Month: December 2009

  • bat, bi, hiru, lau

    bat, bi, hiru, lau

    João já te disse o casaco é este e com botas de borracha e chiu! Mãe, outra vez esse casaco com botões aos pauzinhos… Tu deixas é de ser esquisito, vestes o casaco e embora que estás atrasado. João Afonso esgotara as alternativas. Era de entre os três irmãos o que mais regateava as vestimentas que a mãe lhe apresentava, mas Júlia já possuía um mestrado de habilitações validado pela educação dos três rapazes. Redundante e sem deixar margens para dúvidas, habituara-se a contornar aquelas birras do filho do meio, que repetia frequentemente quanto à angústia do traquinas de cabelo liso castanho, franja esticada de corte arredondado mal amanhado feito pelo próprio pai e que mais lembrava um capacete penico que lhe tapava as orelhas. Certo era que o rapaz mostrava complexo de vestir aquelas roupas mais saloias não lhe basta-se já ter o estigma social de ser um Português em terras dos Pirenéus espanhóis.

    Júlia Afonso era detentora de um intuito materno apurado e se havia coisa que não lhe faltava era a convicção de um suposto bom gosto abrilhantado por aquele toque algo refinado para a indumentária. Assim a vizinhança o confirmava, pois que eram frequentes os elogios que a mãe colhia entre pares pela apresentação esmerada dos miúdos, não obstante as dificuldades em cria-los sozinha o que não bastando, acrescentava-se ter ainda de sustentar o marido e aparar-lhe os golpes.

    Adios! Resmungou João Afonso enquanto batia atrás de si a forte e pesada porta que também o próprio pai fizera. Jorge Silva é angolano, neto de um Português de Espinho que fora para colónia portuguesa e fizera fortuna no comércio do café e diamantes entre outros. Jorge tivera portanto berço, e tinha as típicas boas maneiras da alta sociedade de Luanda. Cuidava que tal berço se refletisse nos filhos e lá tinham de comer os miúdos, pelo menos quando o pai estava à mesa, de garfo e faca desde tenra idade, nem que a refeição fosse frango assado. Mas era também um rebelde parido de nascença. Filho do menino mulato da casa com a empregada preta como a ferrugem, um castanho tão escuro como o café torrado mas linda e com um brilho nos olhos maior que o dos diamantes que o patrão comercializava. Jorge é o primeiro, o mais velho dos pelo menos 13 filhos de cinco mulheres distintas que eram reconhecidos ao avô Ilídio. Autodidata por natureza, com a mesma habilidade que cortava o cabelo aos filhos, Jorge construia uma porta lá para casa, levantava uma parede em tijolo se preciso fosse ou reparava eletrodomésticos, esta que era a sua ocupação nas horas vagas, quando não se encontrava metido em confusão da grossa ou agarrado aos copos de bebida branca.

    Já na rua, João Afonso tirou as perneiras das calças para fora das galochas pretas, descalçou as luvas que amarrotou para dentro dos bolsos do casaco impermeável caqui azul escuro com risca vermelha e branca, o seu preferido que andava sempre escondido na mochila para dias de emergência. Fez-se pela ladeira abaixo deixando para trás a Villa Namur em Pasai Antxo, povoação da periferia de San Sebastián, área dos subúrbios da cidade e que contava com 370 mil habitantes, daquela que era a capital da província espanhola de Guipúscoa situada na região autónoma do País Basco. Está no limite de fronteira do Noroeste de Espanha com a entrada oeste de França. A província Basca é a segunda mais poderosa economia do país, logo a seguir a de Madrid. Jorge Silva sabia-o, por isso para ali desertara de Portugal e fora embarcadiço nos primeiros tempos de San Sebastian cidade com alto movimento portuário. Por aquelas montanhas os dias eram brancos de neve naquele dezembro de 1982.

    Espera João! Que também estou de saída, ouve o pequeno Afonso que voltou-se e lá vinha o companheiro das tropelias, Iñaki, de sete anos, mais um que João Afonso, também ele irmão do meio dos Iglesias, de Iker o mais velho, e Paloma a irmã mais nova por quem o coração do João palpitava.

    Conho! Que teu adorado Luis Miguel Arconada deu-me ontem uma grande alegria. Mas que fífia aquele golo. Cô-coro-cô-cô! Cacareja Iñaki enquanto com os braços dobrados imita uma galinha a dar às assas. O pequeno chavalo não podia desperdiçar a oportunidade. Sabia como poucos da adoração que João Afonso nutria pelo guarda-redes da Selecção Espanhola, personalidade que era o orgulho do clube de futebol da cidade, o Real Sociedad. Luis Miguel Arconada, guarda-redes da equipa do campeonato espanhol que traja de azul e branco viria-se a tornar no maior ícone de sempre do Real Sociedad. De resto, Arconada era tão somente um nome que começava a ter tanto de sonante que se tornaria lendário no futebol mundial pela destreza entre postes, e conforme constataria o jovem João Afonso anos mais tarde. Já Iñaki era ferrenho adepto do clube da cidade portuaria vizinha de onde era oriunda a família, a capital da província de Biscaia com o seu clube rival o Atlético de Bilbao. Faziam os dois miúdos neste capítulo um curto circuito autêntico. Mandavam patanisca cheirava a queimado. Ostias, Iñaki! Gracias por el recuerdo, atirou Afonso de soslaio à provocação do Iglesias, prosseguindo, olha, já te disse que estamos a aprender o nome dos números nas aulas de euskera? Não, mas diz-me, o que sabes já tu em euskera? Já aprendi umas coisinhas, a contar até quatro por exemplo. João afina a garganta e emite os sons dos primeiros quatro algarismos do idioma nativo Basco: bat, bi, hiru, lau, e acrescenta, a la mierda el BILBAO! Joder João, que te den por culo, cabron de mierda que te agarro. Retira o que dizes! João corre, iñaki busca, atravessam desalmadamente a Plaza Central, saltando os primeiros bancos de madeira, fintando-se entre os anonimos que por alí passam indo à sua vida, com algumas paragens pelo meio para se abastecerem de bolas de neve a serem atiradas. Retira o que disseste, exigia Iñaki. A la mierda el Bilbao, devolvia João afonso – Bat, bi, hiru, lau. Acalmaram por fim com o estridente soar do sino da Igreja de San Firmin situada ali em plena praça. Batia a hora certa que é a mesma de entrada na escola logo alí ao lado. Já viste que ridículas estas batas, a dos parbulitos? Cala-te que ainda há poucos meses andavas com uma igual, devolveu-lhe Iñaki Iglesias, enquanto aguardavam pela passagem da fila dos alunos de parbulitos, as classes de pré-primária na escola espanhola.

  • Animais no circo,como são tratados?

    Já passou um pouco de moda, mas a discussão em torno da nova legislação que impedira a continuação de animais em cativeiro para as actividades circenses deu que falar.

     

    Contra ou a favor? É a questão que se coloca.

    Por parte do Lou Moreira, a favor, da nova legislação, para acabar com exemplos como os do vídeo que se segue, que se passam um pouco por todo o mundo, também em Portugal.

     

  • A Transmissão simbólica : Folheto nº6 … (aussi en fr)

     

    La transmission symbolique : Feuillet nº 6

     

    " Mon corps exprime la violence, rend grâce au corps sexy des femmes, défend les créatrices… Face aux ataques, je suis un rempart "  ( Dina )

     

    Dina est peut-être la dernière danseuse du ventre d’ Egypte. Dina doit affronter la colère des islamistes qui veulent interdire ses spectacles.

    Source : "Elle " , 27 Nov 2009

    E Viva o Porto !

     


     

    " O meu corpo exprime a violência , dá elegância ao corpo sexy das mulheres, defende as criaturas… Perante os ataques, eu sou uma muralha "  ( Dina )

     

    Dina é talvez a última bailarina do ventre no Egipto. Ela deve afrontar a ira dos islamistas que querem proibir os seus espectáculos.

    Fonte : " Elle " , 27 de Nov de 2009.

    E Viva o Porto !

     

  • Entrevista com Bernard Plossu ………. (aussi en fr)

     

    Entretien avec Bernard Plossu

     

    Bernard Plossu a un très beau livre de photos sur la ville de Porto. Il fut edité en 2001 par le Centre National de Photographie du Portugal.

     


     

    Bernard Plossu tem uma excelente obra de fotografia sobre a cidade do Porto. O texto é de Maria do Carmo Serén e foi editado , em 2001,  pelo Centro Nacional de Fotografia.

    Segue aqui a entrevista que deu ao diário "Libération "

    (tradução em pt em baixo)

     A primeira imagem ?

    O filme Adémai Aviador, durante uma noite escaldante de Verão, em Juan les Pins, em 1949 penso.

     

    O filme ( ou a sequência ) que traumatizou a sua infância ?

    Traumatizou ? Porquê traumatizou ? Pode ser , ao contrário, encantou ! Primeira lembrança , dois documentários : Um sobre a China, as estátuas de cães diante dos templos ; e o outro sobre o Canadá, as cores extraordinárias das camisas aos quadrados vermelhos e pretos debaixo do céu azul dos filmes a cores perfeitos dos anos 1950.

     

    Uma cena fetiche ?

    Quando Massai, o Apache, em Bronco Apache de Robert Aldrich , encontra de novo a sua montanha , após ter fugido do comboio que o levava , ele e os seus , para uma reserva na Florida. A sua revolta tinha tudo a ver com a do jovem Inglês que recusava  passar a linha, no admirável  " La Solitude du coureur de fond " …

     

    Dirige um remake. Qual ?

    Não tenho ideia. Nunca pensei em "dirigir" , mas so e essencialmente em filmar : Os cameramen interessam-me mais que os realizadores.

     

    O filme que mais viu ?

    Vera Cruz de Robert Aldrich, em qualquer sítio e em todas as línguas, em Francês, Inglês, Espanhol…

     

    Um fotógrafo que gostaria ver fazer cinema ?

    Já o fez. É John Cohen sobre o Perú.

     

    Um sonho que poderia ser o início dum cenário ?

    Sonho recurrente : Ando numa cidade e na montra duma livraria há um…novo Tintin. Infelizmente acordo ! Como filmar isso ?

     

    A personagem que o faz mais sonhar ?

    Aí não tenho qualquer ideia. A palavrra personagem aplica-se sempre a uma abstração de bom orador. Prefiro nitidamente o tempo passado com os índios na Selva, não são personagens, mas pessoas verdadeiras. Arthaud dizia que os Tarahumaras, índios do Norte do México, designam os brancos por " aqueles que se enganaram ".

     

    O cineasta absoluto a seus olhos ?

    Mizoguchi, isto é, Balzac. É o único a ter chegado ao nível de Balzac no desprendimento. E o pudor, essencial, isso ! Como as centenas de páginas de Balzac para descrever uma bela emoção. Não há   "cenas de rabo " para dar  vender.

     

    Um filme que é o único a conhecer ?

    Pouco reconhecido ou cotado : "La Vie à l’envers" de Alain Jessua. É um filme extraordinário sobre o não, sobre a revolta, sobre o absurdo.

     

    O actor que gostaria ser ?

    Não sei. Charles Denner Talvez ?

     

    O último filme que viu ?

    Não vou mais ao cinema. Em dvd "Le cri " d’Antonioni.

     

    Tem saudades do cinema mudo ?

    Mas o cinema mudo existe. Basta não pôr o som . É o que faço com os filmes de Antonioni em dvd. Escapo , assim, às palavras de amor existenciais.

     

    O Cinema desaparece. Um epitáfio ?

    Até logo !

     

    A última imagem ?

    A do dia de amanhã ?

     

    ( entrevista dada ao diário "Libération "  / 18 de Nov de 2009  )