Author: penaleve11

  • Achados

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    Vou a um negócio de homens, desta vez tens de ficar em casa, disse Cipriano Algor ao cão, que correra para ele quando o viu aproximar-se da furgoneta. É claro que o Achado não necessitava que o mandassem subir, bastava que lhe deixassem aberta a porta do carro o tempo suficiente para perceber que não o expulsariam depois, mas a causa real da sobressaltada corrida, por muito estranho que possa parecer, foi ter ele suposto, em sua ansiedade de cão, que o iam deixar sozinho. Marta, que saíra para o terreiro conversando com o pai e o acompanhava à furgoneta, tinha na mão o sobrescrito com os desenhos e a proposta, e embora o cão Achado não tenha idéias claras sobre o que são e para que servem sobrescritos, propostas e desenhos, conhece da vida, em todo o caso, que as pessoas que se dispõem a entrar em carros costumam levar consigo coisas que, em, geral, mesmo antes de para eles subirem, atiram para o banco de trás. Instruído por estas experiências, percebe-se que a memória do Achado o tenha levado a pensar que Marta iria acompanhar o pai nesta nova saída da furgoneta. Apesar de estar aqui há poucos dias, não tem dúvidas de que a casa dos donos é a sua casa, mas o seu sentido de propriedade, por incipiente, ainda não o autoriza a dizer, olhando em redor, tudo isto é meu. Aliás, um cão, seja qual for o tamanho, a raça e o carácter, jamais se atreveria a pronunciar palavras tão brutalmente possessivas, diria, quando muito, tudo isto é nosso, e ainda assim, revertendo ao caso particular destes oleiros e dos seus bens móveis e imóveis, o cão Achado nem daqui a dez anos será capaz de ver-se a si mesmo como terceiro proprietário. O máximo a que talvez consiga chegar quando for cão velho é ao obscuro e vago sentimento de participar em algo arriscadamente complexo e, por assim dizer, de escorregadias significações, um todo feito de partes em que cada uma é, ao mesmo tempo, a parte que é e o todo de que faz parte. Idéias aventurosas como esta, que o cérebro humano, grosso modo, é mais ou menos capaz de conceber, mas que logo tem uma enorme dificuldade em trocar por miúdos, são o pão nosso de cada dia nas diferentes nações caninas, quer de um ponto vista meramente teórico quer no que se refere às suas consequências práticas. Não se pense, contudo, que o espírito dos cães é como uma nuvem bonançosa que levemente passa, uma alvorada primaveral de suave luz, um tanque de jardim com cisnes brancos vogando, se o fosse não teria o Achado começado, de repente, a ganir lastimeiro, E eu, e eu, dizia ele. Para responder a tal desgarramento de alma aflita, não tinha achado Cipriano Algor, apreensivo como ia pela responsabilidade da missão que o levava ao Centro, melhores palavras que desta vez ficas em casa, o que valeu ao angustiado animal foi ter visto Marta dar dois passos atrás depois de ter entregado o sobrescrito ao pai, assim ficou o Achado ciente de que não o iriam deixar sem companhia, na verdade, mesmo constituindo cada parte, de per si, o todo a que pertence, como cremos que já deixámos demonstrado por a + b, duas partes, desde que estejam unidas, fazem muita diferença no total. Marta acenou ao pai um cansado gesto de adeus e voltou para casa. O cão não a seguiu logo, ficou à espera de que a furgoneta, depois de descer a ladeira para a estrada, desaparecesse por trás da primeira casa da povoação. Quando daí a pouco entrou na cozinha, viu que a dona estava sentada na mesma cadeira em que tinha trabalhado durante estes dias. Passava os dedos pelos olhos uma , e outra vez como se precisasse de aliviá-los de uma sombra ou de uma dor. Decerto por estar no tenro verdor da mocidade, Achado não teve ainda tempo de adquirir opiniões formadas, claras e definitivas sobre a necessidade e o significado das lágrimas no ser humano, no entanto, considerando que esses humores líquidos persistem em manifestar-se no estranho caldo de sentimento, razão e crueldade de que o dito ser humano é feito, pensou que talvez não fosse desacerto grave chegar-se à chorosa dona e pousar-lhe docemente a cabeça nos joelhos. Um cão mais idoso, e por essa razão, supondo que a idade está obrigada a suportar culpas duplicadas, mais cínico do que o cinismo que não pode evitar ter, comentaria com sarcasmo o afectuoso gesto, mas isso deveria ser porque o vazio da velhice o teria feito esquecer-se de que, em assuntos do coração e do sentir, sempre o demasiado foi melhor que o diminuído. Comovida, Marta passou-lhe devagar a mão pela cabeça, acariciando-o, e, como ele não se retirava e continuava a olhá-la fixamente, pegou num carvão e começou a riscar no papel os primeiros traços de um esboço. Ao princípio, as lágrimas impediam-na de ver bem, mas, pouco a pouco, ao mesmo tempo que a mão ganhava segurança, os olhos foram aclarando, e a cabeça do cão, como se emergisse do fundo de uma água turva, apareceu-lhe na sua inteira beleza e força, no seu mistério e na sua interrogação. A partir deste dia, Marta vai querer tanto ao cão Achado como sabemos que já lhe quer Cipriano.

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    Extraído de: SARAMAGO, José. A Caverna. Companhia das Letras, 2000. p.85-87.

     

  • bat, bi, hiru, lau – in «O Último F» -Autobiografia

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    João já te disse o casaco é este e com botas de borracha e chiu! Mãe, outra vez esse casaco com botões aos pauzinhos… Tu deixas é de ser esquisito, vestes o casaco e embora que estás atrasado. João Afonso esgotara as alternativas. Era de entre os três irmãos o que mais regateava as vestimentas que a mãe lhe apresentava, mas Júlia já possuía um mestrado de habilitações validado pela educação dos três rapazes. Redundante e sem deixar margens para dúvidas, habituara-se a contornar aquelas birras do filho do meio, que repetia frequentemente quanto à angústia do traquinas de cabelo liso castanho, franja esticada de corte arredondado mal amanhado feito pelo próprio pai e que mais lembrava um capacete penico que lhe tapava as orelhas. Certo era que o rapaz mostrava complexo de vestir aquelas roupas mais saloias não lhe basta-se já ter o estigma social de ser um Português em terras dos Pirenéus espanhóis.

    Júlia Afonso era detentora de um intuito materno apurado e se havia coisa que não lhe faltava era a convicção de um suposto bom gosto abrilhantado por aquele toque algo refinado para a indumentária. Assim a vizinhança o confirmava, pois que eram frequentes os elogios que a mãe colhia entre pares pela apresentação esmerada dos miúdos, não obstante as dificuldades em cria-los sozinha o que não bastando, acrescentava-se ter ainda de sustentar o marido e aparar-lhe os golpes.

     

    Adios! Resmungou João Afonso enquanto batia atrás de si a forte e pesada porta que também o próprio pai fizera. Jorge Silva é angolano, neto de um Português de Espinho que fora para colónia portuguesa e fizera fortuna no comércio do café e diamantes entre outros. Jorge tivera portanto berço, e tinha as típicas boas maneiras da alta sociedade de Luanda. Cuidava que tal berço se refletisse nos filhos e lá tinham de comer os miúdos, pelo menos quando o pai estava à mesa, de garfo e faca desde tenra idade, nem que a refeição fosse frango assado. Mas era também um rebelde parido de nascença. Filho do menino mulato da casa com a empregada preta como a ferrugem, um castanho tão escuro como o café torrado mas linda e com um brilho nos olhos maior que o dos diamantes que o patrão comercializava. Jorge é o primeiro, o mais velho dos pelo menos 13 filhos de cinco mulheres distintas que eram reconhecidos ao avô Ilídio. Autodidata por natureza, com a mesma habilidade que cortava o cabelo aos filhos, Jorge construia uma porta lá para casa, levantava uma parede em tijolo se preciso fosse ou reparava eletrodomésticos, esta que era a sua ocupação nas horas vagas, quando não se encontrava metido em confusão da grossa ou agarrado aos copos de bebida branca.

    Já na rua, João Afonso tirou as perneiras das calças para fora das galochas pretas, descalçou as luvas que amarrotou para dentro dos bolsos do casaco impermeável caqui azul escuro com risca vermelha e branca, o seu preferido que andava sempre escondido na mochila para dias de emergência. Fez-se pela ladeira abaixo deixando para trás a Villa Namur em Pasai Antxo, povoação da periferia de San Sebastián, área dos subúrbios da cidade e que contava com 370 mil habitantes, daquela que era a capital da província espanhola de Guipúscoa situada na região autónoma do País Basco. Está no limite de fronteira do Noroeste de Espanha com a entrada oeste de França. A província Basca é a segunda mais poderosa economia do país, logo a seguir a de Madrid. Jorge Silva sabia-o, por isso para ali desertara de Portugal e fora embarcadiço nos primeiros tempos de San Sebastian cidade com alto movimento portuário. Por aquelas montanhas os dias eram brancos de neve naquele dezembro de 1982.

     

    Espera João! Que também estou de saída, ouve o pequeno Afonso que voltou-se e lá vinha o companheiro das tropelias, Iñaki, de sete anos, mais um que João Afonso, também ele irmão do meio dos Iglesias, de Iker o mais velho, e Paloma a irmã mais nova por quem o coração do João palpitava.

    Conho! Que teu adorado Luis Miguel Arconada deu-me ontem uma grande alegria. Mas que fífia aquele golo. Cô-coro-cô-cô! Cacareja Iñaki enquanto com os braços dobrados imita uma galinha a dar às assas. O pequeno chavalo não podia desperdiçar a oportunidade. Sabia como poucos da adoração que João Afonso nutria pelo guarda-redes da Selecção Espanhola, personalidade que era o orgulho do clube de futebol da cidade, o Real Sociedad. Luis Miguel Arconada, guarda-redes da equipa do campeonato espanhol que traja de azul e branco viria-se a tornar no maior ícone de sempre do Real Sociedad. De resto, Arconada era tão somente um nome que começava a ter tanto de sonante que se tornaria lendário no futebol mundial pela destreza entre postes, e conforme constataria o jovem João Afonso anos mais tarde. Já Iñaki era ferrenho adepto do clube da cidade portuaria vizinha de onde era oriunda a família, a capital da província de Biscaia com o seu clube rival o Atlético de Bilbao. Faziam os dois miúdos neste capítulo um curto circuito autêntico. Mandavam patanisca cheirava a queimado. Ostias, Iñaki! Gracias por el recuerdo, atirou Afonso de soslaio à provocação do Iglesias, prosseguindo, olha, já te disse que estamos a aprender o nome dos números nas aulas de euskera? Não, mas diz-me, o que sabes já tu em euskera? Já aprendi umas coisinhas, a contar até quatro por exemplo. João afina a garganta e emite os sons dos primeiros quatro algarismos do idioma nativo Basco: bat, bi, hiru, lau, e acrescenta, a la mierda el BILBAO! Joder João, que te den por culo, cabron de mierda que te agarro. Retira o que dizes! João corre, iñaki busca, atravessam desalmadamente a Plaza Central, saltando os primeiros bancos de madeira, fintando-se entre os anonimos que por alí passam indo à sua vida, com algumas paragens pelo meio para se abastecerem de bolas de neve a serem atiradas. Retira o que disseste, exigia Iñaki. A la mierda el Bilbao, devolvia João afonso – Bat, bi, hiru, lau. Acalmaram por fim com o estridente soar do sino da Igreja de San Firmin situada ali em plena praça. Batia a hora certa que é a mesma de entrada na escola logo alí ao lado. Já viste que ridículas estas batas, a dos parbulitos? Cala-te que ainda há poucos meses andavas com uma igual, devolveu-lhe Iñaki Iglesias, enquanto aguardavam pela passagem da fila dos alunos de parbulitos, as classes de pré-primária na escola espanhola.

     

    in «O Último Fôlego» – Autobiografia

    sítio oficial

  • I need a Hero – in «O Último F» – Autobiografia

    I need a Hero – in «O Último F» – Autobiografia

    João Afonso agita com força o isqueiro branco da Bic no ar. Roda-lhe a pedra e dá faisca mas continua a não sair lume. levanta o isqueiro a altura dos olhos e verifica-lhe o nível de gás no contra-luz da rua. Encontra-se no Hall de entrada da pastelaria Nova Falagueira na Amadora. O dia é solarengo, o primeiro em que o astro que comanda a vida espreita neste ano de dois mil e dezoito, uma aberta aos dias frios e húmidos como o são sempre todos os de janeiro, exceto, recorda, os primeiros doze que dizem os antigos, cada um desses variar no clima variação essa que corresponde à previsão de cada um dos meses seguintes do ano. Este dia de Reis era solarengo portanto, e confere, junho seria um mês normal. Larga a fumaça solta pelas narinas. Abotoa o casaco com frio e olha para o cão preso pela trela no poste em frente que avisa quem por ali passa que esta é uma zona com vídeo vigilância, para segurança das pessoas, bens e prevenção criminal, lê-se. A Amadora não é de facto uma cidade pacífica. O cão esse não tem frio. Um Serra da Estrela de pelo comprido, cor fulvo lobeiro, com o sangue quente, uma boa dose de camada de gordura no próprio couro cabeludo, e com o seu manto de pelo lustroso, procura sempre os pisos mais frios para se deitar ou fica a sombra, não fosse ele concebido para sobreviver a invernos inteiros ao relento em ambiente de temperaturas negativas da serra que lhe dá nome à raça.

    Olha o Tarzan! Dispara uma voz do canto da avenida. Tarzan! Oh conas, não vês que ele está preso ao poste da polícia, retorquiu uma segunda voz. Eram três gaiatos. Eu bem te disse que ele era cão polícia. Os ciganitos na ordem dos seis, dez, e treze anos fazem festas ao Herói que agora se levantara. Olha, como é que se desata isto? Psst, está quieto, pensas que estas em casa? Interrompe João Afonso na sua pausa de cigarro à porta da pastelaria. Os ciganos viram-se para trás com cara de cu sem saber o que dizer ao homem mas o mais puto e reguila de todos não perde tempo. Ah senhori, este cãoé é meué. É teu? Desde quando? Esse cão é meu. E não se chama Tarzan, chama-se Herói. É meué é, que encontrei-o abandonado noutro dia, até o prendi no acampamento com um cordeli e tudo mas ele arrebentou-o e saltoué o muro, e olhe que o muro é mais alto que você! e fugiué.

    Com que então foste tu! Bem o podia procurar toda a tarde e noite dentro. E tu com ele preso. Este cão é meu, não viste que tinha coleira? Fugiu-me, estávamos a passear e nunca mais o encontrava. Se mais alguma vez o virem sozinho pegam nele pela coleira e vão-me tocar à campainha no prédio alí atrás em frente ao supermercado. Entendido? Sim senhori. Mas podemos brincar com ele? Podem. Oh senhori, porquê ele está preso a este poste da polícia, ele é cão polícia, perguntou o mais velho. É, responde Afonso. E o senhori é polícia? Sou. Portanto cuidado! Vês, eu não vos disse que era cão polícia! Eu já o tinha visto uma vez numa rusga que fizeram ao acampamento!

    João Afonso dá uma gargalhada com vontade. Mal sonham os ciganos que o Herói ainda nem tivera tempo para grandes rusgas na cidade de há tão poucos dias que ali chegará.

    A história do João e do Herói é ainda muito curta, nem sequer tem ainda uma semana, mas o canídeo já domina o território. Herói é um cão nobre, possante de movimentos e atitude, de fazer alguns transeuntes mudar de passeio quando o avistam à distância. É ao mesmo tempo o cão mais doce e carente de mimo que João Afonso algum dia conhecera. Ao mínimo descuido, à menor das oportunidades, o Serra da Estrela fugia e passava tardes inteiras nas suas pesquisas de rua. Foi o que fizera ao dono dois dias antes, que o deixou desorientado toda a tarde e serão dentro, à procura dele pela cidade e que não o encontrava. Pudera, afinal por um cordel estava preso. Era já meia noite quando se preparava para deitar numa noite que já a imaginava em branco preocupado com o paradeiro do cão, quando, numa última e derradeira tentativa do dia volta para trás largando a maçaneta da porta do quarto. Calça as botas, pega no chapéu de chuva e nas chaves e desce as escadas do prédio. Última tentativa, última ronda do dia, se não aparecer amanhã logo se vê, há-de lhe dar a fome, sabe onde tem comida. Será? Absorto nos pensamento Afonso abre a porta de saída do prédio, da dois passos em direção ao carro, e, pasme-se, fica intacto com o chápeu de chuva em posição de quem ia ser aberto, mas que se lixe a chuva. Deus me valha! Héroi, Ordinarão! Isto faz-se? O Serra da Estrela levanta a cabeça, olha para João Afonso, deixa cai-la de novo no chão onde estava prostrado, ao lado da roda esquerda do carro de João Afonso, visivelmente combalido. João Afonso analisa-o, tem medo que tenha sido batido pelo sôfrego trânsito da cidade. Herói não se levanta nem quando para isso é mandado. Apalpa-lhe todo o corpo, parece-lhe bem. João ajoelha-se ao seu lado, abraça-o pelo pescoço, beija-o e chora. Já sabes quem é o dono, carago.

    O cão apodera-se do coração do João naquele instante, ao fim de quase uma semana de convívio, mas a história do Herói e Afonso era outra e bem mais antiga. E o cão não o sabia.

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    in «O Último Fôlego» – Autobiografia

  • Será do Benfica? …Perguntar Não Ofende #20

     

    Curioso como depois de vários anos em banho maria, no regresso da atividade definitiva do Blog, encontra-se no top dos posts mais vistos do dia este de 2009: A Galinha da Vizinha.

    O Benfica jogou ontem. Mal, ao que parece. Serão saudades doutros tempos e espetáculos? Ou de outras belas coisas por aí ilustradas e escritas?

     

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    foto ilustrativa de A Galinha da Vizinha (link)

     

  • O Facebook e as Pessoas, Que São Todas Iguais

     

     

    A segunda é de vez. Está decidido. O meu voto de ano novo? Iniciar 2019 desinfetado da rede social Facebook.

    Confesso que não é fácil, até porque já havia decidido e anunciado isto há pouco mais de um ano e fracassei, não tendo resistido à tentação e por lá me fui arrastando. 

    Mas soam as campainhas e disparam as luzes de emergência quando em pouco tempo me vejo forçado, por uma questão de atitude, a bloquear o meu perfil a duas pessoas bastante idóneas e com quem há mais de 10 anos sabia dialogar por estas vias e hoje não há espaço nem para as ver espirrar na mais selvagem de todas as redes sociais. As pessoas em geral agridem-se gratuitamente, não medem atos e palavras, não medem nada. De ataques a orgasmos tudo se despeja na rede social.

    O que se passa com o Facebook? 

    Talvez Os Azeitonas ajudem a perceber com esta resenha bem atual.

    As pessoas são todas iguais, canta a banda portuense no seu último álbum. Uma pérola. Mordaz sem o ser, uma leitura da sociedade sem o parecer, uma boa critica aos que só já não deixam cair a máscara porque fazem questão de fazer login desmascarados. Sem dor nem pudor.

    Porque alí há coisas que irritam todos os dias ver, ou ler, vomitadas na rede, e que se personificam em: a  miúda do cabelo azul; o cavalheiro ali atrás; o homem do olhar obtuso; e a senhora de uma certa idade.

    Indo por partes,

     

    A miúda do cabelo azul. Os azeitonas vingam desde a sua nascença, entre outras coisas, pelo conteúdo substancial que colocam nas suas músicas, seja a nível lírico ou musical. Com o cabelo azul temos claramente uma alusão ao filme “A Vida de Adele“, onde uma das duas lésbicas protagonistas se destaca por este estilo de cabelo. E se dúvidas houvessem elas desfazem-se quando o letrista decide intruduzir a partir do sexto verso uma clara alusão ao mundo da psicanalise, com a filha a chamar pela atenção do pai que a ignora. Trata-se de uma abordagem ao denominado por  Complexo de Electra, analogia desenvolvida pelo pai da psicanalise Sigmund Freud e na qual, segundo ele e mais alguns, justifica o desvio comportamental sexual das mulheres lésbicas. O facto do grupo musical optar por abordar esta temática pelo lado feminino da questão, ao contrario do mais habitual, que são os casos abundantes masculinos, comportamento este descrito na psicanalise pelo Complexo de Édipo – analogia idêntica onde Freud assenta a sua justificação para tal desvio (perdão pelo termo!) nos rapazes – e como por exemplo os Xutos & Pontapés já o fizeram há muitos anos aqui. A abertura da música com este tema na versão feminina, muito menos falado e conhecido,  dá azo, talvez , a uma sátira a corrente em voga #metoo.

     

    O Cavalheiro ali atrás, esta é fácil, é de caras, ao cavalheiro a vida corre-lhe bem, se o país cai nas mãos dos espanhois, tanto lhe faz. Representa o grosso da classe média portuguesa, que se abstem nas eleições. Preocupada com a sua vidinha e, desde que esta lhe corra bem, está-se a marimbar para o ir votar. 

     

    Já O homem do olhar obtuso é um caso mais sério. Não suporta gente como o “indigente cavalheiro ali atrás”. Mais, o grunho de olhar obtuso tresanda a bafio, por baixo da sua manga à cave deve aplicar o mesmo desodorizante do grande Salazar e o cheiro é a perfume patchouli. Os modos, os trejeitos, os tiques machistas, a falta de tolerância, é estilo “Deus, Pátria e Família”. Uma representação ou medo da possivel crescente franja de extrema direita em portugal. 

     

    E A senhora de uma certa idade. Também não é difícil. Saudosista, nostálgica, mais do que agarrada à mala marron, abraça-se aos velhinhos discos de vinil que não são os do tempo da sua juventude, mas sim da nossa, os que crescemos nos anos oitenta. Ver representada uma velhinha de cabelos brancos abraçada ao LP sensação do Kenny Rogers nos eighties, coloca-me, e com propriedade, no papel de um velho de 90 anos, quando se chega a condição dos, vá lá… três dias – para ser generoso – de sintonia na M80 sem mudar de estação.

    Os Azeitonas é que sabem e sabem-na bem, antes vê-los ou ouvi-los a eles, do que viver com gente desta diariamente a espreitar na janela do ecrã. 

    A música é uma arte, aliás, a mãe das artes. E como tal, cada um a ouve, vê e interpreta como quer, de maneira distinta ou igual. Já o José Mario Branco dizia: “A Cantiga é uma Arma“. 

    Já quanto ao Facebook, acabaram-se emissão de opinião direta, respostas a comentários provocadores, fica para um simples canal de propaganda dos posts do blog. Já que é lá que a carneirada para toda, sempre se faz desta forma um favor à sociedade.

    Rest in peace FB.

     

  • Puttana che li ha dati!

     

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    A Intimissimi roubou-me 39,65€. Não me enviou a encomenda nem me devolveu o dinheiro.

    E ainda fui eu feito parvo gastar mais 16,00€ numa chamada para o departamento de expidição de Milão, que até me garantiu que resolveria o problema, depois da atendedora no departamento de reclamações de Portugal não ter tido vontade (mas sim muita brutidade) em resolve-lo…  Puttana che li ha dati!

     

    PS: Não, não, a lingerie não era para mim.

  • A Mesa de Cabeceira de Um Virginiano

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    Pensei em limpar-lhe o pó, e observo com particular atenção a minha mesa de cabeceira. Carago, que é mesmo de um virginiano. Picuinhas, perfeccionista, metódico, resumindo, um complicado. Porque saber gerir isto é complicado. Irrita-nos mesmo quando damos connosco inatamente a alinhar os lápis ou canetas na secretaria, ou a ferramenta na bancada, numa sequência que para o virginiano tem de ter lógica, seja por ordem crescente ou decrescente, por cores das mais frias (azuis) para as mais quentes (violetas) ou outra qualquer. Chega a ser desgastante, e querer simplificar, aprender “A Arte Subtil de Dizer Que Se Foda” – o tema do próximo livro que deve de ir para esse monte, segundo promessa de oferta feita por quem bem me conhece – saber simplificar é uma arte que não dominamos. Portanto, os livros, e a mesa de cabeceira que se resumem a eles, não um, mas vários, porque um bom virginiano gosta então e por natureza de complicar o que é simples. Podem passar dias sem ser abertos, ou noites seguidas agarrado a um, ou ainda num vaivém de insatisfação, indeciso entre os vários. Então vamos aos do momento:

     

    Porque Nós – James Le Fanu. Adquirir um livro é um pouco como adotar um animal: não somos nós que os escolhemos a eles, são eles que nos escolhem a nós. Depois de mais uma longa tarde de espera no Hospital de Santo André, onde aguardavamos notícia de ordem de internamento ou alta para a minha sogra que se encontrava em estado avançado e violento de expansão de um linfoma, e o que mais se temia era que o mesmo atingisse o cérebro, o que se veio mais tarde a confirmar e à colocar em estado terminal, peguei no meu sogro e mulher para irmos lanchar ao Shoping, e no meu caso, comprar um livro para ajudar a passar os longos tempos de espera. Saiu-me esse na prateleira, precisamente um sobre dois dos mais importantes estudos científicos dos últimos 20 anos sobre o cérebro humano e que, citando-o “nos explica o porquê do nosso lugar no universo”.

     

    A Causa das Coisas – Miguel Esteves Cardoso. Este conheci-o pela mão, ou melhor, pela voz, de Ana Narciso, aquando da transmissão do Programa “Três Marias”, na Rádio Dom Fuas, um programa que comecei por desafiar a própria a me ajudar a construir, e que se queria com três mulheres à conversa numa abordagem dos temas que quisessem, do ponto de vista feminino. Fez sucesso, o programa, e um dia a Ana apresentou ali aquele livro como sugestão de leitura de férias de verão. Fiquei absorto no tema e em boas gargalhadas que o Miguel nos proporciona neste livro, no seu divertido sarcasmo habitual, como só ele sabe fazer, sendo o exemplar uma compilação das crónicas que o mesmo escrevia num semanário português por volta dos anos 80 sobre o quotidiano saloio portuga.

     

    O Primo Basílio – Eça de Queirós. Só porque sim. Porque se cruzou comigo um dia, e pensei que este tinha do ter/ler. Porque se um livro fosse uma canção, então este seria um daqueles que faria parte do cancioneiro português. Mas não está fácil. Depois de ler Os Maias, este agora sabe a tipo comer sardinha, depois de me ter habituado a camarão. Tal e qual o seguinte:

     

    Memorial do Convento – José Saramago. Para quem conheceu o Nobel da literatura pelo seu escrito Ensaio Sobre a Cegueira, que é simplesmente fe-no-me-nal, para quem se fartou de rir com Caim, para quem tenta com A Caverna, depois de duas desistências no Memorial, evoluir com apreço na maturidade literária necessária para se ler o escrito mais reconhecido de Saramago , insisto pela terceira vez em por este livro na mesa de cabeceira para o levar até o fim, só porque o amigo Nuno PortoMaravilha diz que é a maior e melhor obra do escritor, e quiçá da literatura portuguesa. Quero formar a minha própria opinião, e assim continuo nele, aos poucos, a insistir.

     

    Quem Nunca Morreu de Amor – Eduardo Sá. E quem nunca, que atire a primeira pedra.

  • Letras & Números divinais

     

    Tenho para mim que os portugueses lêem cada vez mais, mas sentar no metro e dar de frente com uma rapariga a ler a bíblia não deixa de ter o seu quê de admiração. Pese embora ser este o livro mais popular do mundo, o seu lugar costuma ser mais de estar arrumadinho nas prateleiras ou a enfeitar mesas de cabeceira, não propriamente a passear-se por aí. Duvidei, seria mesmo? E confirmei, que sim. Lia o livro de “Números” o 4° livro do pentateuco e do velho testamento. A rapariga levantou a cabeça por uns momentos e deparou-se com a minha cara de espanto. Sorriu. Sorri.

     

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  • Diário de Bordo (IV) – Olaias, Lisboa, outubro 2017

     

    Se a grandeza de uma cidade se medisse pela sua miséria, então, o Porto seria maior que Lisboa, e Lisboa mais miserável do que o Porto. Certo é que não existem grandes cidades nem capitais sem os seus mendigos, sem seus sem-abrigos ou pedintes. Nem sem os seus loucos que nos abordam no inóspito das esquinas. Aleijados nos passeios, familias completas de refugiados com pai, mãe e filhos. Podemos virar-lhes a cara, encara-los como fraudes ou problemas dos outros. Pedem-te uma moeda, comida, tabaco, o que se queira. No mínimo, merecem um sorriso, um aperto de mão, uma palavra de coragem. Porque o dia de amanhã nunca ninguém o viu , e a vida é uma passagem, para a outra margem.

     

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    Ao centro: família de refugiados sírios. Avenue des Champs Elysees, Paris

  • Diário de Bordo (IV) – Donostia, San Sebastian – Matando o tempo

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    Não lhe conheço o nome, não lho perguntei, não quis saber. Estava matando o tempo, escrevendo num caderno, com uma Canon 30D pousada no arrebate ao seu lado.
    Senhor, perdoe-me por interromper, posso-lhe perguntar o que significa esta mensagem que está um pouco por todo lado nas paredes? Eu não sei interpretar Euskara [o idioma basco]. Não tem problema nenhum, precisava mesmo de uma pausa, e com todo o gosto te explicarei. Então, trata-se de uma mensagem revindicativa da comunidade basca dirigida a Madrid, exigindo que os presos por crimes cometidos enquanto militantes da ETA , e não importa se concordamos ou discordamos do modo de atuação antigo ou atual do partido, para que os mesmos sejam mudados para prisões dentro do território da comunidade basca. Porque desde sempre e neste mesmo momento, a maioria deles estão espalhados por prisões de toda a Espanha, e não recebem visitas dos seus familiares que não têm a facilidade de se deslocar. Então, “devolvam os presos da ETA ao país basco”. Parece-me justo, obrigado. Vai uma foto para recordação?

     

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