Category: do xxi ao 31

  • Tréguas na batalha

     

    Tal como era censurável que as autoridades portomosenses se mantivessem arredadas das comemorações da Batalha de Aljubarrota, parecem-me louváveis as aparentes tréguas verificadas na organização das comemorações, e onde finalmente se pode constatar, pela primeira vez, uma defesa condigna dos interesses e da memória portomosense, com a participação do Município de Porto de Mós na organização conjunta (com a Fundação Aljubarrota e o Município da Batalha) das habituais comemorações assinaladas há cerca de 15 dias.

     

    Entre 1383 e 1385 os tempos em Portugal foram de crise política, guerra civil e anarquia.

    Fruto das pelejas constantes entre os dois reinos vizinhos, que procuravam a sua consolidação no território da Península Ibérica, a coroa portuguesa colocou-se numa posição frágil resultante de um acordo de paz (Salvaterra de Magos, Março de 1383) quando seu rei, D. Fernando I acede a que o filho varão que nascesse do casamento de sua filha única, D. Beatriz, com D. Juan I de Castela, herda-se o reino de Portugal. Tal posição era mal vista pela maioria dos portugueses que entendiam ser grande o perigo de união dinástica de Portugal com Castela, caso D. Beatriz viesse a falecer antes de seu marido, e sem filhos.

    Perante a resistência de Portugal a ser subjugado por Castela, os portugueses unem-se em volta de D. João, mestre da Ordem de Avis, aclamado pelas cortes em Coimbra (Abril de 1385) como sucessor do trono.

     

    Foi neste contexto de crise e guerra que a povoação de Porto de Mós e o seu castelo tomaram o partido de D. João I e acolheram as suas tropas, comandadas por D. Nuno Álvares Pereira, na véspera da grande batalha que viria a afirmar definitivamente Portugal como uma nação sólida e independente. Foi nos terrenos de Porto de Mós que se travou a mais célebre e importante das batalhas portuguesas. Batalha essa que confirmou Portugal, para além de uma nação reconhecida, como um povo de querer e vontade afirmativa.

     

    Que Porto de Mós e o seu Município saibam, neste concreto e definitivamente, “sair do armário”.

    PC Jerónimo da Silva

    publicado no Jornal ‘O Portomosense’ de 02/09/2010

  • DO XXI AO 31 (ed. 3)

     

    Com o Euro 2004, o sentimento de sebastianismo popular chegaria também a Selecção Nacional. O show off prolongou-se. 2006, 2008, 2010…

    O texto de hoje Já tem dois anos, mas pela sua actualidade pensei em recupera-lo, e rezava assim:

     

    No sábado 7 de Junho, dia de abertura oficial do Euro 2008, os Espanhóis em Madrid viviam a vida deles como o que imagino que devam ser os sábados madrilenos. Tudo bem que a sua selecção só se estrearia na quarta-feira a seguir, mas, no país onde “Portugal é Lisboa e o resto é paisagem”, já se respirava selecção um mês antes. Fazendo um zapping pelos canais de emissão aberta da televisão espanhola, não conseguia descortinar que o Euro já tinha arrancado. No País onde “Portugal é Lisboa e o resto é paisagem” , um mês antes contavam-se os dias para o arranque do Euro, porque – estava profetizado – a Selecção Portuguesa  ganharia o Europeu.

     

    Bandeiras Espanholas não faltavam por Madrid. Nos edifícios públicos, museus, alguns hotéis, na fatídica Estação de Atocha…

    No País onde “Portugal é Lisboa e o resto é paisagem” a bandeira até já dá como peça de vestuário, assim haja imaginação! A Selecção  é digna das maiores Honras de Estado com horas e horas ininterruptas de emissão nos médias a propósito dos “prometidos” levantarem voo ao céu num avião  baptizado por seu nome de «Esperança»

    A deslocação ao país vizinho passou-se, e de volta, cá estamos: “É Dia da Raça”, diz Sua Excelência Presidente Cavaco, num dia 10 de Junho de Portugal é Lisboa  (que o resto da paisagem prepara-se para as paralisações dos camionistas (“são os maiores!”) e lá voltamos a saga da selecção que, profecia das profecias, ganharia o Europeu de 2008…

    Mas não, cedo saberia como se perderia, e pouco depois quem calmamente o ganharia.

     

    Embandeirar em arco, são coisas típicas do Português. Já «nuestros hermanos», fizeram jus ao verso da melodia: “Há muito quem beba do vinho, e coma em pratos de marfim. A gente, primeiro come a relva e faz a festa no fim”.

     

    Boa Sorte Portugal!

    PC Jerónimo da Silva

    publicado no Jornal ‘O Portomosense’ de 10/06/2010

    Texto citado original aqui

  • DO XXI AO 31 (ed.2)

     

    Num estudo publicado em 2007 pelo jornal francês ‘Libération’, foram dados 46% dos jovens consumidores americanos como nunca tendo comprado um CD de música.

    O Compact Disc, que vimos entrar-nos pela casa dentro nos finais dos anos 80, viria ele próprio, em menos de 20 anos, a deixar de ser o símbolo duma tecnologia dominante.

    Com o popularizar dos computadores pessoais, que também começam a fazer parte da mobilia em cada vez maior numero de famílias, pela mesma altura, estavam criadas as condições  para a decadência no reinado do mercado  em suportes digitais, fossem música ou filmes. A “ignição” estava montada, e o rastilho aceso. Mas a “explosão” dá-se com o propagar da internet, e suas plataformas de trocas ou descarregamento de ficheiros, um “trinta e um valente” que se diz ser, o tiro de afundanço nas vendas de CD e DVD.

    Tal não era previsível no início, pois contrariamente à cantiga de 79, se o “Video  (didn’t) Killed the Radio Star”, certo é que: o CD, com a sua sonoridade mais “cristalina”, sem grainhas ou arranhões, mata as cassetes áudio e «aparentemente» arruma com os LP´s de vinil.

     

    No entanto, as aparências iludem e quando poucos o ousariam, eis um ressuscitar do velho e resistente formato: os  LP’s de vinil!

    Sem precisarmos de recuar no tempo, e paradoxalmente, nesta era do XXI  já vinha sendo notório,  paulatinamente, que os contemporâneos do vinil nunca abandonariam o velho formato, mas o mais curioso (!) , é observar a descoberta de adeptos cada vez mais jovens cuja idade lhes roubou a oportunidade de saborear os ritos envoltos naqueles mistérios encobertos num álbum de ‘papelão’.

    O ritual que passa pelo tirar da bolacha preta do invólucro, colocar o disco no prato, fazer pontaria na trilha correcta para não falhar o inicio da musica, olhar para a capa e apreciar o grafismo ou a mensagem envolta, a sonoridade dos graves e agudos mais puros, entre tantas outras coisas únicas neste centenário ‘formato’, são coisas que o CD disfarçaria mas não colmataria.

    PC Jerónimo da Silva

    publicado no Jornal ‘O Portomosense’ de 29/04/2010

    fontes do texto: excertos de cosmeticas.org

  • Alice in Wonderland: Entre o cinema mudo e os efeitos especiais, venha o Diácono e escolha…..

     

    Se Nuno nos recordou no post de ontem, uma das facetas relacionadas com o dilema levantado num frente a frente »da Sétima vs a Nona Arte« (Cinema vs BD), eu aproveitava a deixa para me concentrar no confronto geracional existente dentro da própria Sétima arte presente em Alice no País das Maravilhas .
    Trocando por miúdos, e para os mais distraídos, no fundo Alice in Wonderland é uma película, tão antiga como desde 1903, tendo conhecido bons toques e “arranjos de maquilhagem cosmética”, adaptando e atravessando vários formatos transversais à era dos filmes aqui apresentados por:

    (1) – “silenciosos” (sem qualquer dialogo nem banda sonora), (2) – passando pelos “filmes mudos” (sem dialogos, mas com banda sonora à acompanhar), (3) – entrando na “era do sincronismo sonoro P&B” (com voz, diálogos/narração, à preto e branco) , (4) – cavalgando pela “era das cores”.

     

    Revisitando o tema, assim de repente, diria que este filme acabou por isso sendo transversal à todo o século 20,  conhecendo grandes lançamentos nos anos de 1903, 1915, 1933, 1951, 1976, 1985, e 1999. 
    Pelo que, nem o Grande Mestre em clichés, do “vira o disco e toca o mesmo”: James Cameron, com seus 3D’s acompanhado de mil e uma mariquices de efeitos especiais, conseguiria trazer à velha estória, neste momento, grande coisa de novo…

     

    O que aguardar então desta 1ª “grande versão” séc. XXI?

     

    Acho que será a mesma mágia de sempre!

    Para que não restem dúvidas, e o agora aqui citado não passe por mero “31de boca :-) , será precisamente essa umas das próximas etiquetas em exibição alí ao lado, na COSMéTICAS tv. Alice in Wonderland. A não perder: os desenvolvimentos em cartaz.

     

    Watch live streaming video from COSMéTICAS tv at livestream.com

    Post que pode, e deve ser lido, como continuação “deste” e  “deste“.


    PC Jerónimo da Silva

  • DO XXI AO 31 (ed.1)

     

    A EFEMÉRIDE E O MUNDO FEMINIZADO

      

    Perguntei-lhe se alguma vez se havia sentido em prejuízo, pelo simples facto de ser rapariga,   ou se achava que, caso fosse rapaz, teria só por isso a vida mais facilitada.

    “NÃO! “Respondeu-me ela, categoricamente, do alto de seus poucos 12 anos. 

     

    Há para quem,   desde que tem noção da existência da efeméride “Dia Internacional da Mulher”, recentemente assinalada,  que veja tal circunstância na realidade actual, como sendo um confrangedor atestado de menoridade, restando apenas saber, passado a quem: se ao género feminino ou ao masculino.

    Que mais do que a homenagem,  fica implícita uma certa conotação de fragilidade.  Ou que seja mais um prémio de compensação do que por mérito. Talvez não ande longe deste raciocínio, à sua maneira, o entender das futuras mulheres ocidentais contemporâneas. Pelo que vale também a pena atrever-se a questionar, o que acharão disto, já agora, os rapazes. Eles que, cada vez mais introvertidos, vêem as colegas, regra geral, vingarem e obterem melhores resultados, escolares e não só.  Propagam-se os rabos-de-cavalo.

     

    Uma ‘neta de Abril’ respondeu-me recentemente, pela véspera comemorativa de tal efeméride, categoricamente que “não” (acima citado), como provavelmente pode não ser nenhum disparate, afirmar de que igualmente responderiam – à já mais de 10/15 anos, ou hoje – a generalidade da geração dos ‘filhos de Abril’, criados e habituados a ambientes multi-sexo.

    Compreende-se, não obstante, o forte estigma que representará o espírito deste dia para muitos outros, encarando tal como direitos arduamente conquistados e oferecidos de herança, a quem agora talvez os subestime.

     

    Faz sentido, e é justo, assinalar o 8 de Março?

    Faz! Responderão muitos. Basta olhar para sul, África, ou para oriente.

    Já para estes lados do sol poente, pode (já) não ser tanto uma questão de direitos, ou por o século XXI continuar a ser “masculinizado”.

    Pelo contrário, em tal efeméride encontra-se um mundo feminizado.

    Numa era evoluída, onde os indivíduos até à idade adulta, para além da forte influência e vinco instituído familiarmente pela mãe, serão basicamente educados, instruídos e em tanto influenciados, pela crescente proliferação secular das mulheres, caso flagrante o das professoras, tal deveria ser no mínimo algo de intrigante.

     

    É comum entre os jovens homens admitir-se, que foi um professor homem, a pessoa que mais o impressionou / influenciou numa fase crucial da sua vida. No entanto os novos homens do XXI, vêem-se empurrados para este ’trinta e um’ do quotidiano, encontrando-se logo desde tenras raízes em desvantagem.

    Até que ponto e noutra escala, tal fenómeno e efeminização ocidental contribui para uma sociedade mais incompreendida, banalmente desautorizada, algo frustrada, com os “pólos” invertidos e curto-circuitados, é um debate que parece começar a despertar, timidamente.

    A reflexão na mistura do desempenho dos papeis dos sexos faz cada vez mais e maior sentido. Até porque, os ideais não são intemporais,  correm sempre o risco de serem exagerados, ficarem desactualizados, ou mostrarem-se desproporcionados.

     

     

     

    Paulo Jerónimo

    Publicado no Jornal ‘O Portomosense’ de 18/03/2010.

     

  • do XXI ao 31 – (ed.0)

     "A ciência é composta de erros que, por sua vez, são os passos até a verdade." (Júlio Verne)         

    O comodismo proporcionado por um avançado e tecnológico século XXI, embala e absorve o individuo para uma das suas características que lhe é das mais inatas e que passa por ser-se avesso a mudança.

    E se popularmente se admite por sensato que ’em equipa que ganha não se mexe’ , não deixa de ser menos lapidar a de que ‘o homem sonha, e o mundo avança’ .

    Entre o conforto de se conservar e prolongar o já testado, conhecido e bem sucedido, e o arriscar por algo que se apresenta de novo, melhorado e progressivo, facilmente optaremos pela primeira em detrimento da segunda, a menos que se assumam os aparentes erros de hoje, como os passos até a verdade de amanhã.

     

    Temos por cá experimentado, com alguma abundância, destes sabores, ou se preferir, dissabores. Desde a liberalização do aborto, a proibição de fumar em recintos fechados, passando pelo casamento homossexual, ou a acesa discussão do acordo ortográfico, temas esses , uns mais fracturantes que outros, mantêm e entretêm – por vezes desviando as atenções dos demais assuntos emergentes – muitos dos Portugueses.

     

    Mas não é só no seio da sociedade que somos assaltados de mudanças. Elas impõem-se quotidianamente dentro de nossas próprias casas. Desde o gerar/aproveitar de desperdício, ao que, hoje é eficaz e moderno para já amanhã ser considerado obsoleto, tais mudanças são observáveis em qualquer lar deste país periférico, que já teve a ousadia de ser a porta do mundo, e que de algum tempo a esta parte há quem lhe chame o cu da Europa.

     

    Tudo assuntos que vamos espalhando e semeando por aí, e que gostaríamos também de apresentar aqui. Bem vindos à nova rubrica para ‘O Portomosense’ ,  do XXI ao 31  .

     

    Paulo Jerónimo da Silva

    (Edição 0, publicada no jornal ‘O Portomosense’ de 4.02.2010)