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  • Que Bagagem Trazes Nesta Viagem?

    Que Bagagem Trazes Nesta Viagem?

    Sentado na Virago 1100 estacionada, Afonso insiste em riscar a pedra do isqueiro mas esta só lhe devolve faísca, já de lume… nada. O estado de ansiedade começa a apoderar-se dele, que só quer fumar aquele cigarro antes de ligar o motor e sair dalí. No ar, ouvem-se os acordes da última musica do concerto que alí o levara, e rezam: “Talvez um dia saibam Que andei por aqui. E que estas palavras cantadas, Foram escritas para ti.”

    Do Zippo metálico, quanto mais risca, mais faísca, e eís que é interrompido:

    – Afonso, não me queres estacionar o carro?

    Levanta os olhos e depara-se, pasmado, deixando cair o cigarro para o canto da boca, com Beatriz. Sorriso lindo, cara travessa de quem sabe que causou surpresa, e ele pensa, salvo pela Bi…

    – Estaciono, estaciono, mas primeiro dás-me lume que desespero por este último cigarro.

    -Já te vais embora? Mas nós acabamos de chegar… anda beber uma com a gente!

    João Afonso hesita, queria desaparecer dalí, dia que fora de merda, não era de todo boa companhia, mas olhando agora para Beatriz, algo lhe luzia. De olhos brilhantes, Sorriso cativador, doce e meiga como sempre mas agora de semblante novo e descarregado. Não a via ia para uns três anos, e aquela era uma outra versão da Bi, ele que a havia conhecido, provavelmente na pior fase da sua vida.

    -Bute lá então, dá cá a chave – solta Afonso saindo da Mota e ganhando coragem.

    Beatriz sentia sofoco de apertos, e estacionar não era o seu forte. E se Bi salva afonso da melancolia e com a chama que lhe faltava no momento, ele certamente não deixa de ser para ela igual salvamento, terá pensado por um momento… sem imaginar que naquela chama o destino os cruza, e que a faísca até alí adiada, fora ateada por outro elemento… Há quem lhe chame destino a esse grande portento.

    Descem a ladeira, era a noite noite forte das festas da aldeia. Afonso fora alí pelos UHF que eram alí Cara de Cartaz habitual há mais de 18 anos. Beatriz e as amigas vinham para o rendez-vouz daquela Banda icónica dos anos 80, que eram os Kid Loucos, a Puta da Loucura de entretenimento das camadas mais jovens pelas festas de aldeia daquele verão de 2025.

    -Então conta lá, o que é feito de tí, ainda estás casado com a brasileira? Afonso rí-se com a pergunta de Bi sobre a Filha do Capeta. Ambos sabiam que a pergunta trazia água no bico e não era inocente. Era sondagem, embora a Bi o nega-se quando tal se recorda-se nos meses seguintes.

    Sim, não quiz vir – suspira ele, brochando o animo para as lembranças de há três horas atrás… e com esta mentira atira os pensamentos para longe, tornando-se o maior defensor da noite sobre a instituição casamento, ele, que ia para um ano que agudizava e havia rebentado o seu…

    Primeira hora de 24 de agosto, ano 25, Bidoeira city.

  • Em Contramão

    Não é que eu não quisesse diferente ao ver a razão. Nem é que não quisesse ir por vezes em contramão. É saber que na vida as vezes acabas no chão, e é nesses momentos que percebes quem são mesmo teus irmãos. É ser na verdade infinito, e que é para aquilo que nem era bonito que agora sorris. E que se um dia eu fechar os olhos, pelo menos aquilo que deixo sabes que o vivi.

  • No dia em que eu morrer

    No dia em que eu morrer, quero que as lágrimas derramadas à minha volta sejam um hino à alegria. Há alegria de ter vivido, Que sejam uma ode à vida e ao seu criador, que a mesa esteja farta e se possa saudar ao meu percurso. Que quando me lancem as cinzas ao mar, que no ar se ouça os acordes de Going Home e que se apaziguem os espíritos revoltos com a minha partida.

    Pois que os motivos que cá me trouxeram eu os encontrei, e um dia por aí algures convosco me cruzarei.

    Mas isso fica para um dia, se eu morrer, porque até lá, com todos vós quero viver.

    À Mónica. 00h20, vinte e dois de janeiro de dois mil e dezanove.

    À Cati. 15h05, vinte e cinco de abril de dois mil e vinte e seis.

    Jerónimo P.

  • Hello world!

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  • bat, bi, hiru, lau – in «O Último F» -Autobiografia

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    João já te disse o casaco é este e com botas de borracha e chiu! Mãe, outra vez esse casaco com botões aos pauzinhos… Tu deixas é de ser esquisito, vestes o casaco e embora que estás atrasado. João Afonso esgotara as alternativas. Era de entre os três irmãos o que mais regateava as vestimentas que a mãe lhe apresentava, mas Júlia já possuía um mestrado de habilitações validado pela educação dos três rapazes. Redundante e sem deixar margens para dúvidas, habituara-se a contornar aquelas birras do filho do meio, que repetia frequentemente quanto à angústia do traquinas de cabelo liso castanho, franja esticada de corte arredondado mal amanhado feito pelo próprio pai e que mais lembrava um capacete penico que lhe tapava as orelhas. Certo era que o rapaz mostrava complexo de vestir aquelas roupas mais saloias não lhe basta-se já ter o estigma social de ser um Português em terras dos Pirenéus espanhóis.

    Júlia Afonso era detentora de um intuito materno apurado e se havia coisa que não lhe faltava era a convicção de um suposto bom gosto abrilhantado por aquele toque algo refinado para a indumentária. Assim a vizinhança o confirmava, pois que eram frequentes os elogios que a mãe colhia entre pares pela apresentação esmerada dos miúdos, não obstante as dificuldades em cria-los sozinha o que não bastando, acrescentava-se ter ainda de sustentar o marido e aparar-lhe os golpes.

     

    Adios! Resmungou João Afonso enquanto batia atrás de si a forte e pesada porta que também o próprio pai fizera. Jorge Silva é angolano, neto de um Português de Espinho que fora para colónia portuguesa e fizera fortuna no comércio do café e diamantes entre outros. Jorge tivera portanto berço, e tinha as típicas boas maneiras da alta sociedade de Luanda. Cuidava que tal berço se refletisse nos filhos e lá tinham de comer os miúdos, pelo menos quando o pai estava à mesa, de garfo e faca desde tenra idade, nem que a refeição fosse frango assado. Mas era também um rebelde parido de nascença. Filho do menino mulato da casa com a empregada preta como a ferrugem, um castanho tão escuro como o café torrado mas linda e com um brilho nos olhos maior que o dos diamantes que o patrão comercializava. Jorge é o primeiro, o mais velho dos pelo menos 13 filhos de cinco mulheres distintas que eram reconhecidos ao avô Ilídio. Autodidata por natureza, com a mesma habilidade que cortava o cabelo aos filhos, Jorge construia uma porta lá para casa, levantava uma parede em tijolo se preciso fosse ou reparava eletrodomésticos, esta que era a sua ocupação nas horas vagas, quando não se encontrava metido em confusão da grossa ou agarrado aos copos de bebida branca.

    Já na rua, João Afonso tirou as perneiras das calças para fora das galochas pretas, descalçou as luvas que amarrotou para dentro dos bolsos do casaco impermeável caqui azul escuro com risca vermelha e branca, o seu preferido que andava sempre escondido na mochila para dias de emergência. Fez-se pela ladeira abaixo deixando para trás a Villa Namur em Pasai Antxo, povoação da periferia de San Sebastián, área dos subúrbios da cidade e que contava com 370 mil habitantes, daquela que era a capital da província espanhola de Guipúscoa situada na região autónoma do País Basco. Está no limite de fronteira do Noroeste de Espanha com a entrada oeste de França. A província Basca é a segunda mais poderosa economia do país, logo a seguir a de Madrid. Jorge Silva sabia-o, por isso para ali desertara de Portugal e fora embarcadiço nos primeiros tempos de San Sebastian cidade com alto movimento portuário. Por aquelas montanhas os dias eram brancos de neve naquele dezembro de 1982.

     

    Espera João! Que também estou de saída, ouve o pequeno Afonso que voltou-se e lá vinha o companheiro das tropelias, Iñaki, de sete anos, mais um que João Afonso, também ele irmão do meio dos Iglesias, de Iker o mais velho, e Paloma a irmã mais nova por quem o coração do João palpitava.

    Conho! Que teu adorado Luis Miguel Arconada deu-me ontem uma grande alegria. Mas que fífia aquele golo. Cô-coro-cô-cô! Cacareja Iñaki enquanto com os braços dobrados imita uma galinha a dar às assas. O pequeno chavalo não podia desperdiçar a oportunidade. Sabia como poucos da adoração que João Afonso nutria pelo guarda-redes da Selecção Espanhola, personalidade que era o orgulho do clube de futebol da cidade, o Real Sociedad. Luis Miguel Arconada, guarda-redes da equipa do campeonato espanhol que traja de azul e branco viria-se a tornar no maior ícone de sempre do Real Sociedad. De resto, Arconada era tão somente um nome que começava a ter tanto de sonante que se tornaria lendário no futebol mundial pela destreza entre postes, e conforme constataria o jovem João Afonso anos mais tarde. Já Iñaki era ferrenho adepto do clube da cidade portuaria vizinha de onde era oriunda a família, a capital da província de Biscaia com o seu clube rival o Atlético de Bilbao. Faziam os dois miúdos neste capítulo um curto circuito autêntico. Mandavam patanisca cheirava a queimado. Ostias, Iñaki! Gracias por el recuerdo, atirou Afonso de soslaio à provocação do Iglesias, prosseguindo, olha, já te disse que estamos a aprender o nome dos números nas aulas de euskera? Não, mas diz-me, o que sabes já tu em euskera? Já aprendi umas coisinhas, a contar até quatro por exemplo. João afina a garganta e emite os sons dos primeiros quatro algarismos do idioma nativo Basco: bat, bi, hiru, lau, e acrescenta, a la mierda el BILBAO! Joder João, que te den por culo, cabron de mierda que te agarro. Retira o que dizes! João corre, iñaki busca, atravessam desalmadamente a Plaza Central, saltando os primeiros bancos de madeira, fintando-se entre os anonimos que por alí passam indo à sua vida, com algumas paragens pelo meio para se abastecerem de bolas de neve a serem atiradas. Retira o que disseste, exigia Iñaki. A la mierda el Bilbao, devolvia João afonso – Bat, bi, hiru, lau. Acalmaram por fim com o estridente soar do sino da Igreja de San Firmin situada ali em plena praça. Batia a hora certa que é a mesma de entrada na escola logo alí ao lado. Já viste que ridículas estas batas, a dos parbulitos? Cala-te que ainda há poucos meses andavas com uma igual, devolveu-lhe Iñaki Iglesias, enquanto aguardavam pela passagem da fila dos alunos de parbulitos, as classes de pré-primária na escola espanhola.

     

    in «O Último Fôlego» – Autobiografia

    sítio oficial

  • E depois do adeus, Sobral?

    Ponto prévio: Salvador ganhou o Eurofestival da canção, não porque arriscou com uma música portuguesa em contra-ciclo dos demais, mas porque emprestou a sua graça e seu talento ao de outros, o dos excelentes compositores de letra e musica, excelentes produtores e staff, mas sobretudo porque a etiqueta musical adequada e com toda a propriedade para “Amar Pelos Dois” é world music – não é propriamente Portugal.

    E com isto tudo a RTP mudou o figurino do seu concurso, mudou e ganhou. O panorama musical universal agradece o feito dos portugueses, é verdade. Mas vamos lá…

    Como tantos outros, eu não acompanhava o Eurofestival, nem o  Festival RTP da Canção desde os primórdios dos anos 90. Estavamos-nos a marimbar. Mas no dia seguinte, quando acordamos para a enorme polémica envolta no tipo de música e vencedor do candidato português a represntar Portugal em Kiev, a incredibilidade generalizada e insultos ao artista era tal que parecia assunto de Estatal.

    Não me absti de confirmar o que era afinal que estava a provocar a maior revolução desde… bem, chamemos a isto tudo um 25 de Abril da Canção.

    Assisti ao video da interpretação do Irmão de Luísa Sobral – boa escolha! – um bom prenúncio para começar.

    “Google it” , okay, vídeo da musica, mas não consigo formar opinião na primeira visialização…

    Ninguém, no mundo, atrevo-me a dizer, está habituado a ver aqueles trejeitos exagerados e maneira de estar em palco, facto que me distrai logo desde o inicio da atuação, e retira o protagonismo ao mais importante: A melodia, a harmonia, e a mensagem lírica da letra da canção. Pico o play pela segunda vez e fecho os olhos. Quero ouvir aquela musica como se de transmissão de rádio se trata-se. Porque faltou isso. A primeira imagem exageradamente de jingão que Salvador transmite na sua atuação inicial ao vencer o festival de Portugal apaga a força da música.

    E agora sim, o primeiro acorde introduz-me uma abertura com melodia desde logo algo espiritual. O primeiro verso atira para a… A harmonia do arranjo sabe a uma mescla de varias culturas musicais, um arranjo Orquestral (muito) , Jazz (qb), e uma pitada de Boça Nova (para avivar o sabor).

    Sabe-me à “Garota de Ipanema” na cover de Frank Sinatra, divinal. Tresanda a Caetano Veloso, Rita Lee, Elis Regina e Vinicius de Moraes. Tem a calma e espiritualidade de um Fado e o gemer dos Blues americanos, mas sem chorar. uma voz doce mas com relevos, interprtação sem duvida à Jazz. 

    E foi por isto que Salvador Sobral ganhou o Eurofestival. Um português, sim. Em português, sim.

    Mas uma canção sobretudo do mundo para o mundo, que o mundo soube logo agarrar!

    Mas não é por acaso que as radios não agarravam em Sobral. Não é por acaso, é com a sua razão, que o publico foi em grande medida crítico e mal agoirento com aquela primeira e exagerada linguagem corporal da primeira atuação. Não é por acaso que ele se corrigiu e nunca mais abusou de tal maneira com Amar Pelos Dois. 

    Não é por acaso que depois de me apaixonar pela sua musica e seu feito, não consigo passar dos 5 minutos iniciais de abertura de um concerto concerto dele gravado anteriormente à sua prestação em Kiev.

    Nem é por acaso que “A Garota de Ipanema” é a música mais vendida e tocada de todos os tempos nos rankies mundiais.

    E depois do Adeus à Kiev, Sobral?

     

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  • Amor Bandido

    amor bandido.jpg

    Se o mundo para-se, e sem ti eu fica-se, ia exigir ao céus, que me devolvam o que é meu, ou que então me levassem, para ao pé de esse alguém, que faz parte do meu ser, sem quem já não sei viver.

    E se isso me negassem, talvez me vinga-se, com o ar acaba-se, para que não mais respira-se, e à tua porta me levassem, e quando te encontra-se, logo te diria:

    dá-me um beijo! E travessuras ali faria.

    Mas isto era se o mundo para-se e sem ti eu fica-se. Até lá te desfruto a cada dia que passe.