Category: e o que prende segura

  • “F” – Prefácio

    Para onde vou, o quê é  que eu faço? Abotou a camisa, apertou o laço. Quantas vezes te riste ou imprimiste o teu cunho? Esticou o casaco, abotoou o punho. Foste livre de consciência nas encruzilhadas da vida? Continuas a ser o mesmo, mesmo quando o reflexo do espelho não brilha? Compôs o cabelo, verificou o fato. Endireitou o vinco,  atou o sapato. Alisou a barba, apagou a luz virando as costas a tudo o que o seduz. Podes contornar meio mundo, mas não os valores  de outrora.

    Porque um dia regressas pela calada da aurora e murmuras no intimo gritando por  fora: aqui estou eu vestido de gala, é a puta da vida, que um dia te cala.

    à Gabriela, meu Porto Seguro, que nunca me abandonou

    aos meus filhos, o Norte da agulha que me guiou

    ao meu Herói

    Jerónimo da Silva, Lusolândia-Earth

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  • A Torre da Grandeza no pior da sua Crueza – In « O Último F» – Autobiografia

    A Torre da Grandeza no pior da sua Crueza – In « O Último F» – Autobiografia

     

     Paris, nove de setembro de dois mil e dezassete, 21h07, João Afonso desce a rua que lhe hão descrito como La Grand Avenue para chegar a Torre Eiffel.

    Senhor, conhece Paris? Não, é a minha primeira vez em Paris. A expressão de frustração de Elie não se rende à segunda questão, E não viu por aí uma igreja onde me possa dirigir? Não. O Senhor é Católico? Não. Cristão? Sou agnóstico, a religião é das piores coisas que o homem podia inventar… Elie dá uma palmada a Afonso no ombro com relativa força. Não soube João se por reprovação ao que ouvira ou se pretendia expulsar algo de mau no nele. Como se chama? João Afonso. Muito prazer, chamo-me Elie, sou de Aleppo na Siria, Antropólogo e professor de filosofia. De onde vens? Portugal. Ah, Fátima! Elie Intaká abriu o segundo botão da camisa, retirou o seu amuleto de madeira, um crucifixo com a mensagem pregada na cruz em árabe. Eu sou devoto de Fátima. E eu vivo a quatorze quilómetros de Fátima. Então como podes dizer que a religião é a pior coisa que o homem já inventou? Porque já sofri a minha quota parte por ela, porque provavelmente o senhor está a sofrer muito por ela, pelas guerras dela. Elie comove-se tremendamente, os seus olhos vivos que até ali queriam transmitir algo ficam baços. Se alguém lhe provasse das lágrimas que não consegue agora conter, imagina-se que seriam mais amargas do que as águas salgadas e agitadas que já terá atravessado até se cruzar com João Afonso, na Grand Avenue. Mas como podes tu ignorar Deus? Por Deus eu cheguei aqui, estou aqui a falar contigo. Eu não ignoro Deus, apenas deixei de me questionar o que ele quer de mim e de me permitir a que a sua vontade condicionasse a minha vida, porque isso não é ser Deus, condicionar os seus súbditos de forma tão cruel ao ponto de se acreditar que lhe devemos sacrifícios, ou a vida… eu não posso venerar um deus como o do velho testamento, que cometeu tantas atrocidades, tantas mortes, tanto sofrimento nos humanos. Só porque sim, porque quero, posso e mando. Esse não pode ser o meu deus com Dê grande, Quem é então esse teu Deus, que dizes que não ignoras? Deus para para mim não é uma preocupação, se existe ou não existe, se em corpo ou forma, espírito ou visível, se tem planos para nós ou não, isso não deve ser da minha preocupação. Eu vejo Deus nesta árvore que aqui cresce ao nosso lado, sinto Deus no frio da brisa que nos regela agora a cara, na força das tempestades que assolam os Estados Unidos, nos olhos da minha filha quando se decepciona comigo. Deus é toda a natureza que me envolve, e ela trata de me equilibrar, sem me pedir nada em troca, e por isso lhe sou grato, à Mãe Natureza, se quiseres, o meu Deus. Elie já não queria chorar, sorria, abraçou-se a João Afonso, beijou-lhe a testa e se afastou. Afonso queria deixá-lo partir, e pensou que Elie de facto queria partir, pelos hesitantes passos que deu, mas avançou de novo para João Afonso e pôs a mão direita no seu próprio peito esquerdo, e com os olhos novamente cheios de amargura o sírio voltou-o a indagar, Vou-te pedir um favor que nunca pensei vir a necessitar de pedir, o meu filho só me consegue fazer chegar dinheiro pela Western Union daqui por dois dias, e hoje tenho uma etapa fundamental , e que me aflige, porque todo o meu futuro depende de eu chegar a tempo, até amanhã a tarde a um amigo que me aguarda muito longe daqui, preciso de 52€ para o bilhete do comboio que me levará, e não tenho dinheiro para comer ou onde dormir há dois dias. Por isso procuro uma igreja e não a encontro, mas encontrei-te a ti, suplico-te, ajuda-me. Neste momento já choravam os dois e com voz embargada o português lhe explica, Não tenho esse dinheiro comigo, queria muito te ajudar, mas o que tenho no bolso é para as refeições dos próximos dois dias aqui em Paris e já é menos do que esperava, Quanto me podes dar? Vinte euros. Obrigado, respondeu Elie estendendo a mão. Afonso meteu a mão ao bolso donde lhe saiu um monte de cartões, recibos e algumas notas dobradas com a de vinte a cobrilas. Ao desdobra-la para lha dar aparecem as restantes de cinco euros num montinho generoso, Elie abana a mão e súplica por mais, os seus olhos fazem João Afonso esquecer tudo no momento e desdobra as restantes depositado-as na palma da sua mão, Vinte e cinco, trinta, trinta e cinco, quarenta, é tudo o que tenho Elie, e ficarei sem dinheiro para comer, mas tu ficarias pior sem ele, eu ca me arranjo. Mas Elie insiste, sem pronunciar uma só palavra, um só gemido, uma sequer expressão, abana a mão com firmeza e aquela mão lhe diz, Mais. No desespero da situação quando lhe ia a dizer e mostrar que, Elie, não tenho mais , de repente ao folhear os recibos e cartões que tinha ainda na mão aparecem mais algumas notas de cinco com que não contava e para estranha surpresa de João, mas não da de Elie. Quarenta e cinco, cinquenta, Quanto disseste que precisavas? Cinquenta e dois, depositou-lhe na mão estendida a última nota que tinha, Cinquenta e cinco. Elie deu dois passos atrás, uniu as duas mãos com o dinheiro ainda no meio delas elevo-as entre o queixo e o nariz em sinal de prece, e de cabeça inclinada para o céu soltou umas palavras incompreensiveis. Arrumou o dinheiro, e dirigiu-se a João Afonso abraçando-o de forma apertada enquanto lhe dizia, Deus te recompensará em dobro. Não te esqueças de mim, Elie intaká professor de filosofia, Aleppo. O portugês confirma-lhe que não o esquecerá, mas interrompe-o, Espera, quero uma recordação tua, uma foto, pode ser? E algo teu que possa trazer comigo. Como assim contigo? Um objeto, uma simples mensagem escrita num papel, o que queiras. Okay, assim terás.

    O sírio ficou parado a olhar para João Afonso enquanto eu ele se afastava, soube disso porque depois de alguns passos desde que o deixará, João Afonso se havia voltado procurando saber a direção que o outro tomaria. Estava lá, no mesmo sítio com mão estática no ar despedindo-se, sorriu e Afonso devolveu-lhe um adeus e prosseguiu.

    João Afonso dobrou a esquina com um turbilhão de emoções pois que não se entendia. O que fora aquilo, como é possível, que sorte será a deste homem? E lá estava ela, a grandiosidade de Eiffel. À volta ouviam-se falar demasiadas línguas, uma verdadeira Torre de Babel, que reza a história um dia deus a impediria, na tamanha ousadia dos homens quererem fazer uma torre que toca-se os céus, e confundido-lhes a língua, aos trabalhadores, deus vetou-lhes o feito. Parou obliquamente na direção dela. Acendeu o cigarro do momento, pois que se fumar mata, ao menos que cada cigarro seja uma vitória, uma contemplação, um celebrar da vida. Aquele era o da celebração de João Afonso a Elie. Durante dois minutos, permanece de pescoço torcido para o ar, não porque dê jeito aos pulmões para expulsar o veneno, mas para apreciar a crueza da obra, ferro puro, minerio velho, escória da mãe terra, e que um deus da engenharia soube conjugar. E assombra-lhe agora ao pensamento, Como pode a humanidade ser capaz de coisas tão grandiosas na mesma medida em que pratica as mais asquerosas? Apagou a beata na calçada de Paris.

    in «O Último Fôlego» – Autobiografia

     

     

  • bat, bi, hiru, lau

    bat, bi, hiru, lau

    João já te disse o casaco é este e com botas de borracha e chiu! Mãe, outra vez esse casaco com botões aos pauzinhos… Tu deixas é de ser esquisito, vestes o casaco e embora que estás atrasado. João Afonso esgotara as alternativas. Era de entre os três irmãos o que mais regateava as vestimentas que a mãe lhe apresentava, mas Júlia já possuía um mestrado de habilitações validado pela educação dos três rapazes. Redundante e sem deixar margens para dúvidas, habituara-se a contornar aquelas birras do filho do meio, que repetia frequentemente quanto à angústia do traquinas de cabelo liso castanho, franja esticada de corte arredondado mal amanhado feito pelo próprio pai e que mais lembrava um capacete penico que lhe tapava as orelhas. Certo era que o rapaz mostrava complexo de vestir aquelas roupas mais saloias não lhe basta-se já ter o estigma social de ser um Português em terras dos Pirenéus espanhóis.

    Júlia Afonso era detentora de um intuito materno apurado e se havia coisa que não lhe faltava era a convicção de um suposto bom gosto abrilhantado por aquele toque algo refinado para a indumentária. Assim a vizinhança o confirmava, pois que eram frequentes os elogios que a mãe colhia entre pares pela apresentação esmerada dos miúdos, não obstante as dificuldades em cria-los sozinha o que não bastando, acrescentava-se ter ainda de sustentar o marido e aparar-lhe os golpes.

    Adios! Resmungou João Afonso enquanto batia atrás de si a forte e pesada porta que também o próprio pai fizera. Jorge Silva é angolano, neto de um Português de Espinho que fora para colónia portuguesa e fizera fortuna no comércio do café e diamantes entre outros. Jorge tivera portanto berço, e tinha as típicas boas maneiras da alta sociedade de Luanda. Cuidava que tal berço se refletisse nos filhos e lá tinham de comer os miúdos, pelo menos quando o pai estava à mesa, de garfo e faca desde tenra idade, nem que a refeição fosse frango assado. Mas era também um rebelde parido de nascença. Filho do menino mulato da casa com a empregada preta como a ferrugem, um castanho tão escuro como o café torrado mas linda e com um brilho nos olhos maior que o dos diamantes que o patrão comercializava. Jorge é o primeiro, o mais velho dos pelo menos 13 filhos de cinco mulheres distintas que eram reconhecidos ao avô Ilídio. Autodidata por natureza, com a mesma habilidade que cortava o cabelo aos filhos, Jorge construia uma porta lá para casa, levantava uma parede em tijolo se preciso fosse ou reparava eletrodomésticos, esta que era a sua ocupação nas horas vagas, quando não se encontrava metido em confusão da grossa ou agarrado aos copos de bebida branca.

    Já na rua, João Afonso tirou as perneiras das calças para fora das galochas pretas, descalçou as luvas que amarrotou para dentro dos bolsos do casaco impermeável caqui azul escuro com risca vermelha e branca, o seu preferido que andava sempre escondido na mochila para dias de emergência. Fez-se pela ladeira abaixo deixando para trás a Villa Namur em Pasai Antxo, povoação da periferia de San Sebastián, área dos subúrbios da cidade e que contava com 370 mil habitantes, daquela que era a capital da província espanhola de Guipúscoa situada na região autónoma do País Basco. Está no limite de fronteira do Noroeste de Espanha com a entrada oeste de França. A província Basca é a segunda mais poderosa economia do país, logo a seguir a de Madrid. Jorge Silva sabia-o, por isso para ali desertara de Portugal e fora embarcadiço nos primeiros tempos de San Sebastian cidade com alto movimento portuário. Por aquelas montanhas os dias eram brancos de neve naquele dezembro de 1982.

    Espera João! Que também estou de saída, ouve o pequeno Afonso que voltou-se e lá vinha o companheiro das tropelias, Iñaki, de sete anos, mais um que João Afonso, também ele irmão do meio dos Iglesias, de Iker o mais velho, e Paloma a irmã mais nova por quem o coração do João palpitava.

    Conho! Que teu adorado Luis Miguel Arconada deu-me ontem uma grande alegria. Mas que fífia aquele golo. Cô-coro-cô-cô! Cacareja Iñaki enquanto com os braços dobrados imita uma galinha a dar às assas. O pequeno chavalo não podia desperdiçar a oportunidade. Sabia como poucos da adoração que João Afonso nutria pelo guarda-redes da Selecção Espanhola, personalidade que era o orgulho do clube de futebol da cidade, o Real Sociedad. Luis Miguel Arconada, guarda-redes da equipa do campeonato espanhol que traja de azul e branco viria-se a tornar no maior ícone de sempre do Real Sociedad. De resto, Arconada era tão somente um nome que começava a ter tanto de sonante que se tornaria lendário no futebol mundial pela destreza entre postes, e conforme constataria o jovem João Afonso anos mais tarde. Já Iñaki era ferrenho adepto do clube da cidade portuaria vizinha de onde era oriunda a família, a capital da província de Biscaia com o seu clube rival o Atlético de Bilbao. Faziam os dois miúdos neste capítulo um curto circuito autêntico. Mandavam patanisca cheirava a queimado. Ostias, Iñaki! Gracias por el recuerdo, atirou Afonso de soslaio à provocação do Iglesias, prosseguindo, olha, já te disse que estamos a aprender o nome dos números nas aulas de euskera? Não, mas diz-me, o que sabes já tu em euskera? Já aprendi umas coisinhas, a contar até quatro por exemplo. João afina a garganta e emite os sons dos primeiros quatro algarismos do idioma nativo Basco: bat, bi, hiru, lau, e acrescenta, a la mierda el BILBAO! Joder João, que te den por culo, cabron de mierda que te agarro. Retira o que dizes! João corre, iñaki busca, atravessam desalmadamente a Plaza Central, saltando os primeiros bancos de madeira, fintando-se entre os anonimos que por alí passam indo à sua vida, com algumas paragens pelo meio para se abastecerem de bolas de neve a serem atiradas. Retira o que disseste, exigia Iñaki. A la mierda el Bilbao, devolvia João afonso – Bat, bi, hiru, lau. Acalmaram por fim com o estridente soar do sino da Igreja de San Firmin situada ali em plena praça. Batia a hora certa que é a mesma de entrada na escola logo alí ao lado. Já viste que ridículas estas batas, a dos parbulitos? Cala-te que ainda há poucos meses andavas com uma igual, devolveu-lhe Iñaki Iglesias, enquanto aguardavam pela passagem da fila dos alunos de parbulitos, as classes de pré-primária na escola espanhola.