Category: herói

  • O que mais gozo me dá hoje na vida?

    Estar com o meu Balão de Aguardente Velha sentado no sofá. Acender o cigarro e assistir, alí, bem na minha frente. E Ver o desenrolar da(s) vida(s) à volta.
    E vejo, teatros, dramas e comédias. Por vezes óperas líricas me parecem até, e onde fazem questão de me incluir.
     
    E que sem precisar de mexer uma palha para acontecer, mesmo com o seu desenrolar a entardecer, perceber que a Lei do Retorno funciona e o que com isso aquela pessoa. teve a ganhar ou a perder. Com o fim dumas peças me rirei, com outras talvez chorarei. São os filmes da vida que passam pelo meu sofá, que mora na Rua da Alegria.

     

  • Perguntar não ofende #21

    Porquê é que as greves de uns são sempre às sextas feiras

    mas as manifestações dos outros são sempre ao sábado?

    received_2186871541551062.jpeg

  • Achados

    IMG_20181216_120941.jpg

     

    Vou a um negócio de homens, desta vez tens de ficar em casa, disse Cipriano Algor ao cão, que correra para ele quando o viu aproximar-se da furgoneta. É claro que o Achado não necessitava que o mandassem subir, bastava que lhe deixassem aberta a porta do carro o tempo suficiente para perceber que não o expulsariam depois, mas a causa real da sobressaltada corrida, por muito estranho que possa parecer, foi ter ele suposto, em sua ansiedade de cão, que o iam deixar sozinho. Marta, que saíra para o terreiro conversando com o pai e o acompanhava à furgoneta, tinha na mão o sobrescrito com os desenhos e a proposta, e embora o cão Achado não tenha idéias claras sobre o que são e para que servem sobrescritos, propostas e desenhos, conhece da vida, em todo o caso, que as pessoas que se dispõem a entrar em carros costumam levar consigo coisas que, em, geral, mesmo antes de para eles subirem, atiram para o banco de trás. Instruído por estas experiências, percebe-se que a memória do Achado o tenha levado a pensar que Marta iria acompanhar o pai nesta nova saída da furgoneta. Apesar de estar aqui há poucos dias, não tem dúvidas de que a casa dos donos é a sua casa, mas o seu sentido de propriedade, por incipiente, ainda não o autoriza a dizer, olhando em redor, tudo isto é meu. Aliás, um cão, seja qual for o tamanho, a raça e o carácter, jamais se atreveria a pronunciar palavras tão brutalmente possessivas, diria, quando muito, tudo isto é nosso, e ainda assim, revertendo ao caso particular destes oleiros e dos seus bens móveis e imóveis, o cão Achado nem daqui a dez anos será capaz de ver-se a si mesmo como terceiro proprietário. O máximo a que talvez consiga chegar quando for cão velho é ao obscuro e vago sentimento de participar em algo arriscadamente complexo e, por assim dizer, de escorregadias significações, um todo feito de partes em que cada uma é, ao mesmo tempo, a parte que é e o todo de que faz parte. Idéias aventurosas como esta, que o cérebro humano, grosso modo, é mais ou menos capaz de conceber, mas que logo tem uma enorme dificuldade em trocar por miúdos, são o pão nosso de cada dia nas diferentes nações caninas, quer de um ponto vista meramente teórico quer no que se refere às suas consequências práticas. Não se pense, contudo, que o espírito dos cães é como uma nuvem bonançosa que levemente passa, uma alvorada primaveral de suave luz, um tanque de jardim com cisnes brancos vogando, se o fosse não teria o Achado começado, de repente, a ganir lastimeiro, E eu, e eu, dizia ele. Para responder a tal desgarramento de alma aflita, não tinha achado Cipriano Algor, apreensivo como ia pela responsabilidade da missão que o levava ao Centro, melhores palavras que desta vez ficas em casa, o que valeu ao angustiado animal foi ter visto Marta dar dois passos atrás depois de ter entregado o sobrescrito ao pai, assim ficou o Achado ciente de que não o iriam deixar sem companhia, na verdade, mesmo constituindo cada parte, de per si, o todo a que pertence, como cremos que já deixámos demonstrado por a + b, duas partes, desde que estejam unidas, fazem muita diferença no total. Marta acenou ao pai um cansado gesto de adeus e voltou para casa. O cão não a seguiu logo, ficou à espera de que a furgoneta, depois de descer a ladeira para a estrada, desaparecesse por trás da primeira casa da povoação. Quando daí a pouco entrou na cozinha, viu que a dona estava sentada na mesma cadeira em que tinha trabalhado durante estes dias. Passava os dedos pelos olhos uma , e outra vez como se precisasse de aliviá-los de uma sombra ou de uma dor. Decerto por estar no tenro verdor da mocidade, Achado não teve ainda tempo de adquirir opiniões formadas, claras e definitivas sobre a necessidade e o significado das lágrimas no ser humano, no entanto, considerando que esses humores líquidos persistem em manifestar-se no estranho caldo de sentimento, razão e crueldade de que o dito ser humano é feito, pensou que talvez não fosse desacerto grave chegar-se à chorosa dona e pousar-lhe docemente a cabeça nos joelhos. Um cão mais idoso, e por essa razão, supondo que a idade está obrigada a suportar culpas duplicadas, mais cínico do que o cinismo que não pode evitar ter, comentaria com sarcasmo o afectuoso gesto, mas isso deveria ser porque o vazio da velhice o teria feito esquecer-se de que, em assuntos do coração e do sentir, sempre o demasiado foi melhor que o diminuído. Comovida, Marta passou-lhe devagar a mão pela cabeça, acariciando-o, e, como ele não se retirava e continuava a olhá-la fixamente, pegou num carvão e começou a riscar no papel os primeiros traços de um esboço. Ao princípio, as lágrimas impediam-na de ver bem, mas, pouco a pouco, ao mesmo tempo que a mão ganhava segurança, os olhos foram aclarando, e a cabeça do cão, como se emergisse do fundo de uma água turva, apareceu-lhe na sua inteira beleza e força, no seu mistério e na sua interrogação. A partir deste dia, Marta vai querer tanto ao cão Achado como sabemos que já lhe quer Cipriano.

    Extraído de: SARAMAGO, José. A Caverna. Companhia das Letras, 2000. p.85-87.

     

  • I need a Hero – in «O Último F» – Autobiografia

     

    cao policia M.jpg

     

    João Afonso agita com força o isqueiro branco da Bic no ar. Roda-lhe a pedra e dá faisca mas continua a não sair lume. levanta o isqueiro a altura dos olhos e verifica-lhe o nível de gás no contra-luz da rua. Encontra-se no Hall de entrada da pastelaria Nova Falagueira na Amadora. O dia é solarengo, o primeiro em que o astro que comanda a vida espreita neste ano de dois mil e dezoito, uma aberta aos dias frios e húmidos como o são sempre todos os de janeiro, exceto, recorda, os primeiros doze que dizem os antigos, cada um desses variar no clima variação essa que corresponde à previsão de cada um dos meses seguintes do ano. Este dia de Reis era solarengo portanto, e confere, junho seria um mês normal. Larga a fumaça solta pelas narinas. Abotoa o casaco com frio e olha para o cão preso pela trela no poste em frente que avisa quem por ali passa que esta é uma zona com vídeo vigilância, para segurança das pessoas, bens e prevenção criminal, lê-se. A Amadora não é de facto uma cidade pacífica. O cão esse não tem frio. Um Serra da Estrela de pelo comprido, cor fulvo lobeiro, com o sangue quente, uma boa dose de camada de gordura no próprio couro cabeludo, e com o seu manto de pelo lustroso, procura sempre os pisos mais frios para se deitar ou fica a sombra, não fosse ele concebido para sobreviver a invernos inteiros ao relento em ambiente de temperaturas negativas da serra que lhe dá nome à raça.

     

    Olha o Tarzan! Dispara uma voz do canto da avenida. Tarzan! Oh conas, não vês que ele está preso ao poste da polícia, retorquiu uma segunda voz. Eram três gaiatos. Eu bem te disse que ele era cão polícia. Os ciganitos na ordem dos seis, dez, e treze anos fazem festas ao Herói que agora se levantara. Olha, como é que se desata isto? Psst, está quieto, pensas que estas em casa? Interrompe João Afonso na sua pausa de cigarro à porta da pastelaria. Os ciganos viram-se para trás com cara de cu sem saber o que dizer ao homem mas o mais puto e reguila de todos não perde tempo. Ah senhori, este cãoé é meué. É teu? Desde quando? Esse cão é meu. E não se chama Tarzan, chama-se Herói. É meué é, que encontrei-o abandonado noutro dia, até o prendi no acampamento com um cordeli e tudo mas ele arrebentou-o e saltoué o muro, e olhe que o muro é mais alto que você! e fugiué.

    Com que então foste tu! Bem o podia procurar toda a tarde e noite dentro. E tu com ele preso. Este cão é meu, não viste que tinha coleira? Fugiu-me, estávamos a passear e nunca mais o encontrava. Se mais alguma vez o virem sozinho pegam nele pela coleira e vão-me tocar à campainha no prédio alí atrás em frente ao supermercado. Entendido? Sim senhori. Mas podemos brincar com ele? Podem. Oh senhori, porquê ele está preso a este poste da polícia, ele é cão polícia, perguntou o mais velho. É, responde Afonso. E o senhori é polícia? Sou. Portanto cuidado! Vês, eu não vos disse que era cão polícia! Eu já o tinha visto uma vez numa rusga que fizeram ao acampamento!

    João Afonso dá uma gargalhada com vontade. Mal sonham os ciganos que o Herói ainda nem tivera tempo para grandes rusgas na cidade de há tão poucos dias que ali chegará.

     

    A história do João e do Herói é ainda muito curta, nem sequer tem ainda uma semana, mas o canídeo já domina o território. Herói é um cão nobre, possante de movimentos e atitude, de fazer alguns transeuntes mudar de passeio quando o avistam à distância. É ao mesmo tempo o cão mais doce e carente de mimo que João Afonso algum dia conhecera. Ao mínimo descuido, à menor das oportunidades, o Serra da Estrela fugia e passava tardes inteiras nas suas pesquisas de rua. Foi o que fizera ao dono dois dias antes, que o deixou desorientado toda a tarde e serão dentro, à procura dele pela cidade e que não o encontrava. Pudera, afinal por um cordel estava preso. Era já meia noite quando se preparava para deitar numa noite que já a imaginava em branco preocupado com o paradeiro do cão, quando, numa última e derradeira tentativa do dia volta para trás largando a maçaneta da porta do quarto. Calça as botas, pega no chapéu de chuva e nas chaves e desce as escadas do prédio. Última tentativa, última ronda do dia, se não aparecer amanhã logo se vê, há-de lhe dar a fome, sabe onde tem comida. Será? Absorto nos pensamento Afonso abre a porta de saída do prédio, da dois passos em direção ao carro, e, pasme-se, fica intacto com o chápeu de chuva em posição de quem ia ser aberto, mas que se lixe a chuva. Deus me valha! Héroi, Ordinarão! Isto faz-se? O Serra da Estrela levanta a cabeça, olha para João Afonso, deixa cai-la de novo no chão onde estava prostrado, ao lado da roda esquerda do carro de João Afonso, visivelmente combalido. João Afonso analisa-o, tem medo que tenha sido batido pelo sôfrego trânsito da cidade. Herói não se levanta nem quando para isso é mandado. Apalpa-lhe todo o corpo, parece-lhe bem. João ajoelha-se ao seu lado, abraça-o pelo pescoço, beija-o e chora. Já sabes quem é o dono, carago.

    O cão apodera-se do coração do João naquele instante, ao fim de quase uma semana de convívio, mas a história do Herói e Afonso era outra e bem mais antiga. E o cão não o sabia.

    in «O Último Fôlego» – Autobiografia

    sítio oficial