Category: literatura

  • Achados

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    Vou a um negócio de homens, desta vez tens de ficar em casa, disse Cipriano Algor ao cão, que correra para ele quando o viu aproximar-se da furgoneta. É claro que o Achado não necessitava que o mandassem subir, bastava que lhe deixassem aberta a porta do carro o tempo suficiente para perceber que não o expulsariam depois, mas a causa real da sobressaltada corrida, por muito estranho que possa parecer, foi ter ele suposto, em sua ansiedade de cão, que o iam deixar sozinho. Marta, que saíra para o terreiro conversando com o pai e o acompanhava à furgoneta, tinha na mão o sobrescrito com os desenhos e a proposta, e embora o cão Achado não tenha idéias claras sobre o que são e para que servem sobrescritos, propostas e desenhos, conhece da vida, em todo o caso, que as pessoas que se dispõem a entrar em carros costumam levar consigo coisas que, em, geral, mesmo antes de para eles subirem, atiram para o banco de trás. Instruído por estas experiências, percebe-se que a memória do Achado o tenha levado a pensar que Marta iria acompanhar o pai nesta nova saída da furgoneta. Apesar de estar aqui há poucos dias, não tem dúvidas de que a casa dos donos é a sua casa, mas o seu sentido de propriedade, por incipiente, ainda não o autoriza a dizer, olhando em redor, tudo isto é meu. Aliás, um cão, seja qual for o tamanho, a raça e o carácter, jamais se atreveria a pronunciar palavras tão brutalmente possessivas, diria, quando muito, tudo isto é nosso, e ainda assim, revertendo ao caso particular destes oleiros e dos seus bens móveis e imóveis, o cão Achado nem daqui a dez anos será capaz de ver-se a si mesmo como terceiro proprietário. O máximo a que talvez consiga chegar quando for cão velho é ao obscuro e vago sentimento de participar em algo arriscadamente complexo e, por assim dizer, de escorregadias significações, um todo feito de partes em que cada uma é, ao mesmo tempo, a parte que é e o todo de que faz parte. Idéias aventurosas como esta, que o cérebro humano, grosso modo, é mais ou menos capaz de conceber, mas que logo tem uma enorme dificuldade em trocar por miúdos, são o pão nosso de cada dia nas diferentes nações caninas, quer de um ponto vista meramente teórico quer no que se refere às suas consequências práticas. Não se pense, contudo, que o espírito dos cães é como uma nuvem bonançosa que levemente passa, uma alvorada primaveral de suave luz, um tanque de jardim com cisnes brancos vogando, se o fosse não teria o Achado começado, de repente, a ganir lastimeiro, E eu, e eu, dizia ele. Para responder a tal desgarramento de alma aflita, não tinha achado Cipriano Algor, apreensivo como ia pela responsabilidade da missão que o levava ao Centro, melhores palavras que desta vez ficas em casa, o que valeu ao angustiado animal foi ter visto Marta dar dois passos atrás depois de ter entregado o sobrescrito ao pai, assim ficou o Achado ciente de que não o iriam deixar sem companhia, na verdade, mesmo constituindo cada parte, de per si, o todo a que pertence, como cremos que já deixámos demonstrado por a + b, duas partes, desde que estejam unidas, fazem muita diferença no total. Marta acenou ao pai um cansado gesto de adeus e voltou para casa. O cão não a seguiu logo, ficou à espera de que a furgoneta, depois de descer a ladeira para a estrada, desaparecesse por trás da primeira casa da povoação. Quando daí a pouco entrou na cozinha, viu que a dona estava sentada na mesma cadeira em que tinha trabalhado durante estes dias. Passava os dedos pelos olhos uma , e outra vez como se precisasse de aliviá-los de uma sombra ou de uma dor. Decerto por estar no tenro verdor da mocidade, Achado não teve ainda tempo de adquirir opiniões formadas, claras e definitivas sobre a necessidade e o significado das lágrimas no ser humano, no entanto, considerando que esses humores líquidos persistem em manifestar-se no estranho caldo de sentimento, razão e crueldade de que o dito ser humano é feito, pensou que talvez não fosse desacerto grave chegar-se à chorosa dona e pousar-lhe docemente a cabeça nos joelhos. Um cão mais idoso, e por essa razão, supondo que a idade está obrigada a suportar culpas duplicadas, mais cínico do que o cinismo que não pode evitar ter, comentaria com sarcasmo o afectuoso gesto, mas isso deveria ser porque o vazio da velhice o teria feito esquecer-se de que, em assuntos do coração e do sentir, sempre o demasiado foi melhor que o diminuído. Comovida, Marta passou-lhe devagar a mão pela cabeça, acariciando-o, e, como ele não se retirava e continuava a olhá-la fixamente, pegou num carvão e começou a riscar no papel os primeiros traços de um esboço. Ao princípio, as lágrimas impediam-na de ver bem, mas, pouco a pouco, ao mesmo tempo que a mão ganhava segurança, os olhos foram aclarando, e a cabeça do cão, como se emergisse do fundo de uma água turva, apareceu-lhe na sua inteira beleza e força, no seu mistério e na sua interrogação. A partir deste dia, Marta vai querer tanto ao cão Achado como sabemos que já lhe quer Cipriano.

    Extraído de: SARAMAGO, José. A Caverna. Companhia das Letras, 2000. p.85-87.

     

  • A Mesa de Cabeceira de Um Virginiano

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    Pensei em limpar-lhe o pó, e observo com particular atenção a minha mesa de cabeceira. Carago, que é mesmo de um virginiano. Picuinhas, perfeccionista, metódico, resumindo, um complicado. Porque saber gerir isto é complicado. Irrita-nos mesmo quando damos connosco inatamente a alinhar os lápis ou canetas na secretaria, ou a ferramenta na bancada, numa sequência que para o virginiano tem de ter lógica, seja por ordem crescente ou decrescente, por cores das mais frias (azuis) para as mais quentes (violetas) ou outra qualquer. Chega a ser desgastante, e querer simplificar, aprender “A Arte Subtil de Dizer Que Se Foda” – o tema do próximo livro que deve de ir para esse monte, segundo promessa de oferta feita por quem bem me conhece – saber simplificar é uma arte que não dominamos. Portanto, os livros, e a mesa de cabeceira que se resumem a eles, não um, mas vários, porque um bom virginiano gosta então e por natureza de complicar o que é simples. Podem passar dias sem ser abertos, ou noites seguidas agarrado a um, ou ainda num vaivém de insatisfação, indeciso entre os vários. Então vamos aos do momento:

     

    Porque Nós – James Le Fanu. Adquirir um livro é um pouco como adotar um animal: não somos nós que os escolhemos a eles, são eles que nos escolhem a nós. Depois de mais uma longa tarde de espera no Hospital de Santo André, onde aguardavamos notícia de ordem de internamento ou alta para a minha sogra que se encontrava em estado avançado e violento de expansão de um linfoma, e o que mais se temia era que o mesmo atingisse o cérebro, o que se veio mais tarde a confirmar e à colocar em estado terminal, peguei no meu sogro e mulher para irmos lanchar ao Shoping, e no meu caso, comprar um livro para ajudar a passar os longos tempos de espera. Saiu-me esse na prateleira, precisamente um sobre dois dos mais importantes estudos científicos dos últimos 20 anos sobre o cérebro humano e que, citando-o “nos explica o porquê do nosso lugar no universo”.

     

    A Causa das Coisas – Miguel Esteves Cardoso. Este conheci-o pela mão, ou melhor, pela voz, de Ana Narciso, aquando da transmissão do Programa “Três Marias”, na Rádio Dom Fuas, um programa que comecei por desafiar a própria a me ajudar a construir, e que se queria com três mulheres à conversa numa abordagem dos temas que quisessem, do ponto de vista feminino. Fez sucesso, o programa, e um dia a Ana apresentou ali aquele livro como sugestão de leitura de férias de verão. Fiquei absorto no tema e em boas gargalhadas que o Miguel nos proporciona neste livro, no seu divertido sarcasmo habitual, como só ele sabe fazer, sendo o exemplar uma compilação das crónicas que o mesmo escrevia num semanário português por volta dos anos 80 sobre o quotidiano saloio portuga.

     

    O Primo Basílio – Eça de Queirós. Só porque sim. Porque se cruzou comigo um dia, e pensei que este tinha do ter/ler. Porque se um livro fosse uma canção, então este seria um daqueles que faria parte do cancioneiro português. Mas não está fácil. Depois de ler Os Maias, este agora sabe a tipo comer sardinha, depois de me ter habituado a camarão. Tal e qual o seguinte:

     

    Memorial do Convento – José Saramago. Para quem conheceu o Nobel da literatura pelo seu escrito Ensaio Sobre a Cegueira, que é simplesmente fe-no-me-nal, para quem se fartou de rir com Caim, para quem tenta com A Caverna, depois de duas desistências no Memorial, evoluir com apreço na maturidade literária necessária para se ler o escrito mais reconhecido de Saramago , insisto pela terceira vez em por este livro na mesa de cabeceira para o levar até o fim, só porque o amigo Nuno PortoMaravilha diz que é a maior e melhor obra do escritor, e quiçá da literatura portuguesa. Quero formar a minha própria opinião, e assim continuo nele, aos poucos, a insistir.

     

    Quem Nunca Morreu de Amor – Eduardo Sá. E quem nunca, que atire a primeira pedra.

  • Letras & Números divinais

     

    Tenho para mim que os portugueses lêem cada vez mais, mas sentar no metro e dar de frente com uma rapariga a ler a bíblia não deixa de ter o seu quê de admiração. Pese embora ser este o livro mais popular do mundo, o seu lugar costuma ser mais de estar arrumadinho nas prateleiras ou a enfeitar mesas de cabeceira, não propriamente a passear-se por aí. Duvidei, seria mesmo? E confirmei, que sim. Lia o livro de “Números” o 4° livro do pentateuco e do velho testamento. A rapariga levantou a cabeça por uns momentos e deparou-se com a minha cara de espanto. Sorriu. Sorri.

     

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  • Walking Dead e a Imagem Carnavalesca do Mundo

     

     

    Traduzida e publicada em 18 línguas, a Banda Desenhada Walkind Dead é um sucesso editorial mundial que parece incomodar. Como qualificar e explicar este êxito que levou esta Bd a ser, igualmente, o esqueleto e a estrutura duma série TV de renome?

     

    Contrariamente ao que se poderia pensar, a criação de Robert Kirkman, cenarista norte-americano, conhece uma enorme divulgação na Europa, existindo 15 adaptações diferentes, não se contabilizando, por razões óbvias o Reino Unido. Se países como a França, a Alemanha ou a Espanha acompanham o ritmo de publicação norte americano desde a publicação do tomo:1 (2005), já países como a Hungria ou Portugal só em 2011 e 2010, respectivamente, iniciaram a publicação traduzida do primeiro tomo.

     

    Na Ásia, três países publicam e traduzem a série: Coreia do Sul, Japão e Taiwan. A afirmação de Walking Dead num universo dominado pelo grafismo da Bd Manga é uma proeza que deve ser evidenciada. Foi a Coreia do Sul, logo seguida pelo Japão, quem inaugurou a edição da série, havendo já 9 tomos publicados desde 2011.

     

    Na América do Sul, o Brasil foi o primeiro a editar, em 2006, a Bd de Robert Kirkman. Ou seja, acompanhando o nascimento da Bd e com 5 anos de avanço em relação à Argentina, Chile, México e Peru. 

     

    Nascida nos Usa, contaminando as terras anglófonas, Austrália, Irlanda, Reino Unido… e, em seguida, grande parte do planeta, Walking Dead passou, também, a ser uma Bd adaptada à televisão nos países onde existe, exceptuando na Hungria. 

     

    Vários textos que se debruçam sobre a Bd apresentam análises e observações que reenviam para o apocalipse. Penso que Walking Dead é muito mais do que uma mera metáfora do simbolismo mítico do Apocalipse e do Juízo Final. É a tentativa dum questionamento sobre o relacionamento e os comportamentos humanos alienados por um mundo dominado por uma sociedade onde tudo é mercadoria e troca, inclusive o próprio ser humano.

     

    O retorno dos mortos à convivência com os vivos constitui a acção central que conduz a intriga. Em Walking Dead, os autores introduzem-nos num mundo diferente. O relato não nos fornece nenhuma indicação lógica e coerente, quanto à explicação dos acontecimentos. O agente de polícia Rick Grimes, após um tiroteio contra bandidos, acorda num mundo povoado, essencialmente, por mortos vivos. Nenhuma informação nos é dada perante esta ambiguidade. A medida que a narração evolui, aceitando-se o pacto de leitura, acabamos por decifrar de maneira racional elementos sobrenaturais.

     

    Para tornar aceitável o fio condutor do relato, os autores vão introduzir  progressivamente eventos que focam a condição humana. E, imediatamente, ressalva que, no âmbito dum meio ambiente hóstil, a espécie humana só existe colectivamente. O recurso ao fantástico desentroniza o mito da viabilidade do indivíduo só no mundo. Robinson Crusoé, sobrevivendo isolado na sua ilha longínqua, é um ser muito mais irreal que Rick Grimes e os seus companheiros. E, paralelamente, só uma compreensão recíproca permite ao grupo de Rick sobreviver perante os perigos exteriores. E não é um paradoxo se os perigos mais reais decorrem dos grupos humanos cujos relacionamentos assentam em relações de opressão violenta entre os indivíduos. O exemplo da sociedade dirigida pelo “Governador” é ilustrativo disso. Os mortos vivos, abstraindo-se a dinâmica do número ou da quantidade, acabam por ser inofensivos.

     

    Em Walking Dead, uma pintura realista, a da condição humana, alia-se com o fantástico, o regresso dos mortos vivos. A descrição das leis que autorizam a opressão na sociedade já não pode ser feita segundo as normas convencionais. A terceira vinheta do primeiro tomo e, logo, da série é elucidativa. O fugitivo prefere morrer a voltar para a prisão. Todavia, como o questionamento sobre a existência humana não pode prescindir duma abordagem realista da vida, explica-se, assim, essa aliança entre o real e o imaginário. Em simultâneo, o fantástico permite aos autores combater uma censura mais subtil: a do inconsciente. É, sem dúvida, mais fácil evocar tabus e preconceitos num contexto estranho: certos temas ou ideias serão melhor aceites se são assimilados ao fantástico. 

     

    A existência dos mortos vivos provoca uma ruptura num sistema social que parecia condenado a se prolongar indefinidamente. Graças ao aparecimento dos mortos vivos, é possível “falar” da vida. O grupo de Rick é uma amostra de civilização humana. Não existe lugar para a fatalidade, certezas ou dogmas que são sinónimo de queda. Tudo é movimento e é nesse movimento que os companheiros de Rick encontram a sua salvação. A construção de mundos diferentes opõe-se ao mundo dos zombis cuja vida se assemelha à de um animal, de um predador, de um parasita que se enrosca e come o que poderia ser um semelhante seu. 

     

    Os aspectos ligados ao regresso dos mortos mergulham e perdem-se na cultura popular europeia. Eles desentronizavam o sério e os dogmas que a burguesia, aquando da Renascença, foi elaborando para assinalar o seu poder e a sua ideologia. Talvez o êxito de Walking Dead possa ser explicado, em parte, por essas reminiscências. O tema do regresso dos mortos vivos, tratado debaixo duma forma carnavalesca ou não, é um dado das sociedades medievais europeias que, com as navegações marítimas, chegou às Américas. Note-se, por exemplo, que um dos maiores romances de língua Portuguesa que assenta no regresso de mortos vivos foi escrito por um Gaúcho: Incidente em Antares, Érico Veríssimo.

     

    Walking Dead é uma obra que se articula em redor da condição humana. O recurso ao exagero, ao imaginário, ao sobrenatural, ao fantástico desagua na desentronização dos valores sérios ou oficiais da sociedade. A Bd inscreve-se na tradição carnavalesca e popular que nega o dogma, a fatalidade e o imobilismo. 

     

    Fontes: Walking Dead – Le Magazine Officiel n°3 / Introdução à literatura fantástica – T. Todorov / L’Oeuvre de F. Rabelais – M. Bakhtine  

    Nuno

  • Porto; Ponte, Vida – 1

     

     

    Em seis de Agosto de 1968, Miguel Torga, visitou Vilarinho das Furnas, no Gerês, véspera do dia em que esta Aldeia foi inundada. Como outras comunidades comunitárias foi escolhida consciente e politicamente pelos Serviços Florestais dependentes do governo fascista. Os sectores geográficos correspondentes à construção das barragens foram determinados, essencialmente, por razões ideológicas. Era necessário desenhar uma unidade que nunca existiu. Aceitar que “para lá do Marão mandam os que lá estão” não era compatível com o conceito de centralismo.

     

    A diversidade de inúmeras “minha terra = meu país” não é incoerente com uma vivência de 8 séculos no âmbito da mesma fronteira administrativa e nacional. Miguel Torga como Fernão Magalhães é Transmontano. Se Miguel Torga, prémio Internacional de Poesia em 1972, é um ilustre desconhecido em Portugal, Fernão Magalhães, o maior navegador Português, não figura no monumento realizado em honra dos descobrimentos.

     

    Não se trata, nesta nova rubrica, de construir novas teorias ou ideias. Sim de disponibilizar documentos sobre a cidade do Porto e a sua história que o centralismo lisboeta procura apagar ou normalizar na memória colectiva dos Portugueses.

     

    Na foto, tirada em 1963/4, aparece a seleção de andebol da cidade do Porto. Esta seleção reunia jogadores de vários clubes da cidade Invicta e participava em torneios na Galiza. O quadro da foto é o campo de andebol do antigo complexo desportivo do FC Porto, situado na Rua da Constituição. Este complexo, guardando-se a fachada, foi totalmente renovado. 

     

    Fontes: Miguel Torga, En franchise intérieure, ed. Aubier Montaigne, Paris 1982, p.347 | O Título é tirado do nome duma novela, em honra do Porto, do escritor Brasileiro Moacyr Scliar | A foto é minha

    Nuno

  • A Transmissão Simbólica nº 26 ………………………… La Transmission Symbolique nº 26 …………………….


    “On dit beaucoup de conneries sur l’art de réaliser des films. Il faut arrêter avec cette entreprise de mystification. Réalisateur, ce n’est pas faire de l’art comme la peinture ou l’écriture. C’est plus proche de l’entraîneur de football.” S. Mendes

     

    Source: So Film N°5, Nov 2012, p.76

     

    (tag: La transmission symbolique n°26-feuillets)

    Nuno


     

    Dizem-se muitas caralhices sobre a arte de realizar filmes. É preciso parar com essa empresa de mistificação. Ser realizador não é criar arte como a pintura ou a escrita. É mais próximo do treinador de futebol.” S. Mendes

     

    Fonte: So Film N°5, Nov 2012, p.76

    Nuno

  • Bestiário Ilustríssimo: Os Quatro Elementos

     

     

    Bestiário Ilustríssimo é uma recolha de cinquenta textos em roda da Arte e, mais especialmente, da música. Li o livro de Rui Eduardo Paes na Auvergne, no centro da França. Esta região é também uma região de “antigos” vulcões. Marco Santos, no prefácio à recolha, escreve que o livro foi escrito em Marte. Mas, se o homem já visita Marte, nunca visitou o fundo da Terra nem dos vulcões. E são quatro os Dragões que guardam o segredo da vida que só a Arte sabe expressar.


    “O Dragão: Engolir-vos-ei humanos e sem qualquer distinção. Todos. Todavia, talvez salve alguns: Outros não”.


    Este velho poema Inglês integra a introdução ao texto de Sérgio Luís de Carvalho: Anno Domini 1348. Relato que conta a vida dum tabelião que se fecha em casa para se proteger da peste que assola a Europa e Portugal. À luz duma vela, ele vai ler as pranchas dum bestiário ilustrado que lhe tinham oferecido em criança. Cécile Lombard, a tradutora, escolheu um título diferente para a edição Francesa: Le Bestiaire Inachevé.


    Por associação, devido aos títulos, de ideias ou por deformação profissional… vi uma continuidade entre os dois livros.

     

    Rui Eduardo Paes é musicólogo. Também é autor de vários ensaios sobre Jazz e arte(s) contemporânea(s)… O prazer dos seus textos, descobertos no blog “Bitaites” de Marco Santos, levou-me, naturalmente, à leitura da recolha: Bestiário Ilustríssimo.


    1. Dragão de Terra


    No seu primeiro ensaio, o autor cita em preambulo Álvaro de Campos (F.Pessoa):”Sentir de todas as maneiras…“. A obra de Rui Eduardo Paes é uma obra com entradas multiplas. O pacto de leitura que nos é proposto parece ser a vontade de desmascarar o discurso oficial sobre a arte. Num país que acaba de suprimir o “Ministério da Cultura”, a luta a contra a estupidez e a ditadura cultural não pode assentar num fechar sobre si próprio. O mérito do autor é ter posto o seu saber e as suas ideias ao serviço da compreensão do mundo que nos rodeia. Isto é, autorizando um olhar universal sobre a Arte. E só esta universalidade nos permite interpretar o título: A Arte combate a vulgaridade e a destrói a bestialidade que existe em nós (Deleuze).

     

    2. Dragão de Água


    Gosto da referência ao Homunculus (pp.64-67). A lembrança de José Gil e de Herberto Hélder remetem para o estilhaçar do indivíduo no mundo actual, conceito que Fernando Pessoa cria com a constelação dos heterónimos. Nesta perspectiva, 
    Rui E. Paes expressa e elucida, claramente, apoiando-se em José Gil, a noção de que a tentiva para entender outrem e a filosofia também podem e devem ser arte(s). E, isto, antes de serem dissertação. Deste ponto de vista, F. Pessoa seria não um poeta, mas um filósofo. Em paralelo, não pude deixar de estabelecer uma associação com a “BD-Manga” culto de Hidéo Yamamoto: Homunculus. Não deixa de ser curioso que fosse num país onde o modo de vida capitalista atinge um enorme expoente que surgisse artisticamente a narrativa duma experiência sobre o cérebro (dum “sem domicílio fixo”) e o porvir do sentir. O que nos remete para um olhar critico sobre o início do século XXI: O homem estilhaçado, o sentir e o conceito, a besta e o homem,…


    3. Dragão de Fogo

    No seu texto n°11, Retro-Inovadores, Rui Eduardo Paes apresenta a criação dum centro cultural polivalente na vila do Fundão. Construído a partir duma antiga fábrica de moagem, esta realização mostra que a arte é plural e interdisciplinar. Não sei se é um acaso ou não, a escolha de Rui Eduardo Paes. A vila do Fundão sempre foi um centro de resistência ao fascismo, ao colonialismo e aos seus crimes de guerra. O Jornal do Fundão compensou durante anos a não existência duma imprensa de dimensão nacional e livre. Foi uma publicação de resistência à estupidez e ao ordinário. Um pequeno semanário que se deu ao luxo de publicar textos de grandes vultos das artes de expressão Portuguesa. Um luxo as crónicas do poeta Brasileiro Carlos Drumond de Andrade…  Assim, não é surpreendente, escreve Rui Eduardo Paes que “muitos criadores procurem no passado as suas referências”(p.68).

     

    4. Dragão de Ar


    O último texto n°50, Gigantes aos Ombros de Gigantes, levanta a problemática da partilha da criação musical na internet. Rui Eduardo Paes critica, com razão penso, a uniformização dos gestos e tendências que os majors da indústria musical querem impor ou fabricar. Respondendo, o nosso autor cita as ideias da militante libertária Esther Ferrer que associa o anarquismo à criatividade. Desconhecido muitas vezes, também existe um movimento anarquista em Portugal. O livro de João Freire (desertor e militante antifascista) apresenta a história desse mesmo movimento. Este foi criado em 1887 em Lisboa. O “Grupo Comunista Anarquista” obedece às orientações anarquistas da sua época. Por exemplo, rejeita o sentimento patriótico ou nacional, o egoísmo das raças, das religiões e das línguas… 

     

    Bestiário Ilustríssimo é uma bela recolha de textos. Estes podem ser lidos, independentemente, uns dos outros ou não. Uma obra Barroca que não se deixa fechar numa classificação determinante e determinada. Como os monstros que ornamentam as catedrais e colegiadas, os textos de Rui Eduardo Paes são um convite para pensar e sonhar.Uma a obra a ler e cujas muitas passagens são poesia. Linhas e parágrafos para serem lidos em voz alta, tal como a musicalidade da poesia. Mas não é para o nosso autor a música a mãe de todas as artes. 

    Nuno

  • OBRIGADO, J.M.G. LE CLÉZIO!


    J.M.G. Le Clézio obteve o prémio Nobel de literatura em 2008. O seu último romance é “Histoires du pied et autres fantaisies”.


    Homem duma grande descrição, J.M.G. Le Clézio, levantou a voz para protestar contra a grande publicidade que tem sido feita em torno do texto de Richard Millet: “Eloge littéraire d’Anders Breivik“. O prémio Nobel denuncia o panfleto de R. Millet, lembrando que o jovem Breivik, cego pelo ódio, matou a tiro, de sangue frio, setenta e sete pessoas.

     

    Le Clézio publicou a sua reacção no Le Nouvel Observateur (06-09-2012, p.9). Reproduzimos a passagem que nos parece sintetizar com clareza o que é um contributo para a compreensão da nossa Aldeia Global:

     

    A questão do multiculturalismo, que parece obcecar tanto alguns de nossos políticos e alguns dos nossos ‘chamados’ filósofos, é uma questão já antiga. Vivemos em um mundo de encontros,misturas e ‘confrontações’. As misturas e os fluxos migratórios sempre existiram, eles são os mesmos desde a origem da raça humana (única raça). O multicultural, como é chamado agora, não é mais suficiente. Ele faz guetos, culturas isoladas, e favorece o endurecimento e seus radicalismos.

    A literatura é um dos meios dessa troca, a literatura é um caldeirão onde se fundem as correntes vindas dos quatro cantos da história. Mas sonhar com uma identidade nacional fixa é uma ‘ilusão’. No encontro de culturas e civilizações, cada contribuição tem a sua importância, e não podemos pedir a ninguém para renunciar a parte de seu legado.

    Nuno
  • O Cosmos em Guimarães Rosa ……………………….. …………………….. Le Cosmos chez Guimarães Rosa

     

    Le texte de Guimarães Rosa, Grande Sertão: Veredas, est l’une des oeuvres majeures de la littérature d’expression portugaise. Il est traduit en français chez “Albin Michel”. Le livre comporte une préface de Vargas Llosa. Et la traduction est de Maryvonne Lapouge-Pettorelli. 

    Nuno

     

     

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    O texto de Guimarães Rosa Grande Sertão: Veredas é o maior romance da literatura de expressão portuguesa. Este texto está para a literatura de expressão portuguesa como Finnegans Wake de J. Joyce está para a literatura de expressão inglesa.

     

    É um livro que assenta numa linguagem criada por G. Rosa para definir o seu Cosmos (tal como o fizera Joyce). Um Cosmos que é uma combinação e oposição simultânea entre: O “material” e o “espiritual”, o bem e o mal… O “material” é a linguagem, a luta pela expressão; O “espiritual” é a memória, a luta entre valores (bem / mal), o porvir. Para que as personagens possam ser fluidas, combinando oposições, o autor dá nascença a uma nova língua.

     

    As primeiras páginas não são fáceis de entender. Mas com o decorrer da leitura o universo “Roseano” abre-se. Existe um dicionário pensado por Nei Leandro de Castro que pode ajudar: Universo e Vocabulário do Grande Sertão (Livraria J. Olympio Editora, Rio). Mas continuo a pensar que depressa se entende que “canoar” é navegar em canoa ou que “ventear” é produzir vento…

     

    O Sertão é o Cosmos que pinta a união e a oposição entre o aquém e o além, o bem e o mal…Na descrição da evolução da batalha entre as bandas rivais de jagunços todas as formas e temas maiores são salientados: O romance de cavalaria, o romance épico, o pacto com o diabo, o naturalismo, a crença, o esoterismo, o existencialismo…

     

    O nome dos personagens é também muito importante. Tomemos, por exemplo, Riobaldo e Diadorim. Riobaldo é o jagunço letrado que vai para a guerra. Ele tem que vencer e faz um pacto com o diabo. Está também apaixonado por Diadorim. O seu código proíbe amar homens. A sua existência fica dividida por esta oposição. Na batalha final, Diadorim morre e Riobaldo descobre que a sua paixão é uma mulher disfarçada em homem. Um tema muito clássico da literatura medieval: Diadorim disfarça-se de mulher para poder acompanhar o seu pai na guerra. Como é também um tema muito clássico o pacto com o diabo. Está presente quer em Goethe (Fausto) quer em Pessoa.

     

    De novo se expressa a noção de movimento: O bem, o mal, o convencional, o “inconvencional”… num perde-ganha-perde-ganha… O subtítulo da obra é “o diabo na rua, no meio do redemoinho…” dá a sensação de agitação, mudança, novidade…

     

    Já é menos clássico que o pacto com o diabo apareça, linha menos linha, no centro da narração, criando uma simetria. Já é menos clássico a polissemia do nome Diadorim: Dia-dor-im. A primeira sílaba reenvia para a palavra “dia” e também para a primeira sílaba das palavras “diabo” e “diálogo”… O dia da dor? O diabo da dor? O diálogo da dor?… Podem haver várias interpretações. O sufixo “im” é um sufixo que acentua a insistência como, por exemplo, na palavra “mandarim”: Mandar+im. O nome da personagem Rio+balde evoca, sobretudo, a palavra rio que lembra a água, a vida, a viagem, a foz, novos mundos. 

     

    O texto elaborado por Guimarães Rosa termina com o símbolo do infinito. A palavra “fim” não pode existir no Cosmos, no diálogo entre o aquém e o além, entre o bem e o mal. Deste permanente diálogo nasce da boca de Riobaldo a frase que atravessa repetitivamente toda a narração: “Viver é muito perigoso”. O Cosmos é Deus e o diabo é o seu subconjunto, não podendo um existir sem o outro. E Riobaldo explica que quem decide somos nós e que somos nós os únicos responsáveis por nossas decisões. Eis as últimas palavras do texto que antecedem o símbolo do infinito:

     

    “Amigos somos. Nonada. O diabo não há! É o que eu digo, se for… Existe é homem humano. Travessia.”

     

    O texto de G. Rosa conheceu outras edições. E é estranho que algumas tenham esquecido o símbolo do infinito como também transformado a capa com todos os pormenores e signos desejados pelo autor.

     

    Porquê? Sim, porquê? 

    Nuno 

    obs: Para Gisleuda, o prometido é devido.

  • TABUCCHI: I tre ultimi giorni di Fernando Pessoa. ……………………………………………………Un delirio

     

     

     

    António Tabucchi foi um europeu convencido. Era Francês, Italiano, Português…?

    Era universal como o era o seu combate contra todas as ditaduras. 

    Quando jovem, compra em Paris um livro de Pessoa e fica apaixonado, inaugurando uma cumplicidade literária extraordinária.

    O seu texto Soustiene Pereira é também feito filme.

    É Mastroianni quem desempenha o papel de Pereira.

    Um jornalista que toma consciência da natureza do Salazarismo e torna-se opositor do fascismo.

    A tradução Francesa de I tre ultimi giorni di Fernando Pessoa.Un delirio é de Jean-Paul Manganaro.

    Editada em 1994 pela Seuil, a publicação apresenta desenhos de Júlio Pomar que ilustram Pessoa.

    A literatura de Tabucchi é um hino à fantasia e à liberdade.

    Nuno