“Viver só em Lisboa, com 11 anos, era muito complicado. A língua é quase diferente. Não é absolutamente nada o mesmo sotaque que na Madeira. Não compreendia nada.“
Cristiano Ronaldo
So Foot-Junior, mai 2014, p.37
Nuno
“Viver só em Lisboa, com 11 anos, era muito complicado. A língua é quase diferente. Não é absolutamente nada o mesmo sotaque que na Madeira. Não compreendia nada.“
Cristiano Ronaldo
So Foot-Junior, mai 2014, p.37
Nuno
Dois jornalistas, ou seja, um reporter já de idade e machista e uma jovem feminista, são enviados a Portugal em Abril de 1974. Acompanhados por Bob, um técnico perto da reforma, são encarregados de cobrirem, para a Televisão Suiça, o contributo das doações Helvéticas para o desenvolvimento das escolas no Portugal fascista.
Apesar da boa vontade de Pelé, o jovem tradutor Português, nada ocorre como previsto. Os temas pensados estão longe de serem interessantes e, além disso, existe muita tensão entre os dois jornalistas. A pequena comitiva decide, assim, abandonar o seu projeto de reportagem quando, subitamente, surge a Revolução. Um acontecimento que vai ditar e acelerar a democratização da Espanha, Grécia…
Esta mesma equipa vai dar cobertura jornalística a este evento, vivendo momento raros. Les Grandes Ondes (à L’OUEST) é uma comédia histórica onde a poesia e o burlesco coabitam. O realizador Suíço, Lionel Baier, realizou um filme com poucos meios. Contudo, graças a uma alegre e descomplexada mistura de géneros – até uma sequência comédia musical apresenta – o filme ganhou uma dimensão, certamente, inesperada. Sem publicidade, não passando em todas as salas, a realização de Lionel Baier soube seduzir os telespectadores que se fizeram seus embaixadores… Esta ultima razão explica que o filme ja esteja auto-financiado e, igualmente, que tenha sido eleito por entidades culturais e recreativas Franco – Portuguesas como suporte de festejos do 40° aniversario do 25 de Abril de 1974.
Ficha técnica: Suiço, Fr, Pt – 2014 – 1h24 – a cores
Realizado por Lionel Baier. Com: Valérie Donzelli, M. Vuillermorz, Patrick Lapp, Francisco Belard, Jean-Stéphane Bron
Nuno
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A imprensa Francesa ganhou mais um título neste mês de Abril: So Foot-Junior. O lançamento desta publicação, protagonizado pela prestigiada revista So Foot, foi salientado pelos mídia. É, após So Film e So Film-España, o último capítulo publicado, mas certamente não o derradeiro, duma aventura editorial que começou com quatrocentos euros.
A revista, como o deixa entrever o seu nome, é destinada, sobretudo, a jovens e adolescentes. Contudo, certas “más línguas”, dizem que vai ser confiscada pelos pais e adultos. Este primeiro número apresenta um dossier central dedicado a Cristiano Ronaldo que tem, por essa razão, as honras da capa.
Outro caderno interessante é aquele que, resumindo a história recente do futebol, aponta várias definições e escolhas do clube ideal. O único clube Português a ser citado é o FC Porto e relativamente aos itens aqui apresentados.
E quem acredita que o Benfica é o clube com mais sócios no mundo pensa que o Sol anda à volta da Terra.
Fonte: So Foot-junior, mai 2014, pp. 48-49
Nuno
Os temas bíblicos sempre deram panos para mangas… e polémicas qb.
Escritores, poetas, coreógrafos, todos gostam de explora-los. A sétima arte também.
Sobre o primeiro livro do cânone bíblico podem-se ter várias opiniões e dissertar várias conclusões, mas tenho para mim uma que sempre achei desconcertante: é que revela-nos a crueza da Criação à Destruição! Com este filme «Noé» aguarda-se portanto um “Dilúvio”…
“Será isto o fim de tudo?” – Questiona a Paramount Pictures no seu facebook oficial.
—
Paulo Jerónimo
Estreia nos cinemas a 10 de abril
Realizador: Darren Aronofsky
com
Russell Crowe
Jennifer Connelly
Emma Watson
Anthony Hopkins

O filme SnowPiercer é uma obra prima e um grande filme de antecipação cientifica, já que a acção se passa num futuro próximo, em 2031.
O realizador Coreano, Bong Joon-ho, transcende o género fantástico e autoriza um olhar sobre os possíveis futuros da nossa espécie. Como na Banda Desenhada – o filme é uma adaptação da Bd Francesa, Transperceneige, de B. Legrand, J-M Rochette e Jacques Lob – um trem anda sem parar à volta duma Terra completamente gelada e coberta de neve. É o último refúgio para a humanidade. A glaciação do planeta é fruto duma experiência falhada para lutar contra o aquecimento global.
O trem que produz água e energia, graças à neve que a locomotiva “engole”, é uma espécie de Arca de Noé. Esta jangada sobre carris apresenta também um retrato realista da Humanidade: Nas carruagens da frente vivem os dominantes, aqueles que possuem o conforto e o acesso ao bem estar. Fazendo ecrã ou fronteira com as carruagens dos esfomeados e dos ignorantes, existem as carruagens do exército. E, finalmente, a locomotiva onde vive o criador e condutor do trem. É um chefe de estado e um deus vivo.
Após revoltas passadas, Gilliam e Curtis decidem organizar uma nova revolta. A luta pela liberdade e pela dignidade vai passar pela atrevessia das inúmeras carruagens. A conquista de cada carruagem, até à locomotiva, apresenta imensas surpresas.
A acção impressionante deste filme parece ser um apelo sem equivoco para recusar a animalidade, a exploração do homem pelo homem, em suma, o intolerável quem diariamente, nos gabam em nome dum longínquo e nebuloso pragmatismo.
O realizador mostra como o pior (e o melhor) da humanidade se reconstituem no “cavalo de ferro”.
Nuno

A biografia futebolística de Gianni Rivera parece ter sido esquecida e diluída nas “brumas da memória”, dando-se maior relevo às declarações filosóficas do Brasileiro Sócrates, às considerações terceiro-mundistas de Maradona, às concepções tácticas de Johan Cruyff, ao “design” de Beckham ou de C. Ronaldo…
Gianni Rivera foi campeão Europeu em 1969 com o Milão AC (4-1 contra o Ajax) e, em 1970, foi, com a selecção Brasileira, uma das “grandezas” da Copa do Mundo, no México. E, isto, por duas razões: Qualificou a Itália para a final (golo aos 111 minutos, contra a RFA) e apenas joga os derradeiros cinco minutos, na final perdida contra o Brasil (4-1).
Gianni Rivera é na altura, momento em que o futebol se torna cada vez mais atlético, muito criticado, pela imprensa Italiana, devido à sua constituição física. Chega a ser denominado “bom futebolista para jogos amigáveis” ou “sacristãozinho”…
Na entrevista que deu à revista So Foot n°108 – 2013, pp. 160-163, decorridos 40 anos, Rivera continua igual a si próprio, declarado:
“Ser treinador? Não tinha vontade de passar toda a minha vida em fato de treino.“
E, para concluir, este remate:
“O futebol são duas coisas: a visão do jogo e a técnica. Alguns vêem o que é preciso fazer, mas não têm posses para o realizar. Alguns, ainda, sabem fazer tudo com uma bola, salvo o que seria preciso fazer. Eu tinha estas duas qualidades.”
Fonte: So Foot n°108 – 2013, pp. 160-163
Nuno

BD “Le bleu est une couleur chaude”, p.79
O ideal é sempre poder ver um filme sem saber demasiado a seu respeito.
E o essencial é: Pela primeira vez, na história do cinema, uma adaptação duma Banda Desenhada à tela ganhou um prémio prestigioso, a Palma de Ouro 2013. A critica e os espectadores são unânimes quanto à beleza da fita.
La vie d’Adèle, realizado por Abdellatif Kechiche, não é, contudo, uma adaptação totalmente fiel do livro Le bleu est une couleur chaude, concebido e desenhado por Julie Maroh, na medida em que o relato final é diferente.
La vie d’Adèle, embora proibido aos menores de 12 anos, não é um filme pornográfico. É, isso sim, a narração duma aprendizagem iniciática na qual o questionamento da paixão ultrapassa a problemática da orientação sexual. No final, um tema clássico: O amor absoluto e a sua compatibilidade com as exigências culturais e sociais…
Fontes: Extrato do filme; ilustração – detalhe da Bd, p.79, ed. Glénat
Nuno

Traduzida e publicada em 18 línguas, a Banda Desenhada Walkind Dead é um sucesso editorial mundial que parece incomodar. Como qualificar e explicar este êxito que levou esta Bd a ser, igualmente, o esqueleto e a estrutura duma série TV de renome?
Contrariamente ao que se poderia pensar, a criação de Robert Kirkman, cenarista norte-americano, conhece uma enorme divulgação na Europa, existindo 15 adaptações diferentes, não se contabilizando, por razões óbvias o Reino Unido. Se países como a França, a Alemanha ou a Espanha acompanham o ritmo de publicação norte americano desde a publicação do tomo:1 (2005), já países como a Hungria ou Portugal só em 2011 e 2010, respectivamente, iniciaram a publicação traduzida do primeiro tomo.
Na Ásia, três países publicam e traduzem a série: Coreia do Sul, Japão e Taiwan. A afirmação de Walking Dead num universo dominado pelo grafismo da Bd Manga é uma proeza que deve ser evidenciada. Foi a Coreia do Sul, logo seguida pelo Japão, quem inaugurou a edição da série, havendo já 9 tomos publicados desde 2011.
Na América do Sul, o Brasil foi o primeiro a editar, em 2006, a Bd de Robert Kirkman. Ou seja, acompanhando o nascimento da Bd e com 5 anos de avanço em relação à Argentina, Chile, México e Peru.
Nascida nos Usa, contaminando as terras anglófonas, Austrália, Irlanda, Reino Unido… e, em seguida, grande parte do planeta, Walking Dead passou, também, a ser uma Bd adaptada à televisão nos países onde existe, exceptuando na Hungria.
Vários textos que se debruçam sobre a Bd apresentam análises e observações que reenviam para o apocalipse. Penso que Walking Dead é muito mais do que uma mera metáfora do simbolismo mítico do Apocalipse e do Juízo Final. É a tentativa dum questionamento sobre o relacionamento e os comportamentos humanos alienados por um mundo dominado por uma sociedade onde tudo é mercadoria e troca, inclusive o próprio ser humano.
O retorno dos mortos à convivência com os vivos constitui a acção central que conduz a intriga. Em Walking Dead, os autores introduzem-nos num mundo diferente. O relato não nos fornece nenhuma indicação lógica e coerente, quanto à explicação dos acontecimentos. O agente de polícia Rick Grimes, após um tiroteio contra bandidos, acorda num mundo povoado, essencialmente, por mortos vivos. Nenhuma informação nos é dada perante esta ambiguidade. A medida que a narração evolui, aceitando-se o pacto de leitura, acabamos por decifrar de maneira racional elementos sobrenaturais.
Para tornar aceitável o fio condutor do relato, os autores vão introduzir progressivamente eventos que focam a condição humana. E, imediatamente, ressalva que, no âmbito dum meio ambiente hóstil, a espécie humana só existe colectivamente. O recurso ao fantástico desentroniza o mito da viabilidade do indivíduo só no mundo. Robinson Crusoé, sobrevivendo isolado na sua ilha longínqua, é um ser muito mais irreal que Rick Grimes e os seus companheiros. E, paralelamente, só uma compreensão recíproca permite ao grupo de Rick sobreviver perante os perigos exteriores. E não é um paradoxo se os perigos mais reais decorrem dos grupos humanos cujos relacionamentos assentam em relações de opressão violenta entre os indivíduos. O exemplo da sociedade dirigida pelo “Governador” é ilustrativo disso. Os mortos vivos, abstraindo-se a dinâmica do número ou da quantidade, acabam por ser inofensivos.
Em Walking Dead, uma pintura realista, a da condição humana, alia-se com o fantástico, o regresso dos mortos vivos. A descrição das leis que autorizam a opressão na sociedade já não pode ser feita segundo as normas convencionais. A terceira vinheta do primeiro tomo e, logo, da série é elucidativa. O fugitivo prefere morrer a voltar para a prisão. Todavia, como o questionamento sobre a existência humana não pode prescindir duma abordagem realista da vida, explica-se, assim, essa aliança entre o real e o imaginário. Em simultâneo, o fantástico permite aos autores combater uma censura mais subtil: a do inconsciente. É, sem dúvida, mais fácil evocar tabus e preconceitos num contexto estranho: certos temas ou ideias serão melhor aceites se são assimilados ao fantástico.
A existência dos mortos vivos provoca uma ruptura num sistema social que parecia condenado a se prolongar indefinidamente. Graças ao aparecimento dos mortos vivos, é possível “falar” da vida. O grupo de Rick é uma amostra de civilização humana. Não existe lugar para a fatalidade, certezas ou dogmas que são sinónimo de queda. Tudo é movimento e é nesse movimento que os companheiros de Rick encontram a sua salvação. A construção de mundos diferentes opõe-se ao mundo dos zombis cuja vida se assemelha à de um animal, de um predador, de um parasita que se enrosca e come o que poderia ser um semelhante seu.
Os aspectos ligados ao regresso dos mortos mergulham e perdem-se na cultura popular europeia. Eles desentronizavam o sério e os dogmas que a burguesia, aquando da Renascença, foi elaborando para assinalar o seu poder e a sua ideologia. Talvez o êxito de Walking Dead possa ser explicado, em parte, por essas reminiscências. O tema do regresso dos mortos vivos, tratado debaixo duma forma carnavalesca ou não, é um dado das sociedades medievais europeias que, com as navegações marítimas, chegou às Américas. Note-se, por exemplo, que um dos maiores romances de língua Portuguesa que assenta no regresso de mortos vivos foi escrito por um Gaúcho: Incidente em Antares, Érico Veríssimo.
Walking Dead é uma obra que se articula em redor da condição humana. O recurso ao exagero, ao imaginário, ao sobrenatural, ao fantástico desagua na desentronização dos valores sérios ou oficiais da sociedade. A Bd inscreve-se na tradição carnavalesca e popular que nega o dogma, a fatalidade e o imobilismo.
Fontes: Walking Dead – Le Magazine Officiel n°3 / Introdução à literatura fantástica – T. Todorov / L’Oeuvre de F. Rabelais – M. Bakhtine
Nuno

“Quando a esmola é grande o pobre desconfia” e tanta propaganda que se viu no pré-lançamento do filme de Rúben Alves A Gaiola Dourada – um retrato dos portugueses, resultante da epopeia de sua emigração nas últimas décadas – confesso que me levou a sentar na sala com a esperança e espetativa de que ia enganado.
Tentando apaziguar a discussão entre meus dois neurónios frontais contra um ocipital, degladiavam-se: “lá tás tu Paulo… vai-se a ver e na volta o filme até que merece mesmo uma Palma de Ouro, à grande e à francesa (link). Espera…”
1.ª Surpresa: a sala começava a mostrar-se demasiadamente bem composta.
Mais de metade dos lugares ocupados, tendo em conta que estamos ao meio da tarde de um dia de semana, no pais que, contam as estatísticas, tem a mais baixa taxa de cultura cinéfila (ou de leitura, já agora…) bom, isto por si só já é obra.
“Vês o efeito da propaganda? Picardava o neurónio ocipital.
Achas que sim, oh cromo? Vinte e seis dias depois da estreia nacional? Ripostava um dos do lóbulo frontal. Em parte, talvez… mas no todo, duvido – atiçava o segundo dos frontais, prosseguindo: Ó “neurónio ressabiado”, pá. Aqueles anos de neve na infância passada pelos Pirenéus Bascos afetaram-te mesmo do clima, com certeza…” E a Sala continuava enchendo.
É relevante e sintomático o percurso cultural dos Portugueses.
Eles aprenderam a ver televisão, antes mesmo de terem tido oportunidade de aprenderem a ler. Sim, literalmente. E esse fenómeno, de certo modo prolongado pelos próximos 30 anos é determinante para o nível e exigência cultural que demonstramos hoje. Com o aparecimento das primeiras emissões da RTP nos anos 50 num pais maioritariamente analfabeto como o era o nosso, o povo entra em transe com emissões de futebol, festivais da canção ou concursos. Entre os prazeres de assistir, ver e ouvir as emoções de “Gabriela” ao vivo, in loco na pequena “caixa mágica” ou deleitar-se na leitura da mesma, escrita pela pena de Jorge Amado, a escolha seria óbvia.
E se hábitos de leitura nunca pegaram, os da sétima arte então, nunca vingaram. Os Portugueses continuam a ser os cidadãos da Europa
que menos cinema frequentam, onde mais salas fecham ou as cadeiras livres abundam.
Mas cultura? O que é isso da cultura?
Depois de alguns anos de investimento nesse sentido, o atual governo português retrocede dizendo-nos que, por culpa da crise… há que exterminar, precisamente este Ministério, o da Cultura. Foi a primeira das Reformas de Estado a pôr em prática, aquando da remodelação de Ministérios. A população, a que “sabe ler” inclusive nas entrelinhas, retira daqui outras leituras: demonstram-nos o modo como os dirigentes do país, eles próprios uns incultos, encaram o assunto. Numa atitude “comezinha”, “portuguesinha”, revivem-se memórias antigas: “cultura é no campo, no lavradio. A cultura do ancinho, da enchada, do terreno que germina. Recupere-se a agricultura, a verdadeira cultura.” Como em tudo, há que definir prioridades.
Alors, e o filme? O filme… bon, c’est ça: “La Cage Dorée” – A Gaiola Dourada escreve-se, fala-se e protagoniza-se na mais francesa e incontornável de todas as cidades – aquela que, dentre todas as outras, mais portugueses acolheu em todo o mundo: Paris.
Na película estereotipa-se uma família emigrante portuguesa. Mas a estória extravasa o que se possa considerar ou etiquetar como sendo exclusivamente a imagem ou vivências experimentadas pelos nossos emigrantes franceses. Porque as emoções que ali se vivem, assistindo-se à película, universalizam-se. Serão as mesmas e comuns a quaisqueres outras experiências de vidas em qualquer outro país onde quer que exista um portuga estrangeiro.
Cada um experienciará o filme à sua maneira mas eis uma das cenas que se me mostrou particularmente das mais marcantes:
Maria e Zé (Rita Blanco e Joaquim de Almeida) na arrecadação da casa vão selecionando alguns haveres, presume-se que para levarem de regresso para a terra natal. Como plano de fundo na imagem temos um grande placard de ferramentas, à imagem do personagem, o Zé, um humilde e prestável pedreiro, biscateiro habilidoso, de quem os vizinhos franceses tanto apreciam e recorrem (interesseiramente).
Enquanto Zé enrola o fio de um berbequim, Maria puxa de um monte de roupas antigas um par de calças que o filho já há muito não veste desdobrando-o e apelando à memória de Zé: “Lembras-te como o Pedro detestava estas calcas?”.
Um mero exemplo de uma entre várias cenas que resultará num potencial reboliço às entranhas de qualquer espectador que tenha vivido noutra comunidade ou cultura fora da sua terra natal. À qual lhe baterá um potente flashback rodeado de emoções à flor-da-pele, vestindo ele próprio aquelas mesmas calças e revendo-se no lugar do filho de emigrante, nas discussões matinais sobre a roupa para vestir e dentre as quais, eram por nós (crianças) de imediato descartadas todas aquelas peças de indumentária que evidenciassem a cultura portuguesa (ou imagem de coitadinho) num pais onde se é forasteiro. Basta o que basta, não se esperá-se que fosse o catraio, o primeiro naquele dia a acordar o estigma sofrido em qualquer recreio escolar estrangeiro pelo “típico filho do pedreiro e mulher a dias portugueses” que os nativos daquela terra fazem questão de nos recordar copiosamente, quotidianamente, direta ou indiretamente.
E quando um filme nos arranca consecutivas gargalhadas com a mesma facilidade e naturalidade que a seguir nos leva às lágrimas, então arriscaria que não há dúvida: só podemos estar perante um grande filme, digno do mais prestigiado troféu de cinema francês e europeu, mas para o qual é preciso ser-se Português para o entender em toda a sua plenitude.
Bravô! Palma de Ouro à Gaiola Dourada!
E desengane-se: mais propaganda sim. É disso que precisam, afinal, os filmes portugueses. Para que os pobres de espírito deste pais deixem de encarar ofertas culturais como esmolas.
Paulo C. Jerónimo

Para festejar o seu décimo aniversário, a revista So Foot, nascida com um capital de 450 euros, apresenta 198 páginas de entrevistas “orgásticas” com jogadores que marcaram e pontuam a história do futebol moderno.
Dado a conhecer, graças ao FC Porto, com a conquista da Liga dos Campeões Europeus em 1987, Paulo Futre é o único jogador Português presente no conjunto de entrevistados, destacando-se, assim, com Platini, Zidane, Ronaldinho, Hagi…
Após a consagração da Liga dos Campeões Europeus, Paulo Futre é transferido para o Atlético de Madrid por 400 milhões de pesetas (2,2 milhões de euros). A segunda maior transferência de sempre para aquela época. E esta transferência desagua, com o tempo, em outras. E, no âmbito da sua carreira, Paulo Futre, conhecerá Berlusconi e Bernard Tapie homens que, ainda hoje, são actores da actualidade internacional.
Nascido em 1966, numa família operária de Montijo, Paulo Futre, depressa toma consciência da sua condição social e define-se como anti-burguês. O seu primeiro salário é destinado a comprar um gira-discos e para ouvir a música de Queen e, se a história se repetisse, tornaria a fazer greve, como jogador, aquando a Copa do Mundo de 1986.
Poder-se-ia continuar a descrever a entrevista com Paulo Futre e, no fundo, poder-se-ia pensar que este depoimento não aponta nada de novo se não existissem estas palavras do mesmo Paulo Futre:
“ … (eu) não compreendia nada, não compreendia que se ganhássemos a final (LdC) todo o povo do Porto, ricos e pobres, ficaria feliz. E se perdêssemos todos chorariam. Porque só no Porto é que é assim.”
Haverá melhor do que estas palavras para definir uma nação?
O Porto é uma nação!
Fonte: So Foot – 10 ans – n°108 – pp.180-184
Nuno