A Dictadura da Orthographia !

Muito se fala do acordo ortográfico entre os países de língua Portuguesa. Há quem seja contra e há quem seja a favor.

Mas, sem dúvida, muito se fala sem conhecimento de causa.

A grafia não é mais que um código. Escrever acto ou ato, cágado ou cagado, por exemplo, não altera mesmo nada a compreensão da mensagem. Se uma letra só tem essência no âmbito duma palavra, igualmente, uma palavra só têm essência no âmbito duma frase. E nem sempre o código reproduz a oral. Se assim fosse, os alunos não dariam erros nos ditados. Acho, aliás, curiosíssimo, que aqueles que são contra uma simplificação do código escrito ainda não se tenham manifestado, com petições e manifestações, contra os sms. Não querem escrever em “Brasileiro”, mas escrevem todos os dias em sms. 

 

Reparem nestes dois textos . Ambos são de António Caeiro, heterónimo de Fernando Pessoa. O primeiro é reproduzido tal como, originalmente, foi escrito. O segundo é o que, hoje em dia, as edições Portuguesas apresentam.

 

“Hontem á tarde um homem das cidades

Fallava á porta da estalagem.

Fallava commigo tambem.

Fallava da justiça e da lucta para haver justiça

E dos operarios que soffrem,

E do trabalho costante, e dos que teem fome,

E dos ricos, que só teem costas para isso.”

 

“Ontem à tarde um homem das cidades

Falava à porta da estalagem.

Falava comigo também.

Falava da justiça e da luta para haver justiça

E dos operários que sofrem,

E do trabalho constante, e dos que têm fome,

E dos ricos, que só têm costas para isso.”

 

Onde está a diferença ? 

Talvez mais interessante :

“De aorcdo com uma pqsieusa de uma uinrvesriddae ignlsea, nao ipomtra a odrem plea qaul as lrteas de uma plravaa etaso, a uncia csioa iprotmatne é que a piremria e utmilia lrteas etejasm no lgaur crteo.”

O mesmo texto em Francês ( a minha filha de 11 anos leu sem hesitações ) : 

« Sleon une edtue de l’uvinertise de Cmabrigde, l’odrre des ltteers dans un mto n’a pas d’ipmrontncae, la suele coshe ipmrotnate est que la pmeirere et la dreneire soient à la bnnoe place. « 

 

Isto porque o cérebro humano não lê letra por letra mas a palavra como um todo. 

Interessante né ? Ou : Interessante não é ?

 

E Viva o Porto !

 

 Fontes citadas : “Poèmes de Alberto Caeiro” , ed. “La Différence”, t. 4, p. 50, Paris, 1989 ; « Poemas de Alberto Caeiro », ed Ática, p.54, Lisboa, 1979»