar o seu público-alvo.

    Público-alvo é o termo utilizado para indicar o segmento específico de uma audiência potencial de público que determinada emissão televisiva pretende atingir. A maioria dos anunciantes, que basicamente são quem sustenta a indústria televisiva por meio da publicidade, tem preferências demográficas. Por exemplo, se uma marca pretende publicitar calças jeans, o seu público-alvo será composto de adolescentes e jovens. Neste caso o anunciante dificilmente estará interessado em patrocinar programas de cariz político ou informativos, que atrairiam plateias mais velhas.

    Um outro conceito que tem que ver com o sucesso e bom retorno do investimento televisivo passa pelo aproveitamento do horário nobre. Horário nobre refere-se a períodos de programação exibidos durante as noites ou no horário de almoço, quando a audiência é maior. A maior parte da faturação das emissoras de TV provem destas faixas horárias e representa cerca de 80% do lucro total anual das cadeias televisivas no Brasil, por exemplo. Em Portugal o horário nobre é compreendido entre as 20h e 23h. É portanto neste horário que a publicidade se torna mais cara.

    Depois há as técnicas, basicamente estereotipadas, para se chamar e prender a atenção do telespectador com o objetivo de que a mensagem passe, pois disto depende o sucesso das emissões. Continuando a usar como exemplo o meio publicitário, discriminam-se algumas técnicas ou truques utilizados, o que não invalida que várias delas acabem aplicadas em outros estilos de produções, sobretudos os que se pretendem mais mediáticos.

     

    • Imagens sedutoras. Alguns anúncios vendem mais estilos de vida do que produtos. Senão, como informar objetivamente o odor de um perfume televisivamente?
    • Músicas sugestivas. O som é uma das peças chave para atrair o espectador para a cascata de imagens e sonhos que em poucos segundos são apresentadas para o convencer da qualidade do produto anunciado.
    • Bombardeamento audiovisual. Quantos planos de imagens aparecem em media nos anúncios? O ritmo é muito mais rápido que o de outros géneros televisivos.
    • Comparação radical. Apresentam-se dois produtos, do publicitado só se destaca o positivo, do opositor não se assinala o bom e contrapõe-se de forma radical (bom/mau).
    • Impulsividade. Incita-se à compra imediata, sem refletir sobre o valor objetivo do produto anunciado.
    • Reiteração. Repete-se até à exaustão um anúncio publicitário, para fazer o telespectador interiorizar a «qualidade» do produto.
    • Inovação. Vende-se como novo algo que já o foi uma infinidade de vezes. A novidade continua a ser um valor que atrai, capta e vende socialmente.
    • Slogans e sons. Frases simples, facilmente memoráveis e familiares, conseguem que os telespectadores recordem a marca durante todo o dia; também quando vão às compras.

     

    Dados apontam que uma pessoa passa em média três horas por dia a assistir televisão. O sector audiovisual na União Europeia representa mais de um milhão de postos de trabalho. É um sector que move grandes interesses comerciais conforme explanado, mas que também deve colocar questões de diversidade cultural, de serviço público e de responsabilidade social. É portanto nesta vertente que se pode considerar que surgem confrontos entre valores e interesses, onde sinceramente os pratos da balança sofrem um forte desequilíbrio acabando a televisão, pelo seu poder junto das sociedades, por influir na sua decadência.

     

    Resuma-se portanto a este propósito naquela que considero (inclusive pela própria experiência profissional) como uma das mais poderosas armas esgrimidas pela  linguagem audiovisual, está que infelizmente, no sector televisivo, é basicamente mercenária, e que se encontra fora da perceção obvia ou consciente dos telespectadores mas que ganha consistência com o tempo, acabando por entram na esfera do consciente e por influenciar o modo de pensar e de agir. Refiro-me a filosofia e ao “poder” das «mensagens subliminares», neste campo sempre presentes. Com os seus conteúdos a televisão tende a nivelar as mentes dos que assistem às transmissões e será ingénuo desperceber que quem dirige os canais televisivos tem prioritariamente objetivos comerciais. Como tal, considere-se que  “o poder da antena” manifesta-se em grande medida no dar azo à capacidade de formar mentalidades, manipular consciências, do proveito da persuasão e o desbarato da argumentação. Vide casos mediáticos como os de “Maddie Mccan”; “Esmeralda”; “Escutas Telefónicas”; etc.

    Conforme a legislação europeia e já aqui referido, ao sector industrial da área da televisão são delegadas responsabilidades de diversidade cultural, de serviço público ou responsabilidade social, exigindo-se sobretudo dos canais dos Estados que deem o exemplo, mas tal responsabilidade – desenganemo-nos –  não se espere que venha a ser assumida pela televisão.

    Educar significa contribuir para o desenvolvimento harmonioso de uma pessoa por meio de boas relações com a realidade em que tal pessoa vai vivendo. Assim a educação não pode ser concebida como qualquer coisa estática, à margem da experiência concreta do educando.

    Relacionado com o fenómeno de comunicação para “massas” sem grande investimento literário, encontrou-se na década de 90 a designação de uma nova realidade ainda não catalogada por sociólogos ou classificada em dicionários. Trata-se da expressão “Pimba” que passa a aplicar-se a tudo o que tem que ver com a invasão dos circuitos de comunicação e entretenimento de massas (televisão, rádio, edições fonográficas, cinema, imprensa, etc.) pelo gosto popularucho, suburbano e banal (por vezes ordinário) de uma grande maioria da população que se mantém semianalfabeta, pouco exigente e dada à boçalidade e ao riso prosaico. Uma breve consulta pelas grelhas de programação das televisões generalistas é, quanto a isto, esclarecedora.

     

    A reflexão e a experiência ao longo dos tempos tem-se tornado esclarecedora. Entre amigos ou conhecidos, em fugazes comentários ou pequenas tertúlias, sabe quem me conhece que facilmente será por esta ordem de ideias, mais ou menos balizadas, que cairá o meu argumento quando se comentam casos mediáticos na ordem do dia ou as trivialidades dos efémeros programas de entretenimento em voga pela “Antena Emissora Portuguesa”.

    Verificar tal proselitismo de ideias e ideais impingidos entre o comum dos cidadãos são coisas que me aborrecem sobremaneira. 

    Quando em 1939 a RCA Corporation apresentou o primeiro protótipo de um televisor, estava-se longe de imaginar a influência que tal aparelho viria a exercer sobre a vida das pessoas. Hoje pode-se compreender que a evolução da televisão generalista nas últimas décadas tem amiúde demonstrado que, premir o botão que a desliga, pode não raras vezes, ser uma das ações mais ajustada!

     

    Paulo C. Jerónimo

    in “2012 – O Homem Sonha e o Mundo Pula e Avança”

  • Conversas com os botões da camisa (3) : …………… ……Jogos Eletrónicos – A Velha Cobaia Tecnológica

     

     

    O mundo evoluiu, e evoluiu a vários níveis, mas uma das vertentes dessa evolução e que interfere com tudo o resto, a que se pode considerar mais marcante e preponderante no quotidiano dos cidadãos desta pequena “Aldeia Global” em que o planeta se tornou, tem que ver com os da evolução tecnológica. 

    Os modos de interação do próprio homem enquanto indivíduo têm sido inatamente, e por culpa dela, modificados no último século, e isso é por demais evidente, sendo observavel desde logo nas camadas mais jovens, as crianças.

     

    Os jogos fazem parte da história da evolução humana, constituindo uma parte fundamental na sua cultura. Segundo Huizinga (1971), o jogo é primitivo, anterior à cultura, e é parte da vida individual e da sociedade. Portanto, é um processo inerente à mesma, e não o resultado de uma expressão cultural. Para este autor, o jogo é essencial para a humanidade, parte integrante da vida, e tem uma função vital para a sociedade e cultura. Partindo desta premissa, proponha-se:

     

    Uma breve reflexão sobre os jogos: modo vs género«

     

    Se observarmos, na vertente das brincadeiras e passatempos da mocidade, e não obstante existirem fáceis conclusões consensualizadas de que “no meu tempo é que era bom” – até porque provavelmente não será fácil pôr algum sentimento de saudosismo e nostalgia de parte nestas alturas de comparação – observe-se no entanto que a tradição de muitos dos jogos antigos se mantiveram intactos até os nossos dias, continuando o mesmo género de brincadeiras a predominar sobretudo nos pátios e recreios escolares durante a primeira infância, tendo passando de geração em geração, o que só nos pode parece salutar. Não será difícil, a um bom observador, continuar a encontrar a prática dos jogos tidos por tradicionais, em tais recintos.

     

    A grande diferença e evolução que se verifica, encontramo-las mais no modo do que propriamente no género de brincadeiras que se praticam, sobretudo na entrada da pré-adolescência,  tendo em conta que, como em tudo o resto, também a recreação das crianças e adolescentes sofreu o respetivo progresso relacionado com a “evolução dos tempos”. De resto, tal não será característica exclusiva dos mais novos. Se não, que dizer da evolução sofrida na recreação e passatempos entre a população mais adulta, por exemplo? Quem vai hoje em dia ao cinema, ao teatro, “à bola” – assistir à partida de futebol do clube da terra?

    Parece plausível que tal evolução dos tempos está presente no quotidiano de qualquer faixa etária, não será um exclusivo dos modos de recreação dos mais novos como por vezes  a critica dos mais velhos tende a fazer parecer.

     

    O problema é que as atividades em estilo de recreio em grupo  são cada vez mais escassas e substituídas por atividades individualistas. As brincadeiras e recreação deixaram de ser praticadas ao ar livre para serem cada vez mais praticadas em recintos fechados. Primeiro, talvez por “culpa” da televisão, que nos empurrava paulatinamente para dentro de casa, mas ainda assim, assistia-se a estes eventos televisivos em conjunto, fosse mais familiar ou entre amigos, até porque a oferta não era muita ou diversificada. Depois, e com a expansão da internet, o aparecimento de chats de conversação, mensagens instantâneas, e mais tarde, das redes sociais online, foi crescente  a grande abertura para o isolamento cada vez maior que tal proporcionou.

     

    Mas a evolução tecnológica não será certamente “culpa solteira” neste fenómeno. O aumento de criminalidade crescente e consequente falta de segurança cada vez maior entre as sociedades em meios mais ou menos urbanos, também é um fator relevante e “castrador” na quebra do “à vontade” com que antigamente se permitia o vaguear pelas ruas, inocente e descansadamente.

    Portanto, não diria, de todo, e ao contrário do que parece ser uma ideia um pouco generalizada, que o género (tecnológico) dos novos jogos e passatempos da atualidade tenham vindo a prejudicar o desenvolvimento, da juventude em formação. Antes, questionável parece ser o que o modo (individualista e descontrolado) dos mesmos, em grande escala, podem vir a desempenhar. No entanto, estes tratam-se de apenas mais uma das vertentes contributivas para o isolamento do individuo, que acompanhou toda uma era tecnologicamente evolutiva, e tendo em conta que o “jogar” é um fenómeno e uma carência intrínseca na humanidade.

     

    Jogos Eletrónicos: da revolução à popularização«

     

    Entre as características mais significativas dos jogos está o “fazer de conta”. Presente em todos os jogos eletrónicos, ele auxiliou a revolucionar o mundo do jogo, transformando-o em um ambiente totalmente interativo. Apesar dos limites tecnológicos (sempre presentes), o “fazer de conta” digital permite que o jogador interaja com o mundo virtual (em ambiente gráfico). Isso tornou-se um auxílio para a imaginação, e contribuiu para o crescimento do interesse pelo jogo eletrónico, já que este ilustra o mundo do jogo de uma forma totalmente interativa. Neste sentido, os jogos eletrónicos inovaram o “fazer de conta”.  Ou talvez não….

    As opiniões são sempre discutíveis, e não será difícil questionar este último raciocínio se quisermos levar em conta o exemplo da televisão em detrimento da leitura, que tende a desencorajar o estímulo da imaginação do espectador, por culpa da exposição direta de uma mensagem que dispensa a respetiva transformação imaginária em imagens, pois está tudo lá, na tela. Será tal paradoxo aplicável ao caso dos jogos eletrónicos e seus cenários virtuais?

     

     

     

     

    É com a introdução do Game Boy da Nintendo que se dá a revolução e popularização dos jogos eletrónicos entre os pupilos dos finais anos oitenta, em detrimento dos jogos de cariz mais tradicionais e artesanais.

    Consequentemente, mais do que saber e comparar o tipo de quadro, tamanho de roda ou caixa pedaleira da bicicleta, ou o tipo de boneca  X, Y ou Z, a terminologia e características eletrónicas dos brinquedos passariam a fazer parte do vocabulário da juventude: eis que iniciava a era dos bits e dos bytes.

    A evolução foi de facto tremenda, e a tecnologia, tema que, pessoalmente nunca me  foi indiferente (pelo contrário) passaria a fazer parte das temáticas da juventude.

    Se recordar o prazer proporcionado pelo 1.º Game Boy de ecrã a preto e branco com  processador que corria à velocidade relógio de 4,19 Mhz – com o mesmo sorriso nos lábios de outrora – é uma boa memória, já pensar nos inacessíveis para a maioria das posses económicas da famílias portuguesas, dos microcomputadores para jogos, hoje arcaicos, os Sinclair ZX Spectrum lançados no inicio da década de 80, baseados num processador Zilog Z80-A a 3,50 MHz com 16 Kbytes de memória RAM, e que estava disponível em duas versões: uma com 16 Kbytes de RAM e outra com 48 Kbytes, pode significar o reviver de algum amargo de boca para muitos…

    Este último modelo seria durante anos apenas um sonho para a maioria dos adolescentes dos anos 80.

     

    Daí a importância preponderante que o Game Boy viria a representar para a geração no final dessa década, pois apesar de já ser uma realidade a introdução dos jogos eletrónicos desde o início da década, seria com este modelo de bolso, e sobretudo graças às marcas brancas deste tipo de jogos que surgiriam a pensar nas grandes massas, que se viria a democratizar os jogos eletrónicos acessíveis, até aí apenas entre algumas elites privilegiadas.

    Pensar na possibilidade de jogar em aparelhos que usavam estas grandezas de capacidades de processamento/armazenamento (1 Kilobyte = 1.000 bytes), nos tempos correntes, quando os graus de grandeza e escala “corriqueiros” rondam os Gigabytes (1Gb = 1.000.000.000 bytes aproximadamente) será um simples exemplo da rápida e constante evolução tecnológica sempre em crescente.

    Pode-se dizer que os primeiros jogos electrónicos mais não foram do que protótipos para estudar a capacidade de certas máquinas. A sua criação foi um reconhecimento e materialização do fator lúdico na cultura, mas também na atividade científica.

    Atualmente, os jogos eletrónicos, sobretudo os jogos online, ocupam um lugar cada vez mais significativo na vida das pessoas, nomeadamente os mais jovens, pois eles também introduziram uma nova forma de comunicação entre elas, influenciando assim a sociedade e a cultura. As atividades lúdicas têm papéis fundamentais no desenvolvimento social. Já os jogos eletrónicos, além do desenvolvimento social, influenciam diretamente o desenvolvimento científico e tecnológico, tendo sido aproveitados pela industria particularmente como cobaias do desenvolvimento.

      

    Paulo C. Jerónimo

    in “2012 – O Homem Sonha e o Mundo Pula e Avança”

  • Vie Sans Sens Ou Sem Senso de Vida

     

     

     

    Se por vezes me questiono sobre a necessidade de alguma coragem para um Português atual se envolver, mesmo que esporadicamente, com o idioma francófono, não tenho qualquer dúvida de que aplicar a língua de Asterix e Obelix neste pais – onde a mentalidade “tuga” ainda polula – exige no mínimo e sem dúvida de ousadia.

    O tema do dia hoje pelo Facebook passou por aqui. 

    A coreografa e professora de dança Vanda Costa ousou concluir um espetáculo de dança, de forma sublime ao som do tema “Le Sens de La Vie” da artista Tal, a “Rihanna francessa” (chamemos-lhe assim)  e como tal, diz que não se livrou de ser questionada sobre o uso do francês ali.

     

    Nada que se estranhe entre o Mui Nobre Povo. Apenas mais um apanágio dum pais complexado por muitos dos “seus” , entre outros. Um povo mais enebriado por gostos prosaicos, bafejados por demasiadas americanadas boçais ou inglesadas banais. São os yes man atuais.

    Com a foto no topo, entretanto partilhada no FB da Gisleuda Gabriel, se poupa o meu parlapié. Azar de quem a não sabe “ler”.

     

     

    PS: mas se até a artista no videoclip oficial (link) comete o contrasenso de ostentar Nova Yorque… Há quem não se importe de descer uns degraus. Perdoai-lhes Senhor…

    Este post pode ser lido na continuação de Os Portugueses continuam a saber rir de sí mesmos… et “c’est ça que c’est bon!”


    Paulo Jerónimo

  • Pedro Passos Coelho: 1995!

     

     

    O primeiro ministro Português actual chama-se Coelho e, politicamente, não honra a inteligência dos ilustres descendentes de Gama. Um dos coelhinhos dos meus filhos, denominado Gama, teve uma vasta e robusta descendência que desempenhou funções pedagógicas, sociais e culturais em vários infantários e escolas primárias. Todos sobreviveram e nenhum foi guisado.

     

    O Coelho Português parece que esqueceu a história de Gama e dos seus descendentes e aboliu o Ministério da Cultura. Qualquer cidadã e qualquer cidadão do mundo não pode entender esta decisão. A cultura, a arte não servem só para promover a imagem e os artistas dum país ou duma região. São tambem um factor de paz, permitindo o diálogo e o reconhecimento mútuo. E, sobretudo, a cultura, no âmbito das suas manifestações, é uma actividade que permite a emancipação e que permite lutar contra a alienação. A condição para que um homem seja livre é que ele seja culto.

     

    O primeiro ministério da cultura nasce em França em 1959. Na altura, a maior parte dos países não entendem a iniciativa, embora a Dinamarca acompanhe a novidade, criando em 1961 o seu ministério da cultura. O General De Gaulle pensa que a projecão internacional do país também deve passar pela arte e pela cultura. O famoso escritor André Malraux é nomeado à cabeça do “Ministère de Affaires Culturelles”. Passado meio século, a França é o primeiro destino turístico do mundo. Não se visita só a França pela variedade infinita dos seus climas, pela qualidade das suas praias, das suas montanhas, dos seus vales… também se visita a França pelo tesouro que constitui os seus patrimónios históricos, a riqueza dos seus museus, o número impressionante de festivais e de eventos culturais. E o turismo é uma das primeiras indústrias do mundo.

     

    Em Portugal, o ministério da cultura só aparece em 1995 com o governo Gueterres (socialista). Durou pouco. Mas a história sempre nos ensinou que as ditaduras e os seus descendentes abominam a cultura, fonte de memória livre. Assim, o encerramento do ministério da Cultura parece um absurdo quando se verifica que as artes Portuguesas estão a serem consagradas e reconhecidas internacionalmente. Em contrapartida, apoiam-se manifestações que visam a exploração dos trabalhadores e da classe média Portuguesa. A organização do “1° Salon de l’Immobilier Portugais”, de 14 a 16 de Setembro, irá decorrer em Paris. Este acontecimento, organizado por “La Chambre de Commerce de l’Industrie Franco-Portugaise (CCIFP)”, visa a venda de bens imobiliários, novos ou antigos, em Portugal. O que estava à venda, por exemplo, por 250 000 euros será oferecido por 100 000 euros. 

     

    Sabemos que, em França, Portugal está muito longe de ser o destino preferido dos aposentados que compram casa no estrangeiro para gozar a reforma. Também já não é o destino exclusivo dos Franceses cujo os avôs ou uma parte dos avôs são ou eram Portugueses. Os pais espiritais, Cavaco e Barroso, do actual primeiro ministro Coelho, reduziram a identidade cultural de Portugal ao Sol e à Praia. Ao trabalho dos pais, ao Sol e à Praia, Coelho quer acrescentar uma casa com piscina.

     

    Fica para saber se a piscina será de água doce ou salgada: Isto a propósito de ter lido que a obra de A. de Siza em Leça está ao abandono. 

    Nuno

  • RIO +20

     

    Dennis Meadows qui était présent à la première conférence (Stockholm, 1972) a déclaré: “Notre vision à court terme est en train de se fracasser contre la réalité physique des limites de la planète”.

     

     


    Dennis Meadows que estava presente na primeira conferência (Estocolmo 1972) declarou: “A nossa visão a curto prazo está-se a quebrar contra a realidade física do nosso planeta”.

    fonte: Libé-mag, 16-17 Jun 2012, p.VII” / Desenho: ?

    Nuno
  • Futebol Clube do Porto 1982-2012 ……………………. …………………….(Os Trinta Anos de Pinto da Costa)

     

     

    The famous Madger’s back heel goal that baptize this type of move in the Final of the European Champions Cup

      

    When I returned to Portugal in 1983, FC Porto was taking its first steps on a long journey that goes on still today.

    After doing a long “journey in the desert” fasting for 19 years without a title from the Portuguese League (1959 – 1978); it was the duo of Jose Maria Pedroto (Coach) and Jorge Nuno Pinto da Costa (Head of Football Department) who gave back the taste of victory to the blue and white adepts of the Portuguese championship in 78/79 season. It was under Américo de Sá presidency, and this was the starting point to a new cycle of many exuberant victories.

     

    The “Futebol Clube do Porto” has always had in its matrix the practice of the football sport, being the oldest football club in Portugal, founded in 1893 by António Nicolau d’Almeida, a merchant of Oporto Wine who has discovered football on his travels to England, however, the Club has always paid special attention to the other sports too.

    Jorge Nuno Pinto da Costa, who had began in the sports leadership with the section of  Hockey Skates of its hometown the so called “Invicta” – the very Noble and Loyal City of Oporto” (D. Maria II, Queen of Portugal) ascends to the presidency of FC Porto in 1982, marking a definite turning point in the club history.

     

    Concerning sport FC Porto wins in the very same year its first international title: the Cup of the Cups Hockey skates and two years later, reaches the final of the same competition but this time in football, losing the Cup against “Juventus”. The street hockey, which until 1982 did not have any title – national or international – made the Cup – Winner Cup – the first step in a journey towards the top of Portugal and World top… Back to the Winner Cup it won several Cups in 1983 winning a “pentacampeonato” (5 consecutive championships) between 1982 and 1987 and was crowned Champion of Europe in 1986 and 1990. Concerning athletics, Aurora Cunha adds titles, she won the Road World Championship 3 consecutive times (1984/85/86).

     

    When I arrived to Portugal, the new cycle initiated by Pinto da Costa had only a few months, but beyond the major factor that was the equipment of FCP, and also the City where I lived and had this football club – San Sebastian. There was Paulo Futre a football player hired from the ranks of SL Benfica was giving the first signs around the world, and I also succumbed to his talent, making me one of his enthusiastic fans.

    Futre and Gomes – Fernando Gomes: a duo of advanced players that made “weep” large crowds, some with joy and other for disappointment or terrible envy…

     

    Yes, I cried, and I remember perfectly even being eleven years old, sitting in a kitchen bench, watching the game in a black and white television, and there was my Porto: in the final of the trial queen of the football competitions: The European Champions Cup, now called UEFA Champions League.

    We were in 1987 when it was the “great glory” of FCP concerning football, with the conquer of this trophy, the European Champions Cup in Vienna against Bayern Munich with a memorable goal from heel Rabah Madjer, which consequently put the team playing in the Intercontinental Cup against Peñarol of Montevideo, during this match the Portuguese team won, and that “only” represents the title of the World Champion Club! And finally “we” played the European Super Cup in 1988 against the Amsterdam club – Ajax.

     

    Also internally FC Porto began to draw a domain that has extended till today.

    The 1990s were especially successful for the football team which was eight times a champion, five consecutive times this was the “Penta” history, who had never been achieved in Portuguese football History. FC Porto was also being successful in roller hockey (including the international level, winning two Cups ESRB), basketball, swimming and boxing. In 1993, the Cultural Council has organized several cultural events to mark the centenary of FCP and has been edited a commemorative numbered medal. FC Porto in 1995 surpassed the 100 thousand members and the following year, was the first time an athlete from FC Porto won an Olympic medal: Fernanda Ribeiro won the 10,000 meters and brought the gold medal from Atlanta (four years later she would bring the bronze medal from Sydney). Concerning handball, FC Porto in 1999 regained the title of national champion which had fled 31 years ago. As a matter of fact, 1999, has been the year of “Penta” too, scored a perfect season for the club who won the four most important modalities concerning the Portuguese sports panorama: football, hockey, handball and basketball.

     

    At the beginning of the XXI century Jose Mourinho arrived to Antas after having worked as head coach at Sport Lisboa Benfica and having been outstanding in União de Leiria. It was thanks to him that Porto football team returned to international titles.

     

    Winning the UEFA Cup, today called Europe League in 2003 and the UEFA Champions League in 2004, already in the new Dragão Stadium – it was a time when FC Porto again achieved full national recognition, it became champion in the four ways. In the very same year, the coach Victor Fernandez won the second Intercontinental Cup which would be added to the “portista” trophy list, a endured game and in the end, after his victory offered to “portistas”, it makes me go back to my 11 when I still was a kid any kid like me in 1987 would have liked it…

     

    FC Porto is now a recognized Portuguese Club, which “gives cards” and is respected as one of the leading ones among the best international teams, being very well known. Its records, surpassed this year (2011) the rival SL Benfica: record of national football titles (68) and some of these – thirty – are very recent and so I could watch them happening…

     

    The following major conquests are: the National and International Championships, dozens of others have been discounted here many Cups and Super-Cups of Portugal could be included in its records:

     

    1983 – Cup Winners Roller Hockey Cup.

    1984 – First European Football Final (Cup Winners).

    1986 – European Champion Clubs’ Cup and Continental Roller Hockey Cup.

    1987 – European Champion Clubs’ Cup, Intercontinental Cup and European. Super Football Cup.

    1990 – European Champion Clubs’ Roller Hockey Cup.

    1994 – CERS Hockey Cup.

    1995/96/97/98/99 – National Championship, National Football “Pentacampeão”

    1997 – CERS Hockey Cup.

    1999 – National Handball title (after 31 years) and national Basketball Championship.

    2003 – Champions of the UEFA Cup (Football).

    2004 – Champions of the UEFA Champions League, Intercontinental Cup

    2006/2007/2008/2009 – National Championship – National Football “Tetracampeão”.

    2011 – National Champion, Champion of the Europe League, in football. National Handball title, national Basketball title, national hockey title (“decampeão” 2000 – 2011 consecutive).

    2012 – National football Championship.

     

    Paulo Jerónimo

    Trabalho desenvolvido no âmbito de formação de Lingua Estrangeira

  • Conversas com os botões da camisa (2) : …………… ……..Mediatismo – Um Paradigma Para a Eternidade

    Impressionante como há certos pensamentos que os encontramos atuais eternamente. Foi o sentimento agora ao reler este texto de 2009.

     

    Não passará certamente despercebido a qualquer cidadão mediano a forma aparentemente combinada como a agenda noticiosa dos vários órgãos de informação debitam as mesmas notícias, num estilo complô, entre rádios, jornais e tv´s. Diariamente.

    A extremidade desta cadeia informativa fica reservada para as televisões, que num estilo fast-food, alimentam a maior parte da população. As consequências por este tipo de ingestão acabam por ser notórias, e entre a população, todos têm sempre uma opinião sobre qualquer assunto formada, mas pouco ou nada substanciada. De resto, a caixa mágica, que tornou o mundo mais pequeno, sabe perfeitamente o que é que os telespectadores em geral querem ou gostam e limita-se a servir as maiorias.

    Isto passa-se em vários outros campos, e como nesta lógica instituída não há lugar para qualquer tipo de escrutínio, nada admira que na evolução do comunicar, e das suas ferramentas, tudo o que meta sangue, desgraça alheia, e comunicação rápida tipo sms, seja chave garantida para o sucesso. Pode não ter credibilidade, mas terá visibilidade. E quem procurar tal, não terá pudor em faze-lo.”

     

    Paulo Jerónimo

    Maio 2009

  • Cristiano Ronaldo: Nouvelles Lettres Portugaises

     

     Foto: “Porto: Fotografias e texto de Werner Radasewsky e Gunter Scheneider”, ed. Nicolai


    Em Portugal o futebol é o desporto rei e é omnipresente. Para uma população de 10 milhões de habitantes existem três diários desportivos que, essencialmente, só tratam de futebol. Se acrescentarmos que as publicações diárias e semanais dedicam várias páginas ao futebol e sem esquecer as edições em linha, podemos pensar que o gosto dos Portugueses pelo futebol é um fenómeno invulgar. E é tanto mais questionante que Portugal, em futebol, a nível nacional, nunca ganhou nada. 

     

    Portugal tem, no entanto, hoje em dia, pela primeira vez na sua historia, um futebolista que já é lendário. Pelé, Eusébio, Platini… foram excelentes jogadores, mas não são, propriamente dito, lendários. Best ou Cantona, por exemplo, sim. 

    Cristiano Ronaldo desespera os Portugueses. Estes últimos que tanto gostam de lendas, quando tem uma viva e ao seu alcance fogem dela. Cristiano Ronaldo é um “contentamento descontente”, para os Portugueses.

     

    Num país em que a imagem do Homem está ainda ligada, essencialmente, à ruralidade (não é uma ofensa), Cristiano Ronaldo incomoda. Este não é só um jogador fora de série, é também um “metro sexual”. E talvez seja a sua urbanidade, a sua “metro sexualidade” que não lhe é perdoada. 

    O conceito, o termo “metro sexual” é criado por Mark Simpson. Este jornalista Inglês debruça-se, a partir dos anos 2000, sobre a evolução da “masculinidade”. O homem “metro sexual” deseja ser desejado e, isto, é uma forma de libertação. Beckham, por exemplo, incarna este movimento. São os homens que vão expor o seu corpo: Tatuagens, piercings, depilação, gel… passam a serem símbolos da identidade pessoal. O narcisismo já não é o apanágio das mulheres.

     

     

    Os homens já não tem vergonha de dizer que gostam de ver a imagem de outros homens. O corpo tornou-se um dos últimos acessórios da sedução masculina. O corpo do Homem tornou-se um objecto por vontade própria do Homem. Tudo no corpo é desenhado, estilizado, modelado até ao penteado, até ao ultimo detalhe. Isto, para poder agradar e competir com os outros homens. Mas também para poder conquistar e partilhar o poder das mulheres. Numa sociedade em que a imagem alcançou um estatuto maior, o desejo de ser desejado passa pela obrigação de ser visto no mundo da imagem tecnológica (televisão, webcam, etc..). E São as mulheres que compõem a maioria dos telespectadores.


    Cada vez mais, as mulheres afirmam gostarem de ver cenas de amor entre os homens. Como cada vez mais abrem “boîtes” com striptease masculino. Penso que é neste contexto que se insere a imagem de Cristiano Ronaldo. Ela pertence à adolescência da primeira geração “metro sexual”. A imagem do futebolista levanta sentimentos de frustração e de medo na sociedade Portuguesa? O que é certo é que tal imagem baralha os dados. Como se fosse necessário seduzir os homens, para seduzir as mulheres.

     

    Há quarenta anos, David Bowie pré-figurava esta evolução. Beckham deu-lhe uma forma simples e Ronaldo uma forma complexa ou artística.

     

    Sobre a ilustração de C.R.: ver aqui

    Nuno

  • Cannes 2012 ou o Amor em 2012?

     

     

    Com a atribuição da “Palme d’Or”, graças ao seu filme Amour, M. Haneke junta-se ao circulo restrito dos realizadores que obtiveram por duas vezes a recompensa maior em Cannes.

     

    O filme Amour é um conto sobre a velhice e a morte. E é uma narração dolorosa porque nos interroga sobre a nossa condição e a nossa dignidade.

    O amor não é paixão como também a piedade não é compaixão, sendo esta ideia o fio condutor do relato. O casal de idosos, magnificamente interpretado por Emmanuelle Riva (Anne) e Jean-Louis Trintignant (Georges), reivindica dignidade. E quando a enfermeira, após a ter penteado, diz a Anne que está bela, Georges despede-a. É um dos exemplos onde é desmascarada a hipocrisia, a falsa “boa consciência” e onde é acusada a sociedade do espectáculo que parece só saber fingir.

     

    Podemos levantar a pergunta se a nomeação do filme de M. Haneke não é uma resposta à alienação de quem já não quer conhecer os seus sentidos. Um filme que pinta um casal de idosos apreendendo o tempo, a dor e a sua relação com a morte. É uma fita que se opõe à tendência actual do cinema e, sobretudo, do cinema “made USA”. Georges e Anne não são super-heróis, não são seres sobrenaturais ou seres fora do comum. Formam um casal de idade como tantos outros que podemos cruzar na nossa rua.

     

    E não deixa de ser cómico o seguinte: Em 20 de Maio, o jornal “Nice Matin” publica uma crónica sobre o filme e cujo titulo diz tudo: “Haneke m’a tuer”. Titulo que reenvia para uma comédia…

    Nuno

     

  • Futebol: Uma arena de morte? …………………………. ………………………………Football, une arène barbare

     

    Lorsque « Grand Chef Apache » a crée l’étiquette « Futebol : Uma arena de Morte », il était loin de se douter que peu de temps après, l’universitaire Marc Perelman allait écrire un article intitulé « Football, une arène barbare ».

    Il est séduisant de constater que deux personnes vivant dans des sociétés différentes, et n’ayant pas le même métier ont choisi un mot identique pour aborder des questions liées au monde du football :Arena / Arène

    Nuno

     

     

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    É imensamente curioso e sedutor ver que quando Grande Chefe Apache cria a etiqueta Futebol: Uma arena de morte?, passado pouco tempo Marc Perelman, professor universitário, escreve um longo artigo que apresenta quase o mesmo título. Penso que podemos descortinar semelhanças quanto a certos temas tratados como também diferenças. Mas a palavra que é a génese do pensamento sobre o futebol é a mesma: Arena. E não é uma palavra neutra…

    Curioso e sedutor ver que duas personalidades, vivendo em países diferentes e tendo ocupações laborais diferentes, empregam, praticamente, o mesmo vocabulário. Segue a tradução do artigo de M. Perelman, escrito em 23 de Novembro de 2009:

     

    • “Contrariamente aos recentes dizeres da “secretária de Estado encarregada dos desportos, Senhora Rama Yade, o estádio nunca foi um “santuário e um lugar de civilização apaziguada”. E poderá se tornar ainda menos esse lugar e esse santuário, apesar da produção de esforços muito mediáticos e, sobretudo, desesperados graças à nascença duma “célula nacional de prevenção contra a violência”, dum “primeiro congresso nacional das associações de adeptos”, tornando-se uma “federação nacional de adeptos”. De mesmo, a repressão posta em obra pela ministra da Justiça, Senhora Alliot-Marie, parece também ineficaz com a “sua resposta penal particularmente dura  e rápida”, o “seu carácter mais dissuasivo” graças às penas de proibição administrativa de entrar nos estádios. Estas políticas não entendem que a violência dos adeptos tornando-se rapidamente hooligans não decorre duma “minoria agitante”, de “parasitas” que tomam como refém o “futebol”.

     

    A violência é praticada por ferozes hordas de apaixonados por futebol, massas compactas de brutos sem amarras, muitas vezes bêbedos e imensamente eficazes no diálogo por projecteis interpostos com os poderes públicos, mas para quem o futebol é uma parte decisiva da sua vida e o estádio uma família, uma casa. A violência não é pois exterior aos estádios, em “margem” como se disse aquando da morte de Brice Taton acontecida antes do encontro Toulouse – Partisan de Belgrado; Ela não é obra de indivíduos estranhos ao futebol.

    As diferentes expressões de esta violência – dopagem, racismo, xenofobia, homofobia, “chauvinismo” – ressalvam duma “violência interna” consubstancial à única “lógica competitiva” e à qual o futebol está associado com todas as suas fibras. E esta lógica resume-se com palavras simples: Afrontamento, combate, choque, colisão entre jogadores de equipas dispostas a brigarem, batota. Esta violência toma forma nos estádios e também no desporto amador (o “Observatoire National de la Délinquance” indica uma subida preocupante da violência no futebol amador), havendo nos profissionais, entre outros, árbitros insultados, golpes provocando ferimentos graves, multiplicação de confrontos entre jogadores nos balneários ou entre espectadores nas bancadas: Tacos de basebol, navalhas, facas, armas de fogo são frequentes…

     

    Em alguns anos esta violência, sem deixar os estádios, deslocou-se para fora destes: Os Fights opõem adeptos de equipas inimigas. A violência desagua nas cidades e, muitas vezes, em seus centros que se tornam os novos territórios dos confrontos entre adeptos e polícias aquando dos combates de rua  e a sua lista de degradações, de lojas destruídas, de carros queimados, de agressões a pessoas… Os estádios já não chegam para conter a violência que o futebol desencadeia.

    Alegramo-nos demasiadamente depressa: Os estádios Ingleses, esvaziados dos seus hooligans, ter-se-iam tornado espaços de paz. Um derby recente, West-Ham-Millwall, degenerou em batalha campal entre hooligans embebidos de álcool e cujo racismo anti-imigrantes e orientação política de extrema direita é conhecida. As milhares de proibições de estádio e os preços extravagantes dos bilhetes deslocaram o problema para as divisões inferiores… Ora, é nos estádios do mundo inteiro e nas suas imediações, como na tranquila Suíça (jornalistas agredidos, batalhas campais entre hooligans na Basileia, em Zurique, em Sião.. a polícia utilizando balas de borracha e gás hilariante), passando pela Argentina (cinco adeptos mortos esta época em brigas), Marrocos, Tunísia e, sobretudo, Argélia (uma dezena de mortos desde 2005) que se manifesta “a violência provocada pelo futebol”. Os estádios tornaram-se os lugares privilegiados da expressão desta violência e não outros lugares de agrupamento como os concertos de música, o teatro, o cinema, a praia…

     

    A mão que permitiu, quarta-feira passada, a vitória da França perante a Irlanda é a consequência directa da gigantesca pressão económica e sociopolítica que o futebol apanha nos seus laços, põe de molho nos estádios e, depois, amplifica e restitui numa gigantesca caldeirada: ganhar a qualquer custo, fazer batota para ganhar, mentir após ter-se feito batota e ganho. Tal é a ideologia deletéria que promove o futebol e não que o futebol sofre. O futebol não é um jogo: Constitui, com o estádio, o fogo activo, o lugar central onde a crise das nossas sociedades toma um novo fôlego. O futebol é o vector duma “desintegração” de todos os quadros duma sociedade, das suas referências fundamentais como a identidade nacional que depende duma cultura comum e duma língua e não duma equipa com pitões, – uma entidade passageira, artificial e aleatória. Uma bola, uns “protegem-canelas” e uns livres são insuficientes para fundar uma soberania nacional. E a identificação dos jovens a um ídolo nos estádios ou a uma equipa vencedora, a sua integração pelo futebol à sociedade não fundará nunca uma identidade nacional.

     

    É preciso agora pensar o futebol tal como ele é e não como o imaginamos ou o fantasmeamos. Assim, não é a violência que “gangrena” o futebol; Também não é uma minoria de ultras que contamina, parecendo que não, bravas pessoas calmas e pacíficas; E não são a mundialização ou ainda a mercantilização que corrompem e que sujam. A verdadeira gangrena que infesta a vida das nossas sociedades tem por nome futebol; E o estádio é intrinsecamente o lugar onde refogam as futuras explosões de violência porque os rancores (pesados) sociais e políticos amealhados se associam intimamente ao futebol; São orientados por este, exprimindo-se em caldeirões equipados para os receberem, os capturarem e os amplificarem até que desbordem na cidade, transformando-os em colunas guerreiras.

     

    A violência dos adeptos não é apenas a expressão duma aflição social; Ela está no coração do projecto futebol que é a expressão dessa aflição social; Os movimentos preocupantes de exaltação e de identificação, da fúria nacionalista entre o Egipto e a Argélia maciçamente enquadrados pela polícia e pelo exército não envenenam o futebol, o verdadeiro veneno chama-se futebol e o estádio serve-lhe de recipiente e a cidade torna-se o seu território.”

     

    Obs: Esta tradução, esperando que esteja bem, é uma homenagem ao Grande Chefe Apache.

    Nuno