Perigo de pedra no sapato

Perigo de pedra no sapato


Foto: “Porto: Fotografias e texto de Werner Radasewsky e Gunter Scheneider”, ed. Nicolai
Em Portugal o futebol é o desporto rei e é omnipresente. Para uma população de 10 milhões de habitantes existem três diários desportivos que, essencialmente, só tratam de futebol. Se acrescentarmos que as publicações diárias e semanais dedicam várias páginas ao futebol e sem esquecer as edições em linha, podemos pensar que o gosto dos Portugueses pelo futebol é um fenómeno invulgar. E é tanto mais questionante que Portugal, em futebol, a nível nacional, nunca ganhou nada.
Portugal tem, no entanto, hoje em dia, pela primeira vez na sua historia, um futebolista que já é lendário. Pelé, Eusébio, Platini… foram excelentes jogadores, mas não são, propriamente dito, lendários. Best ou Cantona, por exemplo, sim.
Cristiano Ronaldo desespera os Portugueses. Estes últimos que tanto gostam de lendas, quando tem uma viva e ao seu alcance fogem dela. Cristiano Ronaldo é um “contentamento descontente”, para os Portugueses.
Num país em que a imagem do Homem está ainda ligada, essencialmente, à ruralidade (não é uma ofensa), Cristiano Ronaldo incomoda. Este não é só um jogador fora de série, é também um “metro sexual”. E talvez seja a sua urbanidade, a sua “metro sexualidade” que não lhe é perdoada.
O conceito, o termo “metro sexual” é criado por Mark Simpson. Este jornalista Inglês debruça-se, a partir dos anos 2000, sobre a evolução da “masculinidade”. O homem “metro sexual” deseja ser desejado e, isto, é uma forma de libertação. Beckham, por exemplo, incarna este movimento. São os homens que vão expor o seu corpo: Tatuagens, piercings, depilação, gel… passam a serem símbolos da identidade pessoal. O narcisismo já não é o apanágio das mulheres.

Os homens já não tem vergonha de dizer que gostam de ver a imagem de outros homens. O corpo tornou-se um dos últimos acessórios da sedução masculina. O corpo do Homem tornou-se um objecto por vontade própria do Homem. Tudo no corpo é desenhado, estilizado, modelado até ao penteado, até ao ultimo detalhe. Isto, para poder agradar e competir com os outros homens. Mas também para poder conquistar e partilhar o poder das mulheres. Numa sociedade em que a imagem alcançou um estatuto maior, o desejo de ser desejado passa pela obrigação de ser visto no mundo da imagem tecnológica (televisão, webcam, etc..). E São as mulheres que compõem a maioria dos telespectadores.
Cada vez mais, as mulheres afirmam gostarem de ver cenas de amor entre os homens. Como cada vez mais abrem “boîtes” com striptease masculino. Penso que é neste contexto que se insere a imagem de Cristiano Ronaldo. Ela pertence à adolescência da primeira geração “metro sexual”. A imagem do futebolista levanta sentimentos de frustração e de medo na sociedade Portuguesa? O que é certo é que tal imagem baralha os dados. Como se fosse necessário seduzir os homens, para seduzir as mulheres.
Há quarenta anos, David Bowie pré-figurava esta evolução. Beckham deu-lhe uma forma simples e Ronaldo uma forma complexa ou artística.
Sobre a ilustração de C.R.: ver aqui
Nuno
É pra rir ou pra chorar

[as pérolas de capas desportivas que antecedem o jogo dos quartos de final Euro 2012]
Isso, deem-lhes motivação! E papel para forrar as paredes…
O Tuga é mesmo vacão! Passa do oito ao oitenta, de besta a bestial, da humildade à arrogancia, como que do “pé pra mão”.
Boa sorte Portugal.
Então e os putos, pá 
Agora os Portugueses têm de se preocupar é com o futuro das vossas carreiras…
Com o devido respeito, eu adoro e tenho vocação para a electrónica e audiovisuais mas também já tive de pintar móveis…
Acham mesmo que os portugueses alguma vez tiveram paciência para os vossos duelos? E que estão preocupados com o futuro da classe profissional melhor representada e defendida em Portugal? Então e os putos, aindam servem de arma de arremesso? E que o corte em EVT significa mais uma machadada na cultura e artes portuguesas, não? Foda-se!

Carlos Lisboa teve sempre um lugar cativo nos meus gostos, e foi sempre transportado no meu leque de “exemplos de atitude de vida” pessoais. O basketball foi o único desporto que levei mais a serio enquanto praticante, e de atividade escolar.
A lista apresentada na imagem inicial, foi a única que, entre as outras várias de preenchimento para o perfil, quando a compus, tive o cuidado da manter por ordem cronológica, conforme fui estabelecendo contacto emocional com os atletas que considero influentes e exemplos relevantes a destacar.
Le texte de Guimarães Rosa, Grande Sertão: Veredas, est l’une des oeuvres majeures de la littérature d’expression portugaise. Il est traduit en français chez “Albin Michel”. Le livre comporte une préface de Vargas Llosa. Et la traduction est de Maryvonne Lapouge-Pettorelli.
Nuno
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O texto de Guimarães Rosa Grande Sertão: Veredas é o maior romance da literatura de expressão portuguesa. Este texto está para a literatura de expressão portuguesa como Finnegans Wake de J. Joyce está para a literatura de expressão inglesa.
É um livro que assenta numa linguagem criada por G. Rosa para definir o seu Cosmos (tal como o fizera Joyce). Um Cosmos que é uma combinação e oposição simultânea entre: O “material” e o “espiritual”, o bem e o mal… O “material” é a linguagem, a luta pela expressão; O “espiritual” é a memória, a luta entre valores (bem / mal), o porvir. Para que as personagens possam ser fluidas, combinando oposições, o autor dá nascença a uma nova língua.
As primeiras páginas não são fáceis de entender. Mas com o decorrer da leitura o universo “Roseano” abre-se. Existe um dicionário pensado por Nei Leandro de Castro que pode ajudar: Universo e Vocabulário do Grande Sertão (Livraria J. Olympio Editora, Rio). Mas continuo a pensar que depressa se entende que “canoar” é navegar em canoa ou que “ventear” é produzir vento…
O Sertão é o Cosmos que pinta a união e a oposição entre o aquém e o além, o bem e o mal…Na descrição da evolução da batalha entre as bandas rivais de jagunços todas as formas e temas maiores são salientados: O romance de cavalaria, o romance épico, o pacto com o diabo, o naturalismo, a crença, o esoterismo, o existencialismo…
O nome dos personagens é também muito importante. Tomemos, por exemplo, Riobaldo e Diadorim. Riobaldo é o jagunço letrado que vai para a guerra. Ele tem que vencer e faz um pacto com o diabo. Está também apaixonado por Diadorim. O seu código proíbe amar homens. A sua existência fica dividida por esta oposição. Na batalha final, Diadorim morre e Riobaldo descobre que a sua paixão é uma mulher disfarçada em homem. Um tema muito clássico da literatura medieval: Diadorim disfarça-se de mulher para poder acompanhar o seu pai na guerra. Como é também um tema muito clássico o pacto com o diabo. Está presente quer em Goethe (Fausto) quer em Pessoa.
De novo se expressa a noção de movimento: O bem, o mal, o convencional, o “inconvencional”… num perde-ganha-perde-ganha… O subtítulo da obra é “o diabo na rua, no meio do redemoinho…” dá a sensação de agitação, mudança, novidade…
Já é menos clássico que o pacto com o diabo apareça, linha menos linha, no centro da narração, criando uma simetria. Já é menos clássico a polissemia do nome Diadorim: Dia-dor-im. A primeira sílaba reenvia para a palavra “dia” e também para a primeira sílaba das palavras “diabo” e “diálogo”… O dia da dor? O diabo da dor? O diálogo da dor?… Podem haver várias interpretações. O sufixo “im” é um sufixo que acentua a insistência como, por exemplo, na palavra “mandarim”: Mandar+im. O nome da personagem Rio+balde evoca, sobretudo, a palavra rio que lembra a água, a vida, a viagem, a foz, novos mundos.
O texto elaborado por Guimarães Rosa termina com o símbolo do infinito. A palavra “fim” não pode existir no Cosmos, no diálogo entre o aquém e o além, entre o bem e o mal. Deste permanente diálogo nasce da boca de Riobaldo a frase que atravessa repetitivamente toda a narração: “Viver é muito perigoso”. O Cosmos é Deus e o diabo é o seu subconjunto, não podendo um existir sem o outro. E Riobaldo explica que quem decide somos nós e que somos nós os únicos responsáveis por nossas decisões. Eis as últimas palavras do texto que antecedem o símbolo do infinito:
“Amigos somos. Nonada. O diabo não há! É o que eu digo, se for… Existe é homem humano. Travessia.”
O texto de G. Rosa conheceu outras edições. E é estranho que algumas tenham esquecido o símbolo do infinito como também transformado a capa com todos os pormenores e signos desejados pelo autor.
Porquê? Sim, porquê?
Nuno
obs: Para Gisleuda, o prometido é devido.
Ce vinyl a été édité par Radio France en 1980.
C’est un travail de recherche fabuleux.
Il est l’oeuvre de la Section d’Ethnomusicologie du Musée Instrumental de Bruxelles.
Curieusement il n’y a pas d’explications en portugais…
Nuno
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Devido ao fascismo, a região Portuguesa de Trás-os-Montes viveu em autarcia e num isolamento total até à queda da ditadura.
Esse isolamento autorizou conservar tradições rurais, sociais, económicas… antiquíssimas.
Por exemplo, fica-se a saber que a gaita de foles transmontana guardou uma forma mais arcaíca que a galega.
O vinil que apresentamos é uma fonte de informações riquíssimas.
É uma fabulosa pesquisa editada pela Radio France em 1980.
Ela é, essencialmente, o fruto do trabalho da Section d’Ethnomusicologie du Musée Instrumental de Bruxelles.
Como podem ler, não existam explicações em Português.
O que é curioso, já que a Secretaria de Estado à Cultura (Portugal) deu a sua contribuição.
Muito curioso mesmo…
Nuno

Para quem gosta de futebol, e prima por alguma honestidade, seja lá a que nível for, não podia deixar de sentir uma certa injustiça no desenrolar do jogo em que o SL Benfica já merecia estar a ganhar a eliminatória há muito tempo, ainda para mais perante os milagres que Jesus teve de inventar inevitávelmente na defesa lusa para Standford Bridge, ou se quiserem, também pelo demérito flagrante demonstrado pelo Chelsea.
Mesmo um portista, como eu, ainda recalcado por sentimentos não muito distantes relacionados com os fortes ataques à imagem e honorabilidade do melhor clube do mundo Sec.XXI , o FCP, engendrados e sustentados basicamente pelo SLB assim mesmo, numa atitude pequenina e sempre em bico-de-pés, até mesmo este portista acabou por festejar o golo de Javi Garcia, e pronto, a partir daquele momento, passa também a torcer para que realmente aqueles lampiões passassem às meias-finais da Champions. Pois que o mereciam mais que o Chelsea, justiça fosse feita.
E okay, também são Portugueses, mesmo que não ponham nenhum jogador luso a jogar em campo… O que nos leva ao outro lado da questão: o momento da estocada final na eliminatória ser concretizado pelo jogador, de entre todos, o mais vaiado, Raul Meireles!
Um golpe a sangue frio, matador, assassino de qualquer expetativa, e que faz uma justiça ainda maior do que aquela que até ali estava a ser posta em causa, mesmo pelas bancadas benfiquistas que aclamavam pelo ex-aliado Michel Platini.
“Justiça divina”, diria o provinciano Presidente…
“Tomem lá que é para aprenderem”, disse eu, “a não assobiarem os únicos Portugueses que alinham no onze de uma equipa de futebol, e que por acaso estavam todos na equipa estrangeira, não na portuguesa, só porque um dia foram jogadores do grande rival… FCP”.
A mediocridade tem limites, e já agora, para que conste de memória futura 🙂 o que por estes dias foi bastante badalado na imprensa: “O Benfica foi a única das quatro equipas em Jogo na Champion League que ontem (27/03/2012) entraram em campo que não apresentou qualquer português no onze inicial. No Chelsea estavam Raul Meireles e Paulo Ferreira (entrou mais tarde, para gaudio dos assobiadores, José Bosingwa); pelo APOEL atuaram Nuno Morais, Hélio Pinto e Paulo Jorge; no Real Madrid pontificaram Cristiano Ronaldo, Fábio Coentrão e Pepe.”
Écrire pour ne pas mourir…
Le témoignage de Hídeo Furukawa, écrivain de science fiction né à Fukushima, nous interroge:
“…j’ai vu s’élancer de branche en branche des singes équipés de dosimètres relâchés à titre expérimental. L’homme qui se dit supérieur aux singes ne peut qu’avoir de la considération et de la reconnaissance pour eux…Qu’était cette catastrophe? Qu’est-ce qui s’est vraiment passé?…Pour moi, le travail du créateur, ce n’est pas de fournir une réponse, c’est de garder la question éternellement vivante.”
Ce post est à la croisée des chemins entre:
Fukushima ou la Dialectique de la nature @nd Sois Singe et Crie!
Source: Télérama, 7 mars 2012, p.26 | Photo: L’arbre qui a subsisté de la forêt de Pripiat. Les autres, trop radioactifs ont été coupés (L’Autre Journal, nº1, Mai 1990, archives perso).
Nuno

Escrever para não morrer…
O testemunho de Hídeo FuruKawa, escritor de ciência ficção nascido em Fukushima, questiona:
“…vi macacos, soltos a título experimental e equipados com dosímetros, saltando de ramo em ramo, partirem rumo às montanhas contaminadas. O homem que se diz superior aos macacos só pode ter reconhecimento e consideração por eles… O que foi esta catástrofe? O que é que se passou realmente?… Para mim, o trabalho de criador não é de dar uma resposta, é de guardar a pergunta viva eternamente.”
Este post é uma encruzilhada entre:
Fukushima ou a Dialéctica de Natureza @nd Sê Macaco e Grita!
Fonte: Télérama, 7 de Mar de 2012, p.26 | Foto: A árvore que subsistiu da floresta que rodeava a estrada de Pripiat. As outras, devido à sua radiotividade, foram cortadas (L’autre Journal, nº1, Maio 1990, arquivo pessoal)
Nuno

Nem estava em crer: tinha acabado de lhe prestar a devida atenção durante a semana perante a apresentação deste álbum na rubrica diária da Rádio Autonoma a qual gosto de acompanhar. E agorar estava ali, a rir-se para mim, e a perguntar-me: Levas-me?
Claro que sim! Foi a troco de uma nota de 10, e lá sai da feira de velharias e antiguidades deste domingo de sorriso esboçado.
Curiosamente, havia sido induzido em erro: Já em casa, num olhar mais atento pela grafia e composição da capa, dou conta que “Águas de Março” é um tema que não faz parte deste LP, ao contrário do que o post do João Santareno me fizera crer, mas que sim: Elis de facto o canta (Águas de Março) no dito Festival de Jazz de Montreux (1979), isto a fazer fé no que youtube sobre estas coisas tem a dizer.
Em contrapartida, temos neste vinil – e não menos popular – a “Garota de Ipanema” do mesmo Tom Jobim com Vinícius de Morais, na interpretação de Elis Regina, que citando o PortoMaravilha: “talvez não seja um acaso se Garota de Ipanema / The girl from Ipanema é canção mais vendida no mundo.” Pois, mas porque será? Pergunto-me eu. Fica o vídeo da interpretação em Montreux – 1979.
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Paulo Jerónimo